quarta-feira, 4 de abril, 2012 - às 16:24 hrs. Cinema - Sofazão

Sofazão | Encontros e Desencontros – Crítica

A coluna sofazão volta depois de um logo hiato. E volta com um bônus, já que a coluna passará a ser publicada todas as segundas-feiras! Então, temos um encontro marcado... Só para não passar em branco, decidimos trazer Encontros e Desencontros (2003).


  Pedro Luiz   

O legado da família Coppola no cinema é, no mínimo, curioso. Se por um lado temos Francis Ford Coppola, um cineasta absolutamente inquestionável em relação à qualidade e contribuição à sétima arte, do outro lado temos o sobrinho (sempre irá existir um ovelha negra) Nicolas Kim Coppola, ou Nicolas Cage, para os íntimos, que despensa comentários negativos.

Nessa família tão ‘’cinematográfica’’, alguém teria que assumir o papel de ‘’meio-termo’’, e trazer o ‘’equilíbrio à força’’. Esta é Sofia Coppola, filha do grande ‘’Chefão’’ e prima de Cage. O tal equilíbrio se mostra em sua filmografia, com altos e baixos, entre a genialidade e a pieguice, do inédito para o clichê. Se Sofia é capaz de dirigir filmes fracos como Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) , que nada contribuem ou agregam, é também capaz de trazer belas obras como As Virgens Suicidas (1999) e o tema  de hoje da nossa coluna: Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003).

Acho cansativo e desinteressante assistir a um filme sobrecarregado, seja de efeitos especiais, ou de maquiagem, de ação frenética (Michael Bay está com as orelhas ardendo agora) etc. Por isso sempre tive curiosidade e apreço pela forma européia de contar histórias, geralmente compostas por um roteiro profundo e reflexivo, atores comprometidos e direção segura. Sem rodeios ou alegorias. E é exatamente essa beleza, digamos, ‘’européia’’, que vemos em Encontros e Desencontros. São só dois atores, muita atuação, reflexão e profundidade.

O filme conta a história de Bob Harris e Charlotte. Casados, mas que encontram um no outro algo que lhes faltava na ausência de seus parceiros. O primeiro vai a Toquio para gravar um comercial de Whisky, aproveitando seu resto de fama (um ator famoso nos anos 70). A segunda vai também a Toquio com seu marido fotógrafo de celebridades, que é forçado a rodar o país para fotografar. Sozinhos no hotel, e compartilhando da solidão de seus casamentos, Bob e Charlotte começam uma amizade inocente o bastante para qualquer um. A princípio, a história parece ser levada para o mesmo caminho das comédias românticas ‘’happy ending’’, mas a profundidade das atuações e o conflito presente no rosto de ambos durante o andamento do filme, deixam claro que aquilo se trata de uma obra única.

Citei as atuações, e isso é, dentre muitos outros, um ponto importantíssimo. Bill Murray interpreta Bob Harris, e como fã dele, me vi na obrigação de eleger essa a melhor atuação de sua carreira. Tudo é favorável a ele. As marcas de expressão, as rugas, a face cansada (que se modifica ao longo do filme), o conflito aparente… vale ressaltar que não há exageros, e o que vemos é um Bill Murray sutil e contido, embora confuso.  Já Charlotte é interpretada por Scarlett Johansson, que não precisa fazer absolutamente nada para encantar. Sua beleza pura e contida (Como nas cenas em que está deitada na cama, ou acordando) mostra inocência e ao mesmo tempo poder. Não se apegando a sensualidade, e sim ao uso de roupas normais, meio adolescentes (pijamas, pantufas fofinhas), Scarlett dita uma moda muito mais interessante  do que a que será vista em Os Vingadores, por exemplo. Igualmente profunda em sua atuação, Scarlett encanta… E encanta muito.

A trilha sonora também dá um show. Brass in Pocket dos Pretenders  e Just Like Honey do Jesus and Mary Chain são só algumas das músicas que embalam o filme e envolvem de forma suave o espectador.

Típico filme simples que você, ao acabar de ver, deveria pagar por mais um ingresso. E se for preciso que Sofia Coppola erre mais uma ou duas vezes para voltar a fazer filmes como esse, não tem problema. A espera vale a pena.


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