Descaralhando a Banana: Michael B. Jordan e o Tocha Humana negro

Jack Mankey

  sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Descaralhando a Banana: Michael B. Jordan e o Tocha Humana negro

Um ator negro é escalado pra viver o Tocha Humana e a Internet volta algumas décadas no passado

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Nessa semana, nós finalmente conhecemos o elenco do reboot do Quarteto Fantástico nos cinemas, que será produzido pela 20th Century Fox e dirigido por Josh Trank (Poder Sem Limites).

O filme contará com Miles Teller (Projeto X) como o Sr. Fantástico, Kate Mara (House of Cards) no papel da Mulher-Invisível, Jamie Bell (As Aventuras de Tintim) interpretando o Coisa e… Michael B. Jordan (Poder Sem Limites) sendo o Tocha-Humana.

Se você olhar no calendário mais próximo nesse momento, verá que estamos em 2014. Porém, contudo e todavia, alguns “nerds” da Internet ainda vivem em plena década de 60 nos EUA e expressaram seu descontentamento com o fato de Jordan ser o novo Johnny Storm  por aí, destilando uma série de bobagens e comentários intolerantes pela rede mundial de computadores.

Assim, nós decidimos escrever algumas linhas para mostrar como o fato de um ator negro interpretar o Tocha-Humana não é nenhum pecado – pelo contrário, na verdade.

Vamos lá!

“O Tocha-Humana é BRANCO, eles tem de respeitar o material original!”

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Respeitem a mitologia do “Homem-Tocha”

Esse é o “argumento” mais comum que eu tenho ouvido e lido por aí sobre esse assunto. Aparentemente, todos esses fãs de longa data do Quarteto Fantástico são pessoas que se levantaram e protestaram muito quando o Homem-Formiga e a Vespa foram substituídos pelo Gavião-Arqueiro e a Viúva Negra na primeira aventura dos Vingadores nos cinemas (que, aliás, mistura DUAS HISTÓRIAS diferentes do time).

Esses mesmos fãs ferrenhos e que defendem muito o material original das HQs também ficaram muito bravos com o fato da primeira formação dos X-Men nos cinemas, em X-Men: Primeira Classe, não conter o Ciclope, a Jean Grey, o Homem de Gelo e o Anjo. Aliás, eles também ficaram muito bravos com o Professor Xavier sendo “irmão” da Mística, com o Magneto deixando o Professor Xavier paraplégico e várias outras mudanças na mitologia dos X-Men (por exemplo, Alex Summers aparece em Primeira Classe e, surpreendentemente, não é irmão do Ciclope! Nossa, que ultraje!).

Quando o Hulk nunca ficou cinza nos cinemas, esses mesmos fãs reclamaram. Quando viram que a Mary Jane tomou o lugar da Gwen Stacy no primeiro Homem-Aranha, eles urraram de raiva. Aliás, esses fãs sofrem de depressão toda vez que lembram que Peter Parker nunca estudou no colegial nem com a Gwen Stacy e nem com a Mary Jane. E o que falar dos Batman de Christopher Nolan? No mínimo uns 10 fãs tiraram a vida de desgosto ao ver que o Duas-Caras se acidentou por culpa do Coringa, e não no julgamento de um mafioso no Tribunal. Também lembro dos protestos por causa da completa invenção Rachel naqueles filmes. E, sabendo que esse povo é tão preocupado com a etnia dos seus personagens favoritos, quem não lembra de todas as reclamações que foram feitas quando um ator britânico foi escolhido para viver o Bane, um vilão latino? Aliás, mesmas reclamações quando uma francesa se tornou a Talia al Ghul (que é árabe) e quando transformaram o Mandarim, um personagem chinês, em um terrorista árabe? – aliás, veja que interessante o fato de que os vilões não são brancos e que ninguém liga pra etnia deles.

Enfim, acho que já fiz meu ponto, certo? Vocês não estão reclamando de uma mudança do material original, vocês estão reclamando que um cara branco será negro nesse novo filme. Olhem pra todas essas mudanças que já foram feitas em filmes de super-heróis, praticamente nenhuma delas tem a mínima importância; elas não mudaram a ESSÊNCIA dos personagens, elas foram feitas por razões criativas dentro de cada filme. Isso é adaptar uma obra, é pegar o que a faz ser o que ela é e colocar numa nova mídia, respeitando sua essência. Respeitar o material original do Quarteto Fantástico é contar a história de quatro pessoas que são uma família e passam pelas barras que toda família passa – seja essa família branca, negra, asiática, etc.

“Ah é? E se eles escolhessem uma ator branco pro Pantera Negra ou pro Luke Cage então?”

Sabe o que é mais interessante sobre quem fala esse tipo de bobagem? Eles realmente acham que estão sendo espertos e apresentando um argumento infalível. Vamos retomar o que eu disse no parágrafo anterior: “Isso é adaptar uma obra, é pegar o que a faz ser o que ela é e colocar numa nova mídia, respeitando sua essência”.

Curiosidade: já transformaram o Pantera Negra em branco numa das histórias mais estúpidas que a Marvel publicou na vida

Curiosidade: já transformaram o Pantera Negra em branco numa das histórias mais estúpidas que a Marvel publicou na vida

Eu sei que vocês que utilizam os neurônios normalmente já sacaram o furo do argumento, mas vou desenhar pros outros: ser negro faz parte da ESSÊNCIA do Pantera Negra e do Luke Cage. Os dois são os “primeiros super-heróis negros”, o fato deles serem negros é o que faz com que eles existam.

Esses dois caras foram criados em meados dos anos 60, quando os EUA passava por uma fase de muitos e muitos protestos em algo chamado Movimento dos Direitos Civis. Naquela época, negros e mulheres eram absurdamente segregados pela sociedade americana (pela reação de vocês à esse anúncio, ainda sobram resquícios desse comportamento por aí). Pra se ter uma ideia, até 1965 os negros não podiam VOTAR nos EUA.

Quando esses personagens foram criados, foi uma maneira de combater a segregação e incluir os negros na sociedade americana através da cultura pop. É por isso que é importante que tenhamos diversidade em séries, livros, jogos, HQs e filmes, por isso que é importante protagonistas de diferentes cores e sexualidades, para ajudar a combater preconceitos e ideias podres no consciente comum.

É por isso que um Pantera Negra branco é totalmente diferente de um outro herói qualquer que seja interpretado por um ator negro – o Tocha Humana, por exemplo, foi criado em 1961, justamente numa época onde os negros eram segregados de maneira brutal (é por isso que ele é branco); o Pantera Negra, criado 5 anos depois, é fruto do avanço do Movimento dos Direitos Civis.

“Ok, mas eu só acho que os negros não precisam de inclusão por pena, só precisam ser tratados de forma igual”

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Pontos extras pro “vadia” sobre a Kate Mara

Ó criatura, quem (eu disse QUEM) está tratando os negros com pena aqui? Você está insinuando que o Michael B. Jordan foi escalado para ser o Tocha-Humana por pena? Não dá para passar pela sua mente que o cara é um ator sensacional (se você discorda, veja Fruitvale Station), com uma base de fãs bem grande entre o público jovem e que tem uma relação muito boa com o diretor do filme (eles trabalharam juntos em Poder Sem Limites)?

Michael B. Jordan não foi escalado por “pena”, ele não está ali cumprindo alguma “cota”, foi escalado porque é um dos atores mais promissores da geração dele e que se tornará nos próximos anos um dos principais nomes de Hollywood. Dizer que ele foi escalado por “pena” é um misto nojento de ignorância cinematográfica e racismo.

Pena seria se a Fox decidisse que não iria escalar um ator extremamente capaz para um papel por causa de um detalhe absolutamente desimportante como a cor do Tocha-Humana (que, já vimos, não é algo que define o personagem; Johnny Storm não é um “branco que ganha poderes”, é um “cara que ganha poderes”). Isso seria uma pena .

“Tá bem, mas você só fala isso porque é o Tocha-Humana. E se fosse o Batman ou o Superman?”

Eu diria a mesma coisa. Aliás, acho que o Idris Elba (Luther) seria um Batman muito bom. Ou um Superman. Ou um Capitão América. Honestamente, Idris Elba pode interpretar o super-herói que ele quiser – menos a Mulher-Maravilha, porque ele não ficaria muito bem de maiô (sim, isso foi uma piada, todo mundo sabe que o Idris Elba chutaria bundas de tiara).

Nenhum desses caras é definido pela sua etnia. O Batman não é o Batman porque ele é branco – ele é o Batman porque é movido pelo desejo de evitar que aconteça com outros o que aconteceu com ele; o Capitão América não é o Capitão América porque ele é branco e loiro – ele é o Capitão América porque ele simboliza os ideias sob os quais os EUA foram fundados (o que faz com que ele próprio aja contra o país, quando o governo não respeita esses ideais); o Superman não é o Superman porque ele é branco – ele é o Superman porque é o ideal de bondade e justiça que devemos nos mirar.

E acho que é isso. Espero que essas palavras tenham ajudado a mudar a visão embaçada que algumas pessoas tem do mundo e das coisas. E se você ainda acha que é “errado” mudarem a etnia de um personagem cuja cor nunca foi importante, pra começo de conversa, faça um favor: aproveite que você “gosta” de ler quadrinhos e dá uma olhada numas histórias do X-Men, ok?


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