Crítica Dentro da Casa

O Sofazão traz hoje um dos melhores filmes franceses de 2012. Crítico, realista e que brinca com a imaginação do espectador

Matheus Pessôa

  sábado, 14 de setembro de 2013

Boa noite, caros leitores! Se estão esperando algum filme sobre a ‘Sexta-Feira 13’… Foi mal, hoje não haverá uma seção temática aqui no Sofazão. Mas não te entristeças! Como filmes de terror são clichês no dia de hoje, obviamente você já deve estar cansado de ler sobre ‘Listas de filme de terror para ver hoje’ e outras coisas desse tipo.

Trazemos a você o filme francês Dentro da Casa (Dans La Maison,2012), de François Ozon. Um filme bem divertido e que te prende do início ao fim. Um verdadeiro labirinto de informações que hora são realidade e hora não condizem com a verdade; é aí que entra a questão de um dos pontos mais importantes do filme: a imaginação.

Dentro da Casa 2

Dentro da Casa conta a história de um menino, Claude, que, ao fazer uma redação como lição de casa, acaba maravilhando seu professor, Germain por algo tão bem escrito em meio a todas as outras grotescas e banais composições. Nasce assim uma relação entre mestre e aprendiz, posições que ambos os protagonistas trocam durante o filme. De um lado, um garoto com um dom. Do outro, um professor que tentou e sempre quis escrever romances mas que nunca obteve sucesso. O que é posto em questão, no entanto, não é a questão ‘o aluno’ e o ‘professor’; a narrativa foca-se nas (ao todo 17) redações de Claude e seu conteúdo, especificamente.

Nelas, Claude visita a casa de seu amigo, Rafa, e tem uma vista extremamente crítica e subjetiva sobre o que encontra ao redor. O comportamento do pai, o dito perfume de mulher da classe média da mãe de Rafa e o garoto em si, sempre absorto em seus pensamentos e que nunca demonstra suas emoções. Claude começa a descrever cada cena de um dia-a-dia da família dos Rafas e vai atribuindo uma série de características diferentes a cada personagem. Ao mesmo tempo, faz a análise crítica sobre a classe média. Atos completamente banais, a falta de imaginação e expectativas fúteis são retratados de um modo bastante sutil, mas muito incisivo.

Assim, a cada capítulo ele vai aperfeiçoando a sua história, sendo instruído por seu professor e aprendendo um pouco mais sobre os mais variados tipos de literatura e técnicas de redação. O enfoque, no entanto, está na metalinguagem do filme com relação a essa escrita, uma vez que vemos a arte da escrita sendo ensinada a Claude através de livros e, acima de tudo, na relação que as próprias cenas em si acabam formando uma história às vezes linear e às vezes não. Há vários momentos durante o longa quando ocorrem intercalações de pensamentos e realidade, e cabe ao espectador descobrir se aquilo condiz com a realidade ou trata-se apenas de um retrato abstrato da mente de um adolescente rebelde.

Quando falamos sobre a literatura, é claro que não podemos deixar de lado o público-alvo dos livros. É aí que entra a questão do professor opinando sobre o que deve acontecer na história que Claude escreve. Germain funciona como o exemplo mais claro disso (além de sua mulher), já que é ele a quem Claude tenta satisfazer a todo tempo quando algo que escreve dá errado. As pequenas cenas da visão que Claude tem por dentro da casa, observando a natureza humana, são interessantíssimas para instigar a mente do espectador: o que vejo na tela, agora, faz parte da trama de Claude ou condiz com a realidade? Assim como a mente de um leitor foi feita para navegar pelas páginas do livro, aqui o espectador navega pelas ideologias apresentadas pelo filme, podendo ter várias interpretações diferentes sobre o que está sendo exibido.

danslamaison

As partes da exposição de arte são críticas pontuais a essa banalidade dos dias de hoje. Antes eram colocadas à mostra verdadeiras obras de arte. Nos dias de hoje, uma boneca inflável vestida de Hitler pode ser considerada uma grande obra de arte. Ou, então, um quadro de uma chinesa que retrata as nuvens negras do céu. Exposições apreciadas por quem? Pelos membros da classe média, no filme. Este, por sua vez, também brinca com as suas origens (baseado em  El Chico de la Última Fila/ O Menino da Última Fila): Germain, em seu passado, sentava na última fila e queria ter o dom da escrita. ‘É o melhor lugar de todos. Podemos olhar todo mundo e não sermos vistos ao mesmo tempo’. Claude também senta na última fila. Ele tem o dom da escrita. E o ‘olhar para todo mundo’ faz uma analogia que pode estar relacionada ao fato de que Claude observa a família dos Rafa e não é percebido como algum tipo de intruso em momento algum.

Fazendo ressalvas sobre o que foi discutido anteriormente, é muito interessante ver o jogo de cenas que Ozon faz, assim como as várias idéias que Claude tem durante o desenvolvimento de seu romance. Por ser tão dinâmico, realista, crítico e excelentemente conduzido, Dentro da Casa é um filme magnífico, chegando a divertir tanto em seus momentos mais didáticos quanto nos de crítica propriamente dita.

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