Pensamentos sobre o Vale-Cultura e os games no Brasil

Jack Mankey

  segunda-feira, 11 de março de 2013

Pensamentos sobre o Vale-Cultura e os games no Brasil

A Ministra da Cultura diz que não acha que games sejam cultura e os gamers respondem à altura, mostrando que possuem QI de apenas dois dígitos

Na semana passada, uma certa polêmica nasceu entre esse maneiro público da Internet. Porém, o assunto acabou sufocado pelas mortes do Chorão, ex-presidente da Venezuela, e Hugo Chávez, o vocalista do Charlie Brown Jr., pelos inúmeros Harlem Shakes da vida e pelo pastor que começou a presidir a Comissão dos Direitos Humanos na Câmara dos Deputados.

Dessa forma, eu preferi deixar esses assuntos antes de falar sobre algo que tem mais a ver com o Supernovo em si. Claro, alguns dirão que eu não queria mesmo escrever nada disso e que o patrão me forçou a escrever ameaçando cortar o meu salário caso eu não fizesse e isso é mentira.

Enfim, chega de enrolação, vamos lá falar sobre o Vale-Cultura, os games no Brasil e porque vocês me envergonharam dessa vez.

Jogo da Martinha

Para quem ficou lamentando aí a morte do guitarrista do CPM 22 e do ex-presidente da Bolívia, aí vai um pequeno resumo do caso: o Ministério da Cultura lançará um incentivo de R$50 por mês para quem recebe menos de 5 salários mínimos mensais, para que o cidadão em questão possa investir um pouco em cultura. Não pensei que diria isso, mas taí uma ótima ação do Governo Federal. Por incrível que pareça, de um Ministério liderado pela Marta Suplicy! Mas, obviamente, como se trata de Brasil, as coisas não poderiam ser perfeitas.

O Vale-Cultura ainda deve demorar pra chegar, já que o Ministério ainda está trabalhando no que será e no que não será permitido comprar com o benefício. Para poder tratar desse assunto, a Ministra da Cultura realizou uma audiência na Assembléia Legislativa de São Paulo para debater o projeto e reunir sugestões e ideias do que o Vale-Cultura abrangerá. Ou seja: ela convocou todos os interessados, de todas as áreas, para se manifestarem sobre diversos produtos/mercados que possuem relação com o Vale-Cultura – incluso aí o mercado dos games no Brasil. Nunca pensei que diria isso, mas até aqui, postura impecável do Governo no assunto.

Na tal audiência, alguém perguntou para a Ministra se o Vale-Cultura serviria para comprar games e eis o que Marta Suplicy respondeu (via Cyber Kao):

“No caso dos jogos digitais, o assunto ainda não foi aprofundado o suficiente, mas eu acho que eu seria contra. Eu não acho que jogos digitais sejam cultura […] Mas a portaria é flexível. Na hora em que vocês conseguirem apresentar alguma coisa que seja considerada arte ou cultura, eu acho que pode ser revisto. No momento o que eu vejo é outro tipo de jogo.

Encaminhem para o ministério as sugestões que vocês estão fazendo. Eu tenho certeza que talvez vocês consigam fazer alguma coisa cultural. Mas, por enquanto, o que nós temos acesso, não credencia o jogo como cultura. O que tem hoje na praça, que a gente conhece (eu posso também não conhecer tanto!) não é cultura; é entretenimento, pode desenvolver raciocínio, pode deixar a criança quieta, pode trazer lazer para o adulto, mas cultura não é! Boa vontade não existe, então, vocês vão ter que apresentar alguma coisa muito boa”.

Eu sublinhei algumas partes que imagino tenham passadas desapercebidas pelos revoltadões da Internet. Pois bem, essa declaração aí resultou na fúria implacável dos gamers nacionais! Fizeram joguinhos ironizando a Ministra! Gravaram vídeos indignados! Fizeram abaixo-assinados! E, obviamente, passaram vergonha.

Xbox Controller

Antes de explicar porque a Internet consegue estar errada mesmo quando está certa e vai continuar sendo falsamente levada à sério pela sociedade por razões assim, vou só esclarecer uma coisa antes que algum símio subdesenvolvido venha me acusar de fazer politicagem aqui: eu não sou petista. Eu nem sequer voto, já que sou um macaco, mas se votasse, não seria no PT.

Esclarecido isso, vamos lá. A Internet está revoltadona porque a Ministra disse que games não são cultura. Pra ela. Aparentemente todo mundo ignorou a parte que ela diz que a portaria é flexível, que o assunto precisa ser visto, que ela não conhece tanto assim e que games podem entrar sem problemas no Vale-Cultura caso o Ministério tenha exemplos de obras artísticas na mídia.

Um dos “brilhantes” argumentos da turma de revoltadões é o seguinte:

Com o Vale-Cultura, o cidadão poderá comprar revistas de fofoca e pornográficas, mas não poderá comprar games. #BrasilÉLixo #QueriaUsarOValePraComprarOJogoDoNaruto“.

Genial. Esse tipo de comentário mostra claramente que o Sistema de Ensino Nacional falhou com a atual geração – e ainda tem gente que diz que não existem males que vem para o bem.

Agora, querido amiguinho que em algum momento repetiu a asneira acima, sente-se que eu vou explicar porque você está sendo injusto (pra não falar que você está sendo um imbecil).

O Vale-Cultura foi feito para “garantir meios de acesso e participação nas diversas atividades culturais desenvolvidas no Brasil”. Isso inclui a compra de diversos materiais culturais, como filmes, livros e revistas. O que esse argumento faz é pegar o pior material possível de uma única mídia e comparar com uma outra mídia inteira.

O Vale não é feito para comprar revistas de fofocas ou pornográficas. É feito para comprar revistas com conteúdo elevado, como revistas sobre artes, História e afins. Porém, o Governo não pode definir quais produtos o cidadão irá comprar – ele pode definir quais tipos.

Então, a iniciativa diz “Você pode comprar revistas com esse Vale”, na esperança que você gaste o dinheiro em uma revista que irá despertar novas ideias em você. Se você vai lá, como símio retardado que é, e prefere gastar tudo na TiTiTi!, aí o Governo só pode se lamentar por não investir como deveria em Educação. Para deixar as coisas num exemplo mais fácil de entender, quando o Vale-Cultura diz que pode ser usado no cinema, é para que você vá ver algum filme independente nacional e não Se Beber, Não Case! Parte 9 – A Ressaca Agora É Dura Mesmo. Porém, ele não pode te obrigar a entrar na sala certa.

Por isso, quando você usa esse argumento imbecil, você não está querendo promover um debate interessante e que realmente seja para o melhor, você quer ganhar a discussão pro seu lado usando um recurso desonesto.

Agora que definimos isso, vamos lá debater: Game é cultura ou não?

Journey

Como eu sempre imagino que estou escrevendo para um grupo de babuínos que acabaram de gravar alguma versão mal feita do Harlem Shake, eu serei didático: vamos definir o que é cultura.

Ao contrário do que o seu cérebro atrofiado pensa, cultura não é uma coisa fácil de se definir (talvez seja por isso que o Ministério tenha convocado uma assembléia para debater o assunto – ação que vocês jogaram no lixo quando começaram a bater a cabeça na parede de raiva porque alguém discorda de vocês). Segundo o glorioso Wikipédia, existem cerca de 167 definições de cultura.

Cultura pode ser algo que defina uma sociedade, por exemplo. Se a gente for considerar cultura como um conjunto de símbolos e ações que definam um povo, fantasia de Carnaval e comida típica poderiam ser usados no Vale-Cultura e games não, e não há nada que vocês possam fazer além de ir chorar na cama, que é lugar quente.

Porém, vou tentar definir cultura como algo que eu imagino seja a visão do Ministério no caso. Vocês não devem saber (vocês não sabem nada – não esqueçam que precisam continuar inspirando e expirando), mas o termo “cultura”, vem de agricultura. Basicamente, é algo “cultivado”. Assim, vamos chamar de cultura o conjunto de obras, veículos ou atividades de uma sociedade que cultivem as artes, o desenvolvimento intelectual e humano.

Assim, cinema pode ser um veículo de cultura, já que através de filmes tanto público como artistas podem expressar ideias e provocar pensamentos, ideias e expressões. Dança, museus, pintura, música, tudo isso também. E, claro, games.

Se games são um veículo de cultura, eles deveriam sim estar no Vale-Cultura. Porém, para fazer isso acontecer, não basta ficar assinando abaixo-assinado que não vai à lugar nenhum, dar ibope pra quem está te manuseando pra conseguir audiência e nem ficar fazendo joguinho ironizando políticos. O caminho é efetivamente mostrar como os games são um veículo de cultura e, lamento informar, não é jogando Naruto, Battlefield, Resident Evil ou qualquer outra merda que vocês andam jogando, que isso vai acontecer.

Toda nova mídia passa por um longo período de desconfiança. Livros, quando começaram a se popularizar, não eram vistos como veículo artístico e cultural válido. Hoje, são considerados o supra-sumo da arte.

Os games não serão aceitos como manifestação artística válida enquanto os gamers continuarem mostrando que possuem QI de dois dígitos todas as vezes que algo vai contra o agrado deles. Enquanto vocês não souberem usar o multiplayer de Journey como um exemplo da comunicação humana reduzida ao seu menor grau e como dois seres humanos podem cooperar e se ajudar independente de qualquer informação sobre eles (e o quão poderosa é essa ideia), enquanto as pessoas não conhecerem jogos como 9: The Last Resort, feito para explorar os limites da mente humana e enquanto jogos como Call of Duty forem mais jogados que títulos como Bioshock, Fallout e Okami (só para ficar nos mais mainstream), os games não serão vistos como um meio artístico de valor. Caramba, querem um exemplo extremo? O novo Tomb Raider com a nova Lara Croft, que pode servir muito bem como um modelo feminino, depois da própria personagem ser sexualizada pela indústria.

O que os gamers nacionais precisam entender é que os games precisam provar o seu valor para serem reconhecidos, não o contrário. E quem prova o valor de um veículo, são os seus usuários.

Então parem de se comportar como invertebrados e se comportem como deve ser.


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