Descaralhando a Banana: O problema com críticas, opiniões na Internet e os “furos de roteiro”

Jack Mankey

  terça-feira, 27 de agosto de 2013

Descaralhando a Banana: O problema com críticas, opiniões na Internet e os “furos de roteiro”

Algumas doces palavras sobre a maneira como as pessoas andam encarando os filmes atualmente

Esse é um texto que já deveria ser publicado aqui no Supernovo há muito tempo. Mais de um dos nossos colaboradores já começou a escrevê-lo e decidiu não publicar por diferentes razões, ele já na lista de temas para os podcasts do site há um tempão também.

Então eu resolvi escrever esse texto e daí descobri que não é tão simples quanto parece, já que é bem difícil encontrar o tom certo pra fugir da cagação de regra e da arrogância que são justamente a causa do problema. Decidi então adotar uma abordagem menos agressiva que o normal e vamos ver o que sai daí, ok?

Senhor, parece que esse seu roteiro tem um furo...

Senhor, parece que esse seu roteiro tem um furo…

Então vamos lá falar sobre críticas e opiniões na Internet, o que estamos fazendo e o que definitivamente estamos fazendo errado. Eu tenho notado que, desde 2012 (pelo menos foi quando eu comecei a perceber), um certo tipo de padrão se desenvolve quando um grande blockbuster (normalmente de super-heróis) chega aos cinemas.

O filme estreia e junto vem as primeiras críticas, normalmente positivas. Com a impressão coletiva de que o projeto em questão é bom, surgem os primeiros comentários negativos de gente que escrutina o filme nos mínimos detalhes procurando por algo pelo qual reclamar.

Para deixar as coisas mais fáceis de entender, vamos com um exemplo prático: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. As primeiras críticas oficiais foram super-positivas: “um triunfo pessoal, cultural e cinematográfico”, “potente, persuasivo e hipnótico”, “cinema de super-heróis numa escala sem precedentes” e por aí vai.

Então a análise minuciosa dos “fãs” começou, submetendo o filme em um critério lógico que, por mais irônico que pareça, desafia a própria lógica: “Como o Batman voltou para Gotham?“, “por que ele acendeu aquele símbolo na ponte?“, “por que o Bane não explodiu logo a bomba?” e afins. A Internet foi inundada de perguntas do tipo e comentários colocando O Cavaleiro das Trevas Ressurge como um dos piores filmes já feitos pela humanidade, já que não explicava como Bruce Wayne voltou para Gotham depois de sair daquele poço.

Porém, a pergunta que ninguém respondia era: como exatamente isso afeta a história que o filme está passando?

Vejam bem, eu não escolhi o terceiro filme da Trilogia do Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, a toa. O que me fez notar que esse padrão de comportamento é algo recente foi o fato de Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 2008, ter extamente os mesmos problemas e NÃO ter passado por esse tratamento.

Deixem-me exemplificar. Vamos falar de uma cena em particular em O Cavaleiro das Trevas. Mais precisamente, essa:

Artigo Batman 01

Artigo Batman 02

Se você não se lembra, eu refresco a sua memória. Nessa cena, o Coringa invade uma festa que Bruce Wayne estava realizando para Harvey Dent. O vilão está atrás de Dent por alguma razão e começa a ameaçar as pessoas da festa (incluindo aí a namorada de Dent, Rachel) até que o Batman surge para dar uns tapas naquela cara retalhada do palhaço. Nesse momento, o Coringa joga Rachel pela janela e o Cavaleiro das Trevas pula para salvá-la.

Até aí, perfeito. Ótima cena, uma interpretação inspirada de Heath Ledger e o dia foi salvo pelo Batman. Só que, nesse momento, o filme corta e segue para outra cena e nunca mais sabemos o que aconteceu naquela festa. O Coringa ainda está no apartamento de Bruce Wayne, com um monte de gente inocente, e o Batman ainda está na rua. Como é possível que o palhaço tenha escapado? Como o Cavaleiro das Trevas não subiu pra prendê-lo? Ele foi de elevador e o Coringa desceu pela escada? Ficou tudo por isso mesmo? O diretor gritou “Corta!” e todo mundo foi pra casa? O Batman é burro ou preguiçoso? E como Harvey Dent acordou no esconderijo secreto de Bruce Wayne e saiu dali?

Mais precisamente: por que as pessoas não reclamaram na Internet sobre como essa cena “estragou” o filme? Spoiler: porque não estragou!

Batman e Bael 2

“Como eu cheguei em Gotham? I’m Batman!”

Essa cena não muda e nem afeta em nada o que Batman – O Cavaleiro das Trevas é. As pessoas saíram satisfeitas do cinema porque viram uma ótima história sobre duas forças opostas batalhando pela alma de uma cidade e como a humanidade pode sim ser boa e altruísta e que não somos um bando de degenerados lunáticos. Mais do que isso, pouca gente usava o Twitter em 2008 e nem a maldita necessidade de ir na contra-mão do que todo mundo pensa.

Às vezes eu realmente penso se as pessoas gostaram tanto do Coringa de O Cavaleiro das Trevas que acabaram não prestando atenção no fato do filme ter exatamente os mesmos problemas e qualidades que Batman Begins e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Eu acho a Trilogia do Cavaleiro das Trevas uma das mais coerentes séries cinematográficas por justamente se manter fiel à ideia inicial do primeiro filme e evoluir esse conceito durante seus três longas. Eu não acho que ela é perfeita e tenho minhas diferenças com o fato de, com tantas nuances e versões diferentes do Batman, o Nolan escolher justamente a ideia dele ser um símbolo de inspiração às pessoas (algo que encaixa bem melhor em V de Vingança e com o Superman).

Esse mesmo tipo de análise super-lógica aconteceu com todos os outros grandes lançamentos desde O Cavaleiro das Trevas Ressurge: Prometheus (“Como a mulher consegue andar, correr e pular com um corte na barriga?“), Homem de Ferro 3 (“por que ele não chamou as armaduras antes? Por que o Mandarim é isso e aquilo? Por que o cara cospe fogo?”), O Homem de Aço (“por que a Lois foi pra nave? Por que o Superman não levou a luta para um lugar deserto?”), Além da Escuridão – Star Trek (“Como a Terra não tem um sistema de mísseis para explodir a nave? Se o John Harrison pode se teletransportar de planeta pra planeta, porque precisam de naves?”), Circulo de Fogo (não dá pra citar sem dar spoilers) e por aí vai.

De um tempo pra cá, as pessoas insistem em colocar birras intelectuais narcisistas para criticar produções com o único intuito de ser diferente do resto. Porque esse é o único motivo: ser especial, diferente. As pessoas não faziam isso há algum tempo e as pessoas não fazem isso com filmes que não são hypados. Ninguém pára para procurar defeitos em cada frame de O Lugar Onde Tudo Termina, Contágio ou O Segredo da Cabana.

As pessoas estão obcecadas com a ideia de sentar num cinema pra assistir um filme e esquadrinhá-lo à procura de “furos no roteiro”. Não sei se estamos falando de algum tipo de impulso sexual ou algo similar, mas a quantidade de comentários que recebemos no Supernovo, no Twitter e no Facebook com supostos “furos de roteiro” em produções cinematográficas é algo pornográfico. Eu sei que prometi que não ia cagar regra e como eu já quebrei essa promessa acima, terei de quebrar de novo: as pessoas não fazem ideia do que é um furo de roteiro.

As pessoas acham que furo de roteiro é algo que não faz sentido pra elas ou que não foi explicado. BREAKING NEWS: não é.  Furo de roteiro é alguma cena ou evento dentro da trama de algum filme/livro/etc que apresenta alguma inconsistência ou falha com as regras daquela história e que invalida ou impede o funcionamento dessa trama.

Homem de Aco wallpaper

O aparente pior filme do século

Vamos aos exemplos gostosinhos e cheirosinhos. Muita gente veio reclamar com a gente que a cena da Lois Lane entrando na nave do Zod em O Homem de Aço era um furo de roteiro. Não é, bem longe disso. Lois entrou naquela nave por uma razão bem explicada dentro daquela história (que você pode não gostar, ok) e por uma razão bem simples na estruturação do roteiro do filme. Zod apresenta-se à Terra como uma figura de autoridade (conquistada por ameaças) e exige que o Superman se entregue à sua custódia. Quando Clark está pronto para entrar na nave do kriptoniano, ele está de mãos dadas com Lois. A partir daí, Zod dá a ordem que ela entre também. Essa é a justificativa: Zod mandou. Essa justificativa não é um furo de roteiro porque está de acordo com a caracterização dos personagens e com as regras daquela história: A) como um general treinado, Zod vê que Lois em específico parece ter algum tipo de ligação diferente com Clark (afinal, ele segura a mão dela e a de mais ninguém) e imagina que a presença dela na nave pode sinalizar algum tipo de controle em relação ao Superman e B) Confrontada com a ordem de uma figura de autorizada (e movida pela curiosidade que demonstrou antes), Lois decide obedecer. As motivações dessas decisões NÃO PRECISAM ser necessariamente mostradas ao espectador, já que elas estão de acordo com a caracterização dos dois personagens – nós já tínhamos visto Zod como um general astuto capaz de tudo para cumprir seu objetivo e já tínhamos visto os motivos para que Lois e Clark obedecessem o cara. Apenas decisões que contradizem a caracterização do universo da história ou dos personagens precisam de uma justificativa para o espectador (que pode ou não ser dada de maneira explícita). Em termos de estruturação do roteiro, Lois está na nave porque o espectador precisa de um conjunto de informações que Clark estava indisponível para receber no momento. Se a cena funciona ou não, se o recurso utilizado foi preguiçoso ou não é discutível – o que não dá pra discutir é se essa cena é um furo de roteiro.

Um exemplo do que é um furo de roteiro vem de Looper (e com spoilers medianos sobre o filme no próximo parágrafo). No começo de Looper, nós recebemos um conjunto de informações que servem para caracterizar aquela história: os Loopers são caras que matam pessoas que viajaram no tempo, porque no futuro não dá pra se livrar de um corpo sem que a polícia fique sabendo. Os mafiosos enviam quem querem matar pro passado e o corpo é desovado lá mesmo. Essas são as regras daquela história. Porém, no mesmo futuro, a mulher do personagem de Bruce Willis é morta enquanto os mafiosos o capturavam para poder enviá-lo ao passado. Mesmo que essa morte sirva como motivação para as ações do personagem e seja justificada através da conexão emocional do espectador com o cara, ela ainda assim fere sem justificativa as regras daquela história. Portanto, furo no roteiro. Obviamente isso não faz com que Looper seja o pior filme do mundo (aliás, nem altera a ideia central do filme), mas meio que quebra uma das regras que haviam sido apresentadas.

Segundo esse manuscrito antigo aqui, vocês só falam besteira...

Segundo esse manuscrito antigo aqui, vocês só falam besteira…

E esses não são os únicos exemplos dos “furos de roteiro” que os espertões encontram. As pessoas esquecem que cada história em específico tem o seu conjunto de regras e que cada personagem segue a sua linha baseado na sua personalidade. Nem sempre a escolha mais lógica pro espectador é a escolha mais lógica pro personagem. Como um exemplo, o acontecimento central da primeira temporada de Game of Thrones: de posse do segredo de que os filhos de Cersei são bastardos, Ned Stark oferece à rainha uma última chance de se salvar e salvar os seus filhos. Com essa chance, Cersei consegue as alianças necessárias para dar o troco no Stark e acaba prendendo-o. Ned foi burro? Mas claro que sim, todos nós faríamos diferentes. Isso é um furo no roteiro? Óbvio que não, as ações dos dois personagens é profundamente justificada pela personalidade dos envolvidos, que por sua vez foi amplamente construída durante os eventos que levaram à esse acontecimento. Não importa se o personagem foi burro pra você, eles tem o sagrado direito de serem burros. Isso não caracteriza um furo de roteiro – o mesmo vale pra morte de uma certa personagem em Prometheus.

Por fim, ainda vale a pena mencionar que nem todo filme precisa de uma explicação lógica convincente pra ser algo bom. Existem histórias que não são feitas para que você goste pelo seu cérebro, mas que você realmente sinta e se relacione com aqueles personagens. Um longa não precisa de um final que exploda cabeças para que seja bom e não é porque o filme que você está assistindo tem robôs gigantes ou super-heróis com cuecas em cima das calças que ele é necessariamente algo raso ou infantil. Romeu e Julieta continuaria sendo uma história trágica de amor poderosa mesmo que os protagonistas fossem unicórnios alienígenas radicados no interior do Pantanal matogrossense – afinal, se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume.

Acho que ficamos por aqui hoje. Sei que nem todo mundo que ler isso aqui vai curtir o que leu ou vai pensar sobre o assunto, mas se alguém já refletir sobre (mesmo que seja pra discordar) já valeu a pena – mentira, só de ter lido já gerou um view pro site, mwahaha. Se a gente parar de vaidade intelectual e abrir a mente, vai perceber que estamos perdendo chances de curtir algumas boas histórias por causa de bobeira.

Não há problema nenhum em gostar e elogiar filmes que todo mundo gosta ou elogia. Quando disseram que toda unanimidade era burra, estavam falando que a gente não pode parar de questionar e refletir sobre as coisas. Com a exceção dos daltônicos, todo mundo concorda que o céu é azul e ninguém é burro por isso.


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