A Escolha de Lucas

Ronaldo D'Arcadia

  terça-feira, 06 de novembro de 2012

A Escolha de Lucas

Em meio a idolatria e amargura, uma pergunta não quer calar: por que afinal George Lucas resolveu vender sua maior criação?

Se você estava de férias em Mercúrio, além de ter pegado um bronzeado, provavelmente não sabe que a Walt Disney Company comprou 100% das ações da Lucasfilm, icônica empresa do cineasta George Lucas, responsável pela franquia “Star Wars” e diversos outros adendos interessantes. Como é de praxe, esta nova aquisição do famoso rato orelhudo será rapidamente integrada a sua rede de parques temáticos – nas cidades de Orlando, Anheim, Paris e Tóquio -, a produção de seus brinquedos (uma cultura já massificada) será exponencialmente intensificada, e a ópera intergaláctica, que tem como foco o conflito entre o bem e o mal – sendo representados respectivamente por Luke Skywalker e Darth Vader -, ganhará mais três sequências, somando então nove filmes – plano inicial de seu criador. O valor da compra foi US$ 4,05 bilhões, que foram integralmente para as mãos de Lucas, que se comprometeu em doar a maior parte do montante para alguns dos projetos filantrópicos que apóia há um bom tempo – como a Film Foundation, Stand Up to Cancer e a Make-A-Wish Foundation.

Bem, dinheiro definitivamente não é problema para Lucas. Mesmo tendo sido lançado em 1977, a série de filmes ainda é uma das mais lucrativas da história do universo, gerou diversos produtos paralelos (como livros, jogos e séries) e garantiu a tranquilidade financeira da família do americano por mais 15 gerações. Fica então a dúvida capciosa: por que George Lucas vendeu sua maior criação? Por que ele mesmo não colocou em prática estes novos planos? Qual é a razão desta escolha de Sofi… quer dizer… de Lucas?

A qualidade técnica e criativa do mestre Jedi é um fato impossível de ser negado. Senão fosse por “THX 1138”, por exemplo, filmes como “Matrix” nunca existiriam. Esta obra prima da ficção científica, de 1971, ainda é atual e revolucionária, e foi o primeiro passo contundente do cara rumo ao coração de zilhares de pessoas. Depois disso, atuando principalmente como roteirista e produtor, vieram “Star Wars”, “Indiana Jones”, “Labirinto – A Magia do Tempo”, “Willow – Na Terra da Magia”, “Em Busca do Vale Encantado”… e até mesmo “Kagemusha, a Sombra de um Samurai”, de Akira Kurosawa. Fitas que fizeram parte da infância de muitos, moldando personalidades e escolhas importantes. Só que mesmo assim, diante de todo este sucesso e talento, o tiozinho barbudo decidiu se aposentar, o que deixa aquela possibilidade (com cara de certeza) no ar: todo o esquema da venda estaria relacionado a uma mágoa pessoal? Mesmo que ele negue, no fundo… lááá no fundo (nem tanto talvez) isso com certeza influenciou.

Todos contra Lucas

Ter um exército de fanboys sempre foi algo perigoso. Peguemos como exemplo a franquia “Crepúsculo”, que talvez fosse um pouco menos enxovalhada se não tivesse tantos fãs debilóides mundo afora. Já no caso de “Star Wars” é tudo muito mais complicado, pois estes fanboys são os originais, são os primeiros de todos. Eles foram a peça fundamental da estruturação de um conceito nerd que hoje domina o mundo – e que digamos de passagem, é muito maneiro. E devido a essa união natural e sem precedentes, os geeks starwarcianos ganharam uma força descomunal, e se tornaram os verdadeiros donos daquilo que tanto amavam, repudiando qualquer elemento que possa descaracterizar a época de ouro de sua existência.

George Lucas se transformaria então em um elemento inferior quando comparado a entidade “Star Wars”. Sua cria crescera de forma assustadora, ao ponto de obliterar seu próprio criador, tirando dele os poderes de controle, o condenando a injúria e difamação. Uma injustiça intergaláctica – tudo isso parece cármico e bem semelhante aos temas do universo “Star Wars”, não?

Algo parecido aconteceu com os Beatles, a maior banda que já existiu. O nome do grupo se tornou muito maior do que seus próprios integrantes, que também foram caçados pela mídia sensacionalista e julgados pelos fãs, o que culminou no assassinato de John Lennon em 1980. Creio que este seja o estágio final do status de divindade em nossa sociedade moderna: tanto “Star Wars” quanto os Beatles já foram, por um determinado período de tempo (para se dizer o mínimo), mais famosos que Jesus Cristo (polêmico demais?).

A escolha de Lucas

Voltando.

E foi quando o autor quis melhorar sua obra prima para novos tempos (fato compreensível para alguém tão ligado na evolução dos efeitos digitais) que o universo desabou. Ele errou ao mexer no que já estava bom? Sinceramente, acho que não. O que estava bom não deixou de existir afinal. Só que é engraçado pensar que muitos das novas gerações, que crucificam o diretor por suas escolhas, nunca assistiram as obras originais, não tratadas. Eles nem ao menos sabem a diferença. Pior ainda são os que não têm coragem, por exemplo, de dizer que “A Vingança do Sith” foi um grande filme, ou mesmo que “A Ameaça Fantasma” não possui qualidade alguma – como se Darth Maul não fosse um dos vilões mais maneiros de todos os tempos, ou que a Natalie Portman, com roupas coladas e rasgadas, significasse pouca coisa (nem preciso dizer mais nada).

Uma generalização cegou a audiência, foi algo contagioso, que enfatizava apenas os pontos negativos, esquecendo dos positivos. É claro que a nova trilogia não tem o brilho de sua antecessora (ela nunca teria), mas creio que no final as obras não tiveram uma análise justa, que fosse isenta de elementos externos e especulativos. Mas fica difícil julgar este comportamento diante de sua magnitude e influência – tirando que muitas coisas foram bem engraçadas, como o episódio do South Park em que Lucas e Spielberg estupram Indiana Jones em uma sessão sadomasoquista, e tem também este vídeo abaixo: “George Lucas Contra Ataca” – hilário.

No entanto, creio que a facada no coração de Lucas foi o mundo dizer que ele fez suas alterações, ou mesmo os novos capítulos da saga, pensando única e exclusivamente no lucro. Isso sim não faz sentido algum. Foi então que seu sonho corroeu, e nós tivemos de viver por muitos anos numa realidade em que nunca mais existiria outro filme da saga “Star Wars”. Lucas em certo momento disse: “Porque eu deveria fazer outro Star Wars, com todos reclamando o tempo inteiro e dizendo que pessoa terrível você é?”. Por isso digo que, a venda da Lucasfilm foi uma jogada correta e altruísta, que beneficia principalmente aqueles que o repudiaram (ele se sacrificou pela humanidade entregando seu filho… por quatro bilhones). Talvez, depois disso tudo, a mentalidade geral dos fanboys mude, não acarretando tanta pressão nas novas produções. De qualquer maneira, a franquia prosperará e encontrará novas gerações de admiradores. Isso é fato.

E sabendo que foi a Disney quem comprou a empresa, tudo fica mais tranquilo. É certo dizer que seu “John Carter” – uma espécie de “Star Wars” genérico – realmente decepcionou bastante. Mas é visível que a mega corporação de entretenimento tem mais acertos do que falhas. Desde que ela trouxe a Pixar de volta para casa, e comprou a Marvel, temos trabalhos inspirados chegando nos cinemas, todos rentáveis e de qualidades artísticas inegáveis. A venda de produtos de suas infindáveis marcas concede à empresa o privilégio de apostar na liberdade criativa de seus “empregados”, o que no final é o mais importante. Ela não tenta encaixar suas novas aquisições em um estilo programático, muito pelo contrário, ela concede total liberdade para os mesmos. Está claro que John Lasseter (chefão da Pixar e do departamento de animação da Disney) e Kevin Feige (chefão da Marvel) não são apenas coadjuvantes em suas empreitadas bem sucedidas, como “Up” ou “Os Vingadores” (citando apenas dois sucessos).

E no final…

Bem… não sou um especialista no universo “Star Wars”, mas posso dizer que admiro a influência e importância deste nome em nossa cultura pop. Assisti aos filmes (algumas boas vezes), conferi na íntegra a excelente série de animação “The Clone Wars”, debulhei os dois “The Force Unleashed”, e até mesmo todos os games LEGO do tema… só que mesmo assim, em certos momentos não me lembro de muitos planetas e esqueço o nome de alguns personagens – mas não me confundo na cronologia dos diferentes projetos, o que para mim já é uma vitória. E diante deste meu humilde currículo, confesso estar muito animado com a nova fase da franquia. A possibilidade de ver mais um filme da saga espacial é algo com o qual sonho há um bom tempo.

A escolha de Lucas com certeza foi difícil. Ele deve, neste exato instante, estar sentido algo impossível de se descrever. Mas o cara acertou na decisão tomada. Já que sua obra estava além de seu alcance, pra que continuar desperdiçando um potencial desse? Este é um bem de todas as galáxias, de todos os homens e de todos os tempos, que não deve ficar presa em carbonite para sempre.

Que a força esteja com vocês!


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