Sofazão | Onde os Fracos Não têm Vez – Crítica

  Pedro Luiz   |    quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Considerado por muitos o melhor filme da carreira dos cineastas Joel e Ethan Coen, Onde os Fracos Não têm Vez surge em 2008 com a missão de contextualizar o gênero western em outra época. Uma obra honesta e de qualidade.

Cinema honesto. É isso que todos nós esperamos quando pagamos um ingresso, ou compramos um DVD/Blu-ray. Nota-se muito desse quesito nos filmes europeus, asiáticos e iranianos… Mas e o cinema hollywoodiano? Será que ele é capaz de gerar um filme honesto?  Os irmãos Joel e Ethan Coen respondem ao público cinéfilo com o melhor filme de sua filmografia, Onde os fracos não têm vez (No Country for Old Men, 2007), e deixam claro que sim, o cinema hollywoodiano consegue honestidade em suas produções, só que para isso, são necessários atores muito competentes e um roteiro excepcional.

Pergunto-me se existe algum cinéfilo que não aprecie o gênero western. Se sim, o mínimo de respeito esse indivíduo precisa demonstrar ao gênero, pois filmes como ‘’Era uma vez no Oeste’’, ‘’Três homens em conflito’’ e ‘’No tempo das diligências’’ mudaram de alguma forma o rumo do cinema nos Estados Unidos. E em Onde os Fracos não têm vez, a história lembra (pelo menos a analogia entre o nome e o roteiro) a grande produção encarnada por Clint Eastwood nos anos 60. Isso se dá por causa da construção dos personagens e do nome do filme de Leone. Note bem… O nome em inglês do filme é ‘’The good, the bad and the Ugly’’. No filme dos Irmãos Coen, os personagens tem exatamente essa descrição. O tal ‘’good’’ representa  Ed Tom Bell, xerife dá cidade local vivido por Tommy Lee Jones. O ‘’bad’’ é o personagem interpretado por Javier Bardem (rende um texto á parte), Anton Chigurh. E o ‘’ugly’’ é Josh Brolin, com seu Llewelyn Moss.

Analogias a parte, o que tento mostrar é a homenagem ao gênero que os irmãos Coen prestaram. E sem deixar de lado todo o sangue e tensão que esses filmes western traziam, a dupla entrega nas mãos dos cinéfilos não só um excelente ‘’road movie’’, como também  uma reflexão sobre as escolhas que fazemos quando estamos metidos em grandes acontecimentos, tendo ou não culpa de estarmos ali. Destino. Palavra recorrente no filme.

O roteiro, fenomenal, diga-se de passagem, foi retirado do conto do estadunidense Cormac McCarthy , e como dizem os diretores do filme nos extras de seu DVD, estava IMPLORANDO por uma adaptação cinematográfica. O cenário é um Texas do início dos anos 80, onde a lei do mais forte ainda consegue reinar, em pleno século XX.  Temos nosso ‘’ugly’’, Llewelyn Moss caçando cervos no meio do deserto texano, quando avista algumas caminhonetes abandonadas. Num impulso normal de curiosidade, o veterano de guerra foi conferir o que havia ocorrido, e isso bastou para que entrasse num caminho sem volta, no qual encontra uma maleta recheada de dinheiro, um cara surtado que parece viver em função da morte alheia e um xerife na cola de ambos.

É sim um filme de pouquíssimas falas, obedecendo a regra numero um do cinema: ‘’Não diga, mostre’’.  E as ações mostradas aqui beiram o filme de terror.  Quase a totalidade dessas ações é protagonizada por Javier Bardem, o ator espanhol que despontou como um dos melhores dos últimos tempos por conta de seu personagem enigmático e surtado. Todo o elenco está perfeito, não há do que reclamar, mas Bardem demonstra tanta entrega, tanta frieza, tanta intensidade, que se torna um filme só dele… embora o personagem principal seja o xerife.

Fotografia ‘’árida’’ que só o oeste texano pode proporcionar, atuações impecáveis e honestíssimas, diálogos, embora escassos, memoráveis, e uma direção sem um único ponto negativo. Oscar de melhor filme e direção não é nada comparada a grandeza de tal obra. Irmãos Coen:  dois dos melhores diretores dos últimos 20 anos, sem sombra de dúvida.

PS: Mesmo se tratando de uma caçada, os três personagens principais se perseguem, mas não há nenhuma interação entre eles. Por favor, pare de fazer o que estiver fazendo e vá assistir!


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