Introduzindo Novatos ao RPG
João Eugênio Brasil

João Eugênio Brasil
joaoeugenio.cordovabrasil

  terça-feira, 31 de maio de 2016

Coluna /// Dungeons & Dados Dungeons & Dados

Introduzindo Novatos ao RPG

Você que vai introduzir algum novato no mundo maravilhoso do RPG ou começará um novo grupo de neófitos? Bem, algumas dicas sempre são importantes para esse momento.

Nas várias vezes que introduzi novatos no RPG sempre fiz, à cada vez, algo de diferente mais por simples feeling do que por um método pré-estabelecido. Aos poucos fui percebendo que algumas coisas funcionam mais do que outras. Aqui temos algumas dicas simples e básicas que podem ser aplicadas na maioria dos casos de novatos chegando ao RPG. Embora saiba que não existe um padrão entre esses novos jogadores, e que muitos deles têm gostos e expectativas muito particulares, na maioria das vezes essas dicas maximizam o primeiro contato deles com a prática deste hobby. Outro detalhe é que essas dicas são mais facilmente utilizadas quando a sessão é dedicada à novatos, mesmo tendo alguns membros veteranos entre os jogadores.

1 – Sistema adequado

Um erro muito comum, e que muitos mestres acabam por cometer por puro descuido, é não usar o sistema adequado para introduzir alguém no RPG. Não chego a dizer que exista um sistema cem por cento adequado para novatos, mas sabemos muito bem que a primeira impressão para quem chega ao RPG será o diferencial entre aproximá-lo ou afastá-lo do hobby.

Muitas vezes a primeira noção que um novato tem sobre o RPG é de algo divertido e dinâmico (como os amigos lhe contaram ou como ele mesmo assistiu enquanto bisbilhotava alguma mesa em ação). Nós, como mestres de longa data, sabemos que a prática em si de um sistema, já na mesa, é muito diferente de sua preparação prévia, seja se familiarizando com as regras, seja preparando o jogo em si (fichas e aventra). Sabemos que os motivos para trazer alguém para o RPG podem ser dos mais variados possíveis, inclusive a complexidade de regras ou de mecânica. Mas invariavelmente em seu primeiro contato eles esperam ação.

Por sua vez o Mestre, um apaixonado pelo hobby como nós verdadeiramente somos, fica louco para mostrar para os novatos todas as belezas do RPG e tudo o que o encantou e cativou em sua prática. A nossa paixão faz com que tenhamos a errônea noção de que um novato vai conseguir absorver e apreciar tudo isso logo na chegada. Muitos mestres acabam por escolher seus sistemas preferidos baseados em suas experiências e gostos pessoais, esquecendo que todo este universo ainda é uma novidade para o recém-chegado.

O elemento cativante no RPG, para a maioria, é sua dinâmica interativa e imersiva. O novato estará muito mais aberto e receptivo para uma experiência que priorize isso, seja esta ação refletida em combates propriamente ditos, seja em algo mais imersivo e ligado à interpretação e intrigas. Procure priorizar sistemas que apresentem rápida e facilmente a sua mecânica do RPG. Para o novato é importante que ele entenda os passos básicos deste estilo de jogo – os elementos da ficha de personagem e sua utilização, a mecânica de resolução de problemas/conflitos, o transcorrer do combate e as forma de interação, dentre algumas outras coisas. O melhor não é o mais completo ou complexo dos sistemas, tampouco o mais elaborado ou mesmo aquele pelo qual somos apaixonados. Para este momento o melhor será aquele que apresente o RPG e suas peculiaridades da forma mais rápida e fácil, deixando o novato querer mais. Depois, com tempo, esse novo rpgista ira conhecer o ‘seu’ sistema de preferencial (dentre a infinidade que jogará) e investir nele.

2 – Não dê uma aula

Quando vamos apresentar um novato ao RPG podemos cometer o erro de querer apresentar tudo de uma vez só. A paixão com a qual tratamos o RPG para nós mesmos faz com que queiramos mostrar tudo de uma só vez ao novato. Com isso podemos nos lançar no erro de jogar uma avalanche de informações sobre esse pobre coitado, quando ele na verdade, quer apenas descobrir como se mata orcs. O novato não vai aprender RPG nos seus primeiros dez minutos de explicação. Muito provavelmente ele não vai entender muito sobre a dinâmica e mecânica do RPG nas primeiras horas de jogo. Inicialmente a ação do novato é muito mais por instinto e feeling do que qualquer outra coisa racional. Ele precisa de tempo. O RPG possui uma curva de aprendizagem que é diretamente proporcional à sua prática, ou seja, o novato vai aprender jogando, seja ao longo de uma tarde inteira seja ao longo de algumas sessões. Por isso mesmo jogar muita informação de uma só vez será improdutivo, além de ser chato e enfadonho para o novato. Sempre usei como regra pessoal explicar regras apenas quando necessário.

Vamos começar o jogo? Então explique as partes de uma ficha e como montá-la de forma rápida. Para muitos casos o ideal, inclusive, é nos valermos de fichas simplificadas e prontas para que o novato se familiarize primeiro com a sua utilização. O jogador vai realizar uma tarefa que mereça teste? Daí, então, explique sobre os testes e coisas relacionadas à eles. Haverá combate? Bom, então será o momento de apresentar o funcionamento, a iniciativa e como fazemos a relação acerto/dano. Esta forma possibilita que o jogador novato receba uma informação por vez, aplicando-a e absorvendo-a mais facilmente através da prática.

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3 – Seja um bom Mestre

Fazer este novato entender que o RPG é um hobby que possui suas regras e que elas devem ser seguidas para um transcorrer organizado e sem atritos é importante e crucial. Ele deve entender que as regras, assim como o próprio papel do Mestre, fazem com que todos os participantes tenham uma mobilidade tranquila dentro do RPG, sem problemas de interpretação, contradições ou becos sem saída. Ao mesmo tempo o Mestre tem de deixar claro que nem ele nem as regras são inimigos.

A melhor forma disto acontecer será fazer transparecer que o Mestre, como árbitro e condutor da aventura, tem como objetivo não que as regras não sejam quebradas ou burladas, mas que o fim único do RPG seja a diversão de todos os participantes. Alguns mestres acabam por inibir os jogadores com sua figura (erroneamente considerada por eles mesmos) de poder. O RPG não pode, de forma alguma, parecer ser uma queda de braço medindo forças entre o Mestre e os jogadores. Nessas ocasiões todos perdem.

Mesmo em mesas mais experientes sabemos que a relação mestre/jogadores e a relação deles com as regras é um problema conforme a forma de agirem. O Mestre deve deixar claro aos novatos que seu papel é de árbitro para as questões que sejam necessárias, usando para isso, como base, as regras de comum acordo com os jogadores. Ao mesmo tempo, o Mestre deve deixar claro que ninguém é escravo dessas regras, nem ele, nem os jogadores e nem mesmo a aventura em si. Como o fim máximo do RPG é a diversão, as regras devem servir à este fim, e não o contrário. Em um primeiro contato com o RPG o Mestre deve transparecer aos novatos que as regras são uma forma de manter o equilíbrio do jogo e garantir a imparcialidade, ao mesmo tempo que devem deixar claro que essas regras precisam garantir a diversão e que, se necessário e de comum acordo, perdem status para que a diversão impere.

Um cuidado a ser levado à sério é não passar a falsa impressão de que as regras não possuem a sua devida importância e de que podem ser burladas à qualquer momento. Tanto para um lado quanto para o outro o Mestre é o árbitro e a sua preocupação de que a diversão seja mantida garantirá um ótimo jogo.

4 – Prepare uma aventura centrada na diversão

Como Mestres nós amamos o que fazemos – criar intrigas, preparar cenas épicas, aprontar intrincados encontros, imaginar inimigos desafiadores, interpretar NPCs etc. Mas para quem está apenas chegando ao RPG, algo muito intrincado pode acabar por confundir quem ainda está tentando se familiarizar com as suas regras. No caso dos novatos “o menos é mais” na maioria das vezes.

Seja simplista sem ser simplório. Não exagere na dose das intrigas e plots que utilizará, mas ao mesmo tempo, não menospreze a capacidade do seu novato. Prepare uma aventura um tanto mais linear e curta, ou com capítulos mais enxutos, para que o novato tenha a condição de experimentar todas as etapas de uma aventura – o chamado, o desenvolvimento, a resolução de quests, o combate e o final. Isto garantirá que ele, em primeiro lugar, tenha uma noção do todo de uma sessão ou aventura. Em segundo, ele terá condição de experimentar e testar a maior parte das regras básicas e dos passos que utilizamos durante uma sessão de RPG. Por último, ele terá a satisfação da vitória alcançada ou da morte honrosa.

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5 – Apresente a interpretação

Para muitos novatos a interpretação é um mistério, embora seja um dos chamarizes para que eles tivessem procurado o RPG. Eles não estão acostumados com as vozes e trejeitos que normalmente o RPG nos leva a fazer. Como Mestre, seja o mais teatral possível e incentive à que todos os participantes façam o mesmo da forma mais agradável e divertida possível. Ache o tom adequado entre a aventura e o grupo e dinamize ao máximo para que reconheçam o diferencial de uma mesa com personagens vívidos.

Mas respeite a forma de agir (ou vergonha) dos novatos. A interpretação é um dos diferenciais no RPG e nem todos se sentem confortáveis em realizar essa teatralização em um primeiro momento. Normalmente eles vão perdendo o medo aos poucos, conforme você, Mestre, e ou outros participantes, vão dando vida aos seus personagens. Também há aqueles que não precisam deste subterfúgio para sentirem-se imersos na aventura e não se preocupam com a interpretação. Como mestres devemos ter claro que o importante é a diversão de todos e que cada um a atinge de uma forma diferente. Nosso papel é garantir isso acima de tudo, mas sempre apontado todas as variações possíveis para deixá-los com a possibilidade de escolha.

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Esta não é uma formula mágica. São apenas algumas dicas que ajudam muito na introdução e permanência dos novatos no RPG. Como devem ter percebido o ponto central para esta “agradável” experiência inicial é o Mestre. Ele será o condutor (embora eu não goste muito deste termo) dos primeiros momentos dos neófitos no RPG.

Tenha parcimônia, calma e preocupação com o novato e estaremos garantindo cada vez praticantes de RPG que também trarão mais e mais jogadores.

Sobre » Dungeons & Dados

Dungeons & Dados é um blog sobre o mágico mundo das cavernas cheias de dragões e magos do RPG. Os textos são de João Eugênio Brasil, do blog Confraria de Arton.


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