Descaralhando a Banana: Sobre spoilers e bom senso na Internet

Jack Mankey

  segunda-feira, 14 de abril de 2014

Descaralhando a Banana: Sobre spoilers e bom senso na Internet

A Internet é escura e cheia de spoilers

Nesse último domingo (13/04), a HBO Brasil (e a americana também) exibiram um novo episódio de Game of Thrones. Eu não sei dizer o que aconteceu no capítulo já que não assisto ao programa e nem li os livros, mas parece que alguém morreu ou foi revelado que o José Antônio é filho do primeiro casamento da Albertina Rosário ou algo do tipo.

Quando bombas desse calibre estouram em programas de televisão, é normal que gerem comentários na Internet – comentários esses que, por sua vez, geram reclamações de quem ainda não sabia que o Lorde Astolfo age na noite como a perigosa Felina Sombria. Afinal, isso é um spoiler, caramba!

Mas sobre spoilers na Internet, qual é o limite? Qual a etiqueta que devemos tomar? Existe uma “patrulha do spoiler” por aí ou a galera que anda meio sem educação e bom senso?

Spoiler 02

Antes de avançar no campo das questões sócio-morais sobre revelar spoilers na Internet, nós precisamos entender o que são spoilers e porque algumas pessoas odeiam essas coisas (e outras não parecem se importar muito).

Spoilers são aerofólios de carros revelações sobre a trama ou eventos de alguma obra ficcional (ou não!). Alguns não irritam ninguém e são bem leves (“A Maria do Bairro aparece no episódio 9 da novela A História de Sempre”), outros são pesados porque revelam pontos importantes dessas histórias (“Quem matou Geovânio foi… o mordomo!”).

A razão por trás do ódio por esses malditos é a total quebra de imersão da pessoa na história em questão. Vou dar um exemplo prático pra explicar o que isso significa.

Imagine que você comprou um novo livro chamado Oh Não! (sim, com ponto de exclamação!). Esse livro conta a história de Juliano Flores, um homem que descobre ter uma doença super-mega-hiper-rara que vai matá-lo em 6 meses. Essa é a sinopse, isso é o que está no primeiro capítulo. Você, enquanto leitor, sabe que Juliano vai morrer – então, quando seu amigo Rubinho chega e diz “Você está lendo Oh Não!? Eu já li, o protagonista morre no final!”, você pode responder com “Dããã, eu sei, ele tem Pleneumascose Aguda”. Aparentemente, nenhum mal foi feito, certo?

Pois bem, agora imagine que no meio do livro o autor insere um medicamento revolucionário que está sendo testado no interior da Albânia e tem curado as pessoas com Pleneumascose Aguda. Esse remédio alternativo representa uma esperança para Juliano Flores – e, durante o resto do livro, o autor constrói no leitor a esperança de que Juliano poderá ser curado do seu mal e viver o resto de sua vida saudável com Mariazinha, apenas para destroçar essa esperança no último capítulo revelando que o medicamento não funcionou em Juliano (explicando o título de Oh Não!).

O problema disso tudo é que, como você já sabia que o cara morria no final, você perdeu tudo isso. Você nunca sentiu esperança por ele e, consequentemente, nunca sentiu o baque da decepção do fracasso no fim. Existe uma razão pela qual os autores contam histórias e colocam acontecimentos em certos momentos dos seus livros/filmes/séries e quebrar essa ordem é violar a experiência que é consumir essa obra. A pior parte? O seu amigo que leu Oh Não! primeiro que você teve toda a experiência como deveria ser.

É por isso que comparar um spoiler de uma série com o resultado de um evento esportivo é idiotice: não há uma lógica cuidadosa por trás dos acontecimentos de um evento esportivo, um jogo de futebol é uma disputa entre 22 caras pra decidir qual time marca mais gols; um filme é uma série de acontecimentos ordenados de forma a produzir certas reações e transmitir certas ideias pras pessoas.

"Luke, eu preciso falar com você..."

“Luke, eu preciso falar com você…”

“Mas cara, eu curto spoilers. Até acho que me anima mais a acompanhar um filme ou uma série”

Ok. Sério, nada de errado nisso. É o seu direito de curtir as coisas que você gosta da maneira como você quer. Existem várias pessoas por aí que, mal começam a acompanhar uma história, correm pra Internet pesquisar o que vai acontecer no fim. Algumas pessoas preferem assim porque conseguem perceber com mais clareza como as coisas vão se encaminhando para a conclusão da história.

Perfeitamente normal.

Só que, da mesma maneira como não tem problema você procurar por spoilers por conta própria, as outras pessoas também tem o direito de assistir/ler/jogar esse mesmo material da maneira como eles quiserem.

“Ok, ok, os livros de Game of Thrones saíram há 15 anos, cara! Se a pessoa não leu, é porque não se interessa! Tava fazendo o que até agora?”

Não sei, talvez jogando bola, namorando, vendo outros filmes, lendo outros livros, almoçando, viajando pra França, estudando pro vestibular, empinando pipa, ensinando esquimós como sambar, fundando uma associação de proteção às borboletas do Afeganistão… milhões de coisas.

Ou vai dizer que você já leu TODOS os livros já lançados pela humanidade até o dia de hoje, viu todos os episódios de séries e assistiu à todos os filmes já produzidos?

“Mas o Twitter/Facebook é meu e eu posto o que eu quiser, cara! Não quer spoiler, não entra na Internet nesse horário”

Bom, eu até concordaria com isso se o Facebook e o Twitter (ou qualquer outra rede social) funcionassem como uma espécie de “blog particular” – você ia, postava o que quissesse e só via quem fosse atrás. O problema é que não é assim que redes sociais funcionam: redes sociais são o equivalente a ligar pra CADA UM dos seus amigos e gritar na orelha deles o que você quiser assim que eles atenderem o telefone. O seu amigo não tem como escolher não “atender a sua ligação”, porque vai aparecer pra ele – e ele só vai saber que você é do tipo que posta spoilers depois do estrago feito.

E considerando que o Facebook possui grupos e páginas destinadas à praticamente qualquer obra da atualidade onde você pode discutir todos os acontecimentos lá, sem incomodar ninguém, só faz com que as pessoas que postam no próprio mural esses spoilers sejam muito mais egoístas.

Você pode postar o que quiser, mas você quer mesmo ser o cara que vai decidir pelos seus amigos como eles vão assistir as séries favoritas deles? Se você quer realmente comentar e expressar suas reações sobre o que você viu, custa ir até um lugar onde as pessoas também já viram e conversar com eles sobre?

Se você é desses que posta spoiler no Facebook, não fique chateado com a gente – acontece com os melhores. Um dos nossos redatores, por exemplo, postou uma vez na nossa Página no Facebook a imagem da atriz que faz a Mãe em How I Met Your Mother, horas depois do episódio ser exibido – ele jura que fez na inocência, porque “a imagem não tinha nada demais, é como se o canal tivesse anunciado a atriz!”, mas a galera pegou a tocha e linchou o jovem por lá. Foi muito merecido, ele aprendeu a lição e ainda teve de lavar a roupa de todo mundo aqui do site por dois meses. Nunca mais postou nada na vida :)

O resumo que fica é: tente não ser babaca, comente com a galera que já viu também e respeite o espaço dos outros.


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