Concepção do Personagem – RPG
João Eugênio Brasil

João Eugênio Brasil
joaoeugenio.cordovabrasil

  segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

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Concepção do Personagem – RPG

Poderosos personagens formam um grande grupo ou uma grande equipe é formada por poderosas personalidades?

Voltando depois de um hiato pelas festas de final de ano, vou abordar um tema que me veio depois de um debate com alguns amigos – o motivador na concepção de um personagem em RPG.

Para quem acompanha RPG à algum tempo não é novidade que temos tido uma certa mudança no perfil dos jogadores, principalmente motivado pelo crescente aumento de pessoas que praticam este hobby. Esse novo perfil vem com as experiências e vivências datadas, logicamente, por sua época. Muitos deles dividem sua experiência no RPG com sua prática desde muito cedo em games, tanto de computador quanto de console, e de cardgames, como Magic e Yu-Gi-Oh.

A geração mais antiga, e quando digo mais antigo me refiro à jogadores com mais de quinze anos jogando e mestrando, iniciou no RPG com experiências próprias da sua época. Tínhamos contato sim com vídeo games, principalmente da primeira e segunda geração, mas nossa prática no RPG refletia um arcabouço baseado em leituras de clássicos da fantasia, filmes classe b e muita imaginação. É óbvio que se colocarmos frente a frente esses jogadores teremos grandes diferenças. A pergunta é – alguém está certo? Sim, os dois.

Poderosos personagens formam um grande grupo ou uma grande equipe é formada por poderosas personalidades?

barbarian-the-elder-scrolls-online-29819-1920x1080Os jogadores mais antigos, a velha geração, como alguns gostam de chamar, viu o alvorecer do RPG. Naquela época tínhamos contato com clássicos da fantasia novos e antigos como Isaac Asimov, Tolkien, Robert Howard, Edgar Alan Poe, Agatha Christie, Edgar Burroughs, Anne Rice, Julio Verne, Marion Zimmer Bradley, Lovecraft e Conan Doyle. O acesso era muito mais restrito e esporádico e nos deliciávamos lendo e relendo suas aventuras. Passávamos horas imaginando suas histórias e como seria vivenciar tais mundos. Jogávamos igualmente clássicos do vídeo game como Phantasy Star, Zelda, Castelvania, Alex Kid ou mesmo Mario. Jogávamos Speelfire, Illumianti, Vampire e Magic nos fascinando pelas histórias por detrás dos cards e vendo além do simples movimento de jogadas rumo à vitória. Nossa motivação vinha da fantasia que criávamos em nós mesmos sobre as estórias que jogávamos e líamos e seu desenvolvimento.

Tínhamos em nós uma clara noção de processo, de jornada, de conjunto. Valorizávamos as etapas vivenciadas pelos protagonistas em sua caminhada até a última página do livro. Percebíamos a importância em cada descoberta feita, mesmo que por acidente, e interagíamos com o cenário quase como se fossemos nós mesmos lá, percorrendo as páginas. Valorizávamos os erros e a forma como os personagens os usavam como elementos de crescimento. Lamentávamos as morte, mas as reconhecíamos como parte do processo, uma parte natural e necessária.

Era óbvio que iríamos nos encantar com o RPG e todo seu potencial agregado.

A geração mais nova está inundada por experiências de competitividade exagerada de jogos online e cardgame. Isso não é uma crítica, mas uma constatação. Jogos como o cardgame Magic the gathering (nos dias de hoje principalmente) e seus rentáveis campeonatos e como o mmo League of Legends não permitem falhas. Se você quiser participar desses nichos terá que ser efetivo, cirúrgico, fatal. Seu deck deve ser ‘matador’ com a melhor estratégia e possibilidade de combos. Seu personagem ou equipe devem ser os mais mortais ou você deve ser um grande conhecedor de todas as nuances do jogo. Em resumo, você deve ser rápido e mortal. Você tem de ser o melhor. Você não tempo a perder aprendendo, evoluindo ou olhando a paisagem, você tem de ganhar, e ganhar de forma arrasadora e definitiva.

Embora seja uma geração que tem a benção de ter uma grande facilidade e quantidade de obras (novas e antigas), a facilidade de ter uma rede mundial muito mais estruturada do que anos atrás, de ter acesso a informação que nem imaginávamos possível, essa geração acabou se acostumando, aparentemente, a perder o gosto pela apreciação da jornada. O caminho perde importância frente ao resultado final.

Vejam bem que estou tentando analisar o público ligado ao RPG mais especificamente. Não quero ser acusado de generalizações exageradas, nem de um lado, nem do outro. Mas qualquer um que tenha contato com o nosso público rpgístico percebe certas regularidades comportamentais.

Estas duas vivências e experiências diferentes foram e são trazidas para a mesa de RPG, principalmente no momento da criação do seu personagem.

the_elder_scrolls_onlinePor experiência própria sempre vi o pessoal da ‘antiga’ tendo a preocupação de conceber um personagem que tivesse espaço para evolução, erros e acerto. Tínhamos uma preocupação de criar nosso personagem dentro de uma lógica frente ao cenário que não tinham a simples função de torná-lo overpower, o todo poderoso. Haviam elementos, tanto em seu background como em sua ficha, inclusive, para que ele tivesse realmente vida, tivesse espaço e liberdade para realizar escolhas durante o jogo, fosse uma campanha ou mesmo uma simples sessão.

Sabíamos muito bem das possibilidades e facilidades de montar fichas com inúmeros combos já que conhecíamos nossos manuais de ponta cabeça, mas nossa intenção era que isso fosse se construindo com o desenrolar da aventura. Mesmo quando o mestre nos solicitava uma ficha de nível elevado, devido à dificuldade da aventura que teríamos, mesmo assim, as fichas refletiam a intenção de desenvolvimento. Lógico que não estou dizendo que nossas fichas eram ‘franciscanas’ e não possuiam elementos que as diferenciasse. Tínhamos alguns combos ou facilidades, mas normalmente dentro dessa lógica.

Backgrounds devem justificar os personagens ou personagens devem justificar os backgrounds?

As gerações mais recentes têm um viés diferente em sua maioria. Os jogadores debulham os livros e manuais atrás da forma mais efetiva de tornar seu personagem indestrutível ou com possibilidade de causar danos absurdos. Uma rápida olhada em fóruns nacionais e internacionais dos mais variados sistemas é muito esclarecedora para isso. Debates e bate-papos de como turbinar personagens mesmo em seus níveis iniciais, junção de classes das mais escabrosas possíveis (embora permitido pelas regras) para criar aberrações pela simples possibilidade de efetividade extrema em combate, entre tantas outras coisas do tipo.

A busca pelo desenvolvimento fora de um padrão previamente determinado, e com um fim bem claro, está fora de cogitação. Não há mais a beleza do processo de desenvolvimento que muitas vezes poderia ser alterado pela própria aventura. Há apenas a vitória e o busca pelo sentimento de ter sido o melhor. Há o background que justifica o personagem e não mais o contrário.

São dois perfis bem diferentes. São buscas diferentes refletindo experiências diferentes. Mas como disse lá no início, ambos estão corretos, ou melhor, ninguém está errado. Posso dar minha opinião e claro que será uma opinião baseada em meu desenvolvimento e concepção sobre RPG. Sempre vi RPG, e já disse isso em meu primeiro artigo aqui no Super Novo, como uma forma de emular um cenário onde eu vivenciaria experiências. Eu sempre procurei por isso – sentir e vivenciar o personagem. Sempre me preocupei muito mais com a jornada e como ele supera e é afetado pelas dificuldades do que saber se eu iria realmente terminar uma quest ou vencer o vilão ao final da aventura. Sempre apreciei criar background para perceber como eu interpretaria tal personagem e como ele se encaixaria em uma aventura sem a necessidade expressa do personagem ter sido criado para ela.

Mas está é a minha visão de RPG. Estou certo? Sim. Mas o jogador inundado de conceitos vindos do League of Legends também está. Como disse já, isso são constatações. Ao mesmo tempo são constatações necessárias pois o RPG é um jogo socializante, onde sua premissa nos leva a conviver com outros e de forma regular. Vivemos em tempos de que o respeito ao diferente deve ser não uma utopia, mas uma meta a ser alcançada logo ali na frente. Não somo obrigados, e nem devemos, ser obrigados a mudar nossa forma de jogar, mas devemos sim entender nossos amigos e colegas rpgistas em suas escolhas. Tampouco devemos impor nossa forma de jogar.

O RPG, antes de mais nada, serve para diversão individual e do grupo. Estaremos fazendo o nosso papel corretamente quando nossa meta individual for zelar pela diversão de todo o grupo.

Sobre » Dungeons & Dados

Dungeons & Dados é um blog sobre o mágico mundo das cavernas cheias de dragões e magos do RPG. Os textos são de João Eugênio Brasil, do blog Confraria de Arton.


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