E por que não uma definição de RPG?
João Eugênio Brasil

João Eugênio Brasil
joaoeugenio.cordovabrasil

  sábado, 26 de setembro de 2015

Coluna /// Dungeons & Dados Dungeons & Dados

E por que não uma definição de RPG?

Esse é o texto de estreia do blog Dungeons & Dados!

Pode parecer um clichê inaugurar uma coluna sobre RPG dando e debatendo sua definição, mas também não vejo uma forma melhor de começar as atividades desta coluna. À todo dia temos novas pessoas ingressando neste maravilhoso mundo, novas gerações chegando para aderir à este hobby, ou mesmo aqueles que nem imaginam que isso exista. Assim, uma definição, mesmo que uma mera noção torna-se interessante.

Para aqueles que não sabem o que esta sigla tão badalada significa podemos dizer, em uma definição bem simplista, que RPG, abreviatura de Role Playing Game, poderia ser definido como jogo de interpretação. Mas nunca uma definição foi tão correta e ao mesmo tempo tão limitada. E por isso mesmo a dificuldade de uma definição simples e curta.

Quase três décadas atrás (correndo o risco de confessar minha idade longe do jovial) eu estava no litoral gaúcho para o veraneio. Cheguei à praia como um universitário e logo me vi travestido em guerreiro medieval com espada em punho. Ao redor de uma mesa em um final de tarde chuvoso (algo muito comum nos verões daqui do sul) eu e mais um grupo fomos apresentados à um jogo à primeira vista estranho. Um jogo que não tinha tabuleiro, tampouco peças e que requeria apenas lápis, papel, um punhado de dados e criatividade. E apenas com esse parco material vivi uma aventura extraordinária, cheia de perigos, ação e glória. Nem todos sobrevivemos, mas os que sobreviveram tinham uma longa e emocionante história para contar. Posso dizer que nunca fui o mesmo depois disso.

RPG é isso, apenas isso e tudo isso. RPG é uma forma de jogo, que com o auxílio de nossa criatividade e organizado até certo ponto por um sistema de regras, nos permite vivenciar outra realidade qualquer que desejemos. O único limitante do RPG é nossa imaginação.

Já escutei ao longo dos anos muitas definições. ‘Jogo de contar histórias’, ‘jogo de faz de conta’, ‘jogo de interpretação de papéis’, ‘aventuras em forma de teatro’ ou ‘jogo interativo de representação’. Todas elas acabam significando a mesma coisa. É um jogo no qual vivemos/interpretamos um personagem em todas as suas facetas psicológicas e sociais através de narrativas com outros jogadores. Temos o auxílio de um sistema de regras elaboradas conforme o tema/ambiente de nossa aventura para definir critérios de execução de nossas ações. E como árbitro temos o narrador (também conhecido como Mestre do Jogo), um participante que narrará a aventura e a levará adiante, ajudando os jogadores no esclarecimento de ambiguidades e na execução das regras com clareza. A imaginação entra como motor fundamental para que vivenciemos toda a grandiosidade de emoções e sensações as quais o RPG é capaz de nos proporcionar.

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Podemos ser qualquer um, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Famoso ou desconhecido. Real ou imaginário. Quer ser Legolas em uma aventura na Terra Média? Será. Quer ser um pirata atrás de um butim incalculável? Será. Quer ser o Homem de Ferro lutando em Nova Iorque contra alguma ameaça extraterrestre? Será. Quer ser um agente secreto desvendando um possível atentado no ano 3106? Será. Quer caçar vampiros? Quer conhecer outras galáxias? Quer exorcizar demônios ou mesmo ser um lobisomen? Não importa a aventura que você deseja vivenciar ou o personagem que você deseja encarnar, seu único limitante é a imaginação. Toda a vivência, em RPG, é possível.

Com esses elementos até agora apresentados podemos analisar um pouco mais o seu conceito. O RPG é um jogo, que diferente de muitos dos jogos convencionais (eletrônicos ou não), não estabelece uma competição. Ele é cooperativo por excelência. Com raras exceções, os jogadores fazem parte de uma trupe ou grupo de personagens que participam de uma aventura por um determinado fim (ou vários). Não há um vencedor, mas há uma tarefa a ser cumprida e uma missão a ser finalizada. Essa cooperação leva à uma socialização de seus personagens, que nada mais é do que a socialização de seus praticantes.

Além disso, ele é livre em toda a clareza e profundidade do termo. Quando assumimos o papel interpretativo de um personagem em RPG podemos agir com ele da forma que preferirmos. Não é como em um jogo eletrônico ou de tabuleiro em que nosso personagem tem de escolher entre esquerda ou direita. No RPG, emulando uma vida real, podemos decidir ir para qualquer lugar da forma que acharmos melhor, dentro da lógica do cenário/ambiente, é claro. O limite está apenas em nosso bom senso. Muito embora a aventura tenha um roteiro estabelecido (e nem isso é regra em RPG atualmente) nós podemos tentar resolver o problema ou chegar à um ponto x por infinitos caminhos e de incontáveis maneiras.

Por fim, e complementado a liberdade à que temos acesso no RPG, ele se desenvolve com a imaginação dos jogadores, como já dito. É um sensacional exercício de cartasse nos colocando dentro de aventuras que, para serem solucionadas, deveremos pensar, agir e falar como outra pessoa, de uma outra época, em um outro tempo e com recursos diferentes. Ora, apenas a imaginação desenfreada poderá nos dar as perguntas e as respostas que precisamos. Em última análise estaremos sendo, no transcorrer da nossa aventura, outra pessoa.

Vamos tentar uma definição mais completa agora? Bom, RPG seria uma espécie de jogo, normalmente cooperativo e extremamente socializante, que nos possibilita interpretar personagens dentro de um determinado cenário, orientados por regras arbitradas por um narrador onde temos liberdade total de interpretação e cujo nosso único limitante é a imaginação. Parece-me mais adequado. Não importa se sua aventura irá durar apenas uma sessão de poucas horas ou uma campanha de anos à fio, ele em si é isso.

Mas tudo apenas por diversão? Sim, a melhor diversão e mais lúdica que existe. Mas digamos que diversão é apenas uma das várias vantagens ou facetas que temos na prática do RPG. Se eu pudesse escolher duas vantagens com relação à prática do RPG, além da diversão, eu diria que seriam leitura e conhecimento.

É impossível desvincular a leitura da prática do RPG, e em mais de um idioma algumas vezes. Conhecer regras e cenários acaba por nos levar a ler não um, mas muitos livros. Para cada sistema novo, ou nova edição de um sistema já existente, para cada cenário novo, temos o prazer de ler novos calhamaços escritos com esmero por talentosos autores. Sendo professor não vejo vantagem melhor, quando nossa grande preocupação é como trazer nossas crianças e jovens para dentro do mundo de letras, prática esta que depois se perpetuará por sua fase adulta. A leitura de regras e cenários, além de muitas obras literárias que acabam sendo originadas pelo RPG, trazem uma melhora na capacidade de interpretação de textos e da escrita.

Mas não se confunda. A leitura dessa montanha de obras (que todo rpgista acaba adorando fazer) não é indispensável para a prática do RPG, mas um resultado. Jogar RPG acaba por incentivar à que seus praticantes procurem mais e mais informação aguçando sua curiosidade, seja ela sobre regras, seja ela sobre cenários. Quanto mais informação tiverem maior será sua integração com sua prática. E com essa leitura toda temos a segunda vantagem à qual me referi – o conhecimento.

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Tanta leitura trás consequentemente mais conhecimento, e não só por regras e cenários de RPG. A curiosidade acaba por levar o praticante de RPG a procurar mais informações históricas, referências científicas, astronômicas, físicas, químicas, conhecimento sobre animais, de lendas, de mitos, de palavras em idiomas mortos ou pouco usuais, de cultura pop e erudita. Uma infinidade de informações que ele tanto usará na prática desta atividade, como também em todo o resto de sua vida.

Para se começar a praticar o RPG não há qualquer restrição de idade e existem sim muitas vantagens, como tentei demonstrar. Com apenas uma adequação da linguagem e dos temas das aventuras podemos introduzir mesmo crianças bem pequenas. Como já disse, sua prática está limitada pela criatividade, sendo adequado à pessoas de seis à cento e cinqüenta anos.

Eu poderia passar mais algumas horas falando sobre as variedades de sistemas de regras existentes, da multiplicidade de cenários criados, das inúmeras editoras nacionais e internacionais, sobre os materiais extras para auxiliar mestres e jogadores e de tantas outras vantagens paralelas, mas tudo isso seria apenas variações do mesmo tema e que podem ser abordados com muito mais calma posteriormente.

Sou um apaixonado por RPG em todas as inúmeras variações que ele possui e espero ter deixado claro os motivos, tanto pela minha paixão quanto pela minha admiração pelo que ele proporciona. Esta coluna se inaugura com a intenção de clarear e ampliar o conhecimento por esta prática, além de servir como ponto de partida para iniciantes e apoio para veteranos.

Sobre » Dungeons & Dados

Dungeons & Dados é um blog sobre o mágico mundo das cavernas cheias de dragões e magos do RPG. Os textos são de João Eugênio Brasil, do blog Confraria de Arton.


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