Crítica O Homem ao Lado

O Homem ao Lado explora a relação com o vizinho de uma maneira rica e cheia de subjetividades

Matheus Pessôa

  domingo, 06 de outubro de 2013

La Plata, Buenos Aires, Argentina. Um designer renomado, tranquilo e cheio de si vive numa casa futurista de design invejável bem no centro da capital. Até que El Hombre De Al Lado (O Homem Ao Lado, 2009), Victor Chobello, resolve abrir um buraco na parede de sua própria casa para fazer uma janela a fim de conseguir captar alguns rayitos de sol. O problema disso? O tal buraco dá de frente para a casa de Leonardo, o designer, que se sente invadido.

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 O filme começa logo com a abertura na parede de Victor. Alguns segundos depois, Leonardo acorda, aturdido, e tenta encontrar a fonte de tal ruído que o atrapalha durante seu sono. Assim como um ruído na parede que impede o seu repouso, a reforma que seu vizinho realiza ao lado chega como um empecilho para destruir completamente a sua vida profissional no decorrer do filme. A questão não é somente a janela que Victor pretende implantar. Esse fato funciona mais como um assunto recorrente que vai pôr as personalidades antagônicas dos dois personagens durante a trama. De um lado, o designer arrogante com os clássicos problemas de família. Do outro, o vizinho boêmio e excêntrico. São várias as situações nas quais o contraste se mostra gritante. Leonardo só quer saber de proteger a integridade de sua família enquanto Victor só quer alguns raios de sol.

O conflito, no entanto, não para aí. Leonardo não consegue mais trabalhar direito. Sua mulher também não. Sua filha… Bom, sua filha está ouvindo música, dançando, é uma realidade à parte. O filme explora de maneira muito interessante os reflexos do conflito na vida pessoal do designer. E faz isso através de vários recursos, como a hora em que o personagem principal está trabalhando com as duas mãos nos ouvidos e ouve o ruído da reforma ao lado quando deixa de fazer isso.

Além disso, também faz críticas ao esteriótipo do famoso prepotente. Numa das cenas, ele está ouvindo um tipo de música primal com vários urros de dor, completamente deprimente. Durante a reprodução da música, também pode-se ouvir o som das marteladas na casa ao lado (completamente omitidas pelo som da música). No entanto, ele faz questão de desligar a música e ir reclamar ao seu vizinho, numa contradição clara  de idéias que funciona muito bem. Gosta de ouvir algo que são só ruídos e gritos de dor, mas incomoda-se ao mínimo decíbel produzido por algumas pancadas na parede. A janela, neste momento, torna-se mais uma moldura quando vista (recurso visual que dá um toque a mais à obra).

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 A interação entre os dois vizinhos é sempre muito interessante de se ver; os diálogos que vão e vem sem que nada tenha sido acordado, as desculpas esfarrapadas, as perseguições por parte de Victor, as excentricidades, as atitudes de ambos caracterizam uma disputa bem acirrada e rica. Rica quanto a verossimilhança com os diálogos do dia-a-dia, às críticas que o filme faz  (algumas bem perceptíveis, outras um tanto mais subjetivas) e implementada pela excelente interação entre os dois atores e pela fotografia notável do filme que busca sempre ajudar na interpretação das cenas, na construção de personagens e que ajuda bastante a trazê-lo para a realidade. O desfecho dessa história é brilhante e simples, ao mesmo tempo. Os dois personagens estão lado a lado, sofrendo as mesmas consequências e é neste ponto que Leonardo mostra sua verdadeira face. El Hombre de Al Lado merece ser conferido, principalmente se o cinema independente for uma preferência ao espectador.


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