Crítica Hotel Ruanda

Um filme que retrata a triste realidade de Ruanda em 1994

Matheus Pessôa

  sábado, 07 de setembro de 2013

Muitos assuntos provavelmente estão sendo discutidos neste exato momento num outro lugar do mundo, sem a nossa mínima consciência. O mundo pode estar prestes a ver uma nova guerra mundial ou sofrer com uma nova crise financeira absurda ou até mesmo a acabar sem mais nem menos. Um só piscar de olhos é o que basta para que tudo mude de uma hora para outra, sem o nosso mínimo conhecimento.

Um acontecimento histórico pode não ser conhecido por você, mas para muitas pessoas com certeza foi uma das piores experiências de suas vidas. É o caso do Hotel Mille Collines, em Ruanda, que teve sua história retratada em Hotel Ruanda (2004), estrelado por Don Cheadle e dirigido por Terry George. A história que o filme conta é, infelizmente, baseada em fatos reais.

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 Em 1994, estourou na Ruanda o que pode ser tida como uma das maiores tragédias e massacres da década de 90: a guerra entre hutus e tutsis. Hutus e tutsis são termos que foram adotados para segregar a população nestes respectivos grupos devido ao seu nascimento. Porém, as diferenças entre os pertencentes de um grupo e de outro são quase que insignificantes. Quando os hutus chegam ao poder no país, no entanto, tratam de descontar todo o sofrimento que passaram quando os europeus tomavam conta do território dos tutsis. Nos conflitos, estima-se que aproximadamente 1 milhão de ruandeses foram mortos (tutsis e hutus entre eles).

No meio deste conflito, encontra-se Paul Rusesabagina (Don Cheadle), gerente do Hotel Mille Collines que vê toda a guerra eclodir perante seus olhos, pondo em risco todos ao seu redor: seus vizinhos, amigos e até sua própria família. O enredo do filme, então, trata de detalhar cada momento dessa longa jornada pela qual Paul passa, já que decide abrigar todos os tutsis no hotel, a fim de protegê-los.

O filme deixa claro vários pontos importantes que, sendo tratados com verossimilhança, aparecem na película como uma dura crítica às autoridades tanto militares quanto humanitárias. O primeiro ponto se refere quanto à violência à qual os tutsis são submetidos no decorrer da história. Não há medo algum em mostrar tudo como -quase- exatamente aconteceu com Paul durante esse período de tensão. O diretor Terry George havia prometido contar a história como ela foi, e o fez sem pudor algum. Fez questão de explicitar todas as emoções de Paul e acrescentar vários elementos que despertam a emoção do espectador, em suas próprias palavras.

Além disso, temos a questão da Organização das Nações Unidas, que só puderam aderir parcialmente ao que estava acontecendo, por motivações não bem explicadas durante o filme; Mas, analisando o contexto histórico, os EUA inibiram a participação da Organização porque a memória recente de embates na Somália e outros países africanos ainda permanecia fresca na mente estadunidense, que decidiu afastar-se um pouco dos problemas daquela região.

É interessante, também, citar a questão dos subornos que Paul tinha que fazer aos militares para que protegessem o hotel de ataques hutus. Com bebidas alcoólicas ou pedras preciosas, ele, sozinho, teve que se virar para servir como um verdadeiro diplomata entre os seus refugiados e militares/inimigos. Foram centenas de pessoas salvas por ele, que não se considera um herói, afinal. ”Era o meu dever”. 

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Durante as negociações, as suas ‘propostas’ eram sempre conservadoras em relação aos seus protegidos, ou seja, contrariavam os negociadores. Porém, como foi dito sobre Paul em uma de duas entrevistas à televisão, ele ”Tinha o dom de dizer não; Ou seja, ele não diria ‘Não entre aqui e não leve-os’, mas sim algo como ‘Ok, capture-nos, mate-nos. Mas você estará perdendo serviçais’. Um exemplo desse poder de persuasão se dá no último ato do filme, quando ele conversa com um general e o convence a voltar ao hotel.

Destaque para a atuação excelente de Don Cheadle como personagem principal. O ator personificou-o de uma maneira primorosa nas partes em que a emoção era o foco principal. Uma cena solo chama atenção pela naturalidade com que Cheadle imprimiu-a: quando, após ter andado sobre uma estrada de mortos, volta para o refúgio e toma conta de todo o caos, todo o genocídio que está acontecendo ao seu redor, o perigo que ele e sua família estão correndo e simplesmente surta. Uma das cenas mais marcantes do filme.

Hotel Ruanda é uma opção para quem busca entretenimento e serve  como complemento cultural também, afinal, não são todos que sabem sobre a guerra civil que aconteceu em Ruanda no ano de 1994.

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