O Jogador no RPG
João Eugênio Brasil

João Eugênio Brasil
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  domingo, 11 de outubro de 2015

Coluna /// Dungeons & Dados Dungeons & Dados

O Jogador no RPG

Afinal, qual o papel do Jogador no RPG?

O Jogador é, sem sombra de dúvida, o elemento mais importante do RPG. Ao mesmo tempo ele é o elemento mais difícil de ser delimitado ou explicado. Em termos simples ser Jogador possui uma conceituação dentro do RPG – ele é o participante que interpretará um personagem, segundo regras de um dado sistema e que se relacionará com um cenário, descrito e conduzido pelo Mestre. Está é uma definição fria e precisa, mas tão fria e precisa que mesmo dando o exato conceito sobre o papel do Jogador, ainda assim está longe do que realmente significa ser um Jogador de RPG.

Vamos à uma historinha então. Não lembro bem o ano. A primeira vez que joguei Ravenloft, um dos tantos cenários de D&D, tive o privilégio de ser mestrado por Rafael dei Svaldi (um dos donos da Livraria Jambô), na época na Planeta Proibido (Porto Alegre), já com suas portas fechadas à algum tempo.

Era uma mesa de iniciantes caótica que estava composta por umas dez pessoas. Mas a imersão era tanta que todos estavam representando e conversando como se realmente estivessem naquele cenário. A cena que me marcou tinha o nosso navio naufragando em meio à uma tempestade perto de uma ilha e todos estavam desesperados em descer o bote para evacuar a embarcação. Mar revolto, ondas gigantescas, ventos poderosos e o navio sendo jogado de um lado para o outro. Todos gritavam em desespero ao redor da mesa como se fossem realmente se afogar. Meu personagem estava na parte frontal do bote com um dos remos nas mãos quando o Mestre descrevia um solavanco que jogaria o bote, que ainda estava preso às cordas e suspenso no ar, de um lado para o outro mortalmente nos lançando de encontro ao casco do navio. Eu descrevi como peguei o remo e tentei por em prática alguma ideia louca que tinha tido (juro que não lembro o que era) para salvar o bote aparando o impacto ou coisa assim. O Rafael me olhou, pensou, me passou o dado e disse quanto eu tinha que tirar – “nada menos que um crítico!”. Todos em silêncio sepulcral me observaram balançar os dados na mão e lançá-los em seus longos segundos até pararem com o crítico necessário, seguido dos gritos de jubilo do grupo todo como se realmente tivessem tido suas vidas poupadas. O Mestre olhou os dados e calmamente fez umas das, até hoje, mais incríveis descrições de cena que já tive o privilégio de participar. Eu realmente me senti de pé no bote, com o remo na mão, vento balançando meus cabelos, a chuva batendo em meu rosto e uma agradável sensação de maresia entrando por minhas narinas. Eu apenas confirmei que nunca mais iria desejar outra coisa que não aquela sensação.

Um Jogador de RPG é uma sensação e nunca um frio conceito. Não importa o sistema ou cenário, ser um Jogador de RPG é a possibilidade de vivenciar de forma real e impactante um ambiente fantasioso de qualquer tipo que seja. Ser Jogador de RPG é divertir-se… sem mais.

Mas vamos ampliar um pouco isso. Participar como Jogador trás a impressão de ser a parte mais fácil do RPG. Por um lado até é verdade. As regras ou o cenário não precisam necessariamente ser de conhecimento completo por parte do Jogador, pois o Mestre tem o papel de mediador entre os Jogadores e o jogo, nisto inclui-se regras e cenário. Por isso mesmo que há tanta facilidade em introduzirmos os novatos no RPG. Ao Jogador cabe interpretar seu personagem. E aqui é que vem a deliciosa, e por que não dizer importante, tarefa dos Jogadores.

Da mesma forma que o mestre se esforça em transformar o RPG em uma experiência que permita aos Jogadores vivenciarem uma outra realidade, os Jogadores, com sua atuação, sim atuação, compartilham desta responsabilidade na emulação do cenário. Esta é uma noção que sempre trouxe comigo, desde meus primeiros momentos no RPG, e que sempre tentei passar para os Jogadores aos quais mestrei, novatos ou experientes – o RPG é uma prática interpretativa e socializante que só terá sucesso com o compartilhamento das responsabilidades com relação à emulação, seja você Jogador ou mestre.

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Embora apenas um conduza o jogo, sob o papel de Mestre, todos participam da tarefa de emular o cenário. O esforço em criar um ambiente crível depende de que todos ‘entrem na onda’, assumindo seus papéis – os Jogadores os seus personagens e o mestre todo o resto. Não podemos ver o RPG como uma prática mecânica onde o mestre vai conseguir sozinho criar todo um ambiente capaz de fazer com que os Jogadores se sintam imersos. Como já disse em uma coluna anterior, o RPG não é um jogo no sentido de que alguém sairá vitorioso. Ele é um jogo onde queremos uma experiência vívida, a emoção de ser outro, de participar de aventuras e nos divertirmos com tudo isso.

O socializante, que mencionei na primeira coluna e hoje novamente, aumenta ainda mais a responsabilidade dos Jogadores, pois a atuação de cada um é diretamente responsável pela diversão de todos no grupo e pelo sucesso da aventura conduzida pelo Mestre. O socializante não é apenas no sentido de que o RPG nos coloca em contato e relação com outras pessoas, mas no sentido de que temos uma responsabilidade compartilhada pela diversão do grupo. Muito embora a diversão seja aquilo que procuramos no RPG, não podemos achar que sua prática é algo simplório ou simplista. É algo simples sim, mas recheado de elementos que o transformam em uma prática saudável e tão incentivada. Desta forma, ser um Jogador é muito mais uma sensação do que um conceito. É uma noção de compartilhamento, de cooperação, de divisão de tarefas e, principalmente, de diversão.

Muito do que vimos sobre RPG nestas três primeiras colunas, com a principal preocupação em apresentá-lo para os novatos, é uma pincelada dentro do enorme universo de sistemas, cenários e conceitos que existem. São noções aproximadas e generalizantes sempre com a intenção de mostrar a ideia e não a regra. Vocês perceberão no futuro, nas colunas vindouras, que existem muitas variações nesses papéis e em sua relação entre si e mesmo em sua relação com o conceito de RPG.

Espero que me acompanhem nesta jornada que está apenas começando!

Sobre » Dungeons & Dados

Dungeons & Dados é um blog sobre o mágico mundo das cavernas cheias de dragões e magos do RPG. Os textos são de João Eugênio Brasil, do blog Confraria de Arton.


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