O Terror como gênero cinematográfico

Luisa Clauson

  segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Terror como gênero cinematográfico

Uma breve análise de um dos mais subestimados subgêneros cinematográficos

Desde meus dez anos tenho fascínio pelos filmes de terror. Na rebeldia da adolescência, abracei essa subcultura  como alternativa, um escape da realidade. Afinal, quando somos adolescentes queremos ser tudo, menos aquilo que realmente somos. O terror tem essa abertura, a abertura do fantástico, de um inimigo imaginário que (geralmente) é derrotado. E então eu cresci e a glorificação pelo obscuro se tornou curiosidade. Passei a ler livros sobre o gênero e métodos da criação do terror e percebi como filmes de terror são terrivelmente (ha-ha) subestimados.

jason

Acredito que é preciso apontar uma diferença: o Terror é aquele que te traz o medo e a expectativa: a jovem correndo seminua no meio da floresta em direção ao perigo. O Horror é a repulsa diante do ato já em ação: Jason com uma flecha enfiada no peito de sua vítima – e não é a toa que existe um colchão entre eles: O que dizer do terror real de ter um assassino embaixo da sua cama, no antro de segurança de seu lar?

E então vem a coisa curiosa: qual a reação de um jovem ao ver uma cena dessas? A maioria ri. Gargalhadas no cinema quando o carro pára de funcionar, quando vem o caminhoneiro oferecer ajuda. As pessoas ridicularizam o terror e então ele é bem sucedido, porque não existe demonstração mais eficaz de medo no nosso corpo do que quando a mente busca subvertê-lo ao ridículo.

E por que raios alguém iria querer fazer um filme assustador o suficiente para nos fazer ter pesadelo? Pelo mesmo motivo que assistimos aos infindáveis dramas que nos faz partir o coração: porque o ser humano precisa disso.

freddyO filme de Terror nada mais é do que um drama: ele apresenta as personagens, a situação fora do usual e o desenrolar da história de onde geralmente se tira uma lição. Cada vilão de filme (ou história) de terror nada mais é do que uma representação dos medos mais profundos da sociedade da época. Um exemplo que gosto muito de usar é A Hora do Pesadelo: a primeira série de filmes conta sobre um homem condenado a morrer queimado após assassinar criancinhas e ele então volta para assombrar os sonhos de jovens inocentes. O enredo se passa na década de 80, no final da Guerra Fria nos EUA. Analisando a metáfora, Freddy Krueger nada mais é do que um elemento de fora, matador de criancinhas, capaz de invadir nossas mentes e com um estanho gosto pelo vermelho. Assim como os comunistas, Freddy Krueger destruía o Sonho Americano.

Em sua remake de 2010, Freddy se torna um homem acusado de pedofilia, e toda a trama gira em torno da dúvida de sua inocência. Isso porque hoje em dia a moral é muito mais assustadora do que a Mãe Rússia. Questionar as decisões feitas ou tomar um caminho errado com resultados drásticos nos faz perder o sono. E essa é a magia que o terror transporta todos os anos em milhares e milhares de filmes lançados, muitos perdidos nos escombros da internet.

O Terror também é fantasia, mas altamente criticado por não ser algo ‘convincente’. É só observar os ratings, a maioria baixo por ‘não fazer acreditar’ ou ser ‘algo ridículo’ ou ‘jamais que isso aconteceria’. A fantasia do terror é libertadora. Ela não precisa de fins científicos, e se der qualquer justificativa, é um luxo. Isso porque o foco não é o porquê. Na vida real nós já questionamos por que o suficiente. O filme quer que você literalmente esqueça todo o universo que você vive e imerse naquela situação conflitante presente naquele mundo. Que você se renda aos instintos de sobrevivência primordiais. Que você acredite. E esse é o ponto crucial. Essa é a magia por trás do Terror.

As pessoas precisam desapegar dos problemas da vida por duas horas, elas precisam acreditar em algo diferente, precisam conhecer vilões diferentes, e o mais importante, precisam vencê-los no final. O suspense dá a descarga de adrenalina ‘gostosinha’, mas o Terror ajuda a descarregar tudo aquilo que nos assombra no dia-a-dia.

O lado ruim de se considerar o Terror como subgênero é que tantas obras primas se perdem, como Insidious – um filme de subir pelas paredes, com um enredo bom para os amantes do gênero, fotografia e som de se fazer chorar de tão lindo – pois não têm lugar de reconhecimento em premiações grandes, ao lado de drama, ficção e fantasia, documentários, animações, ficando apenas rebaixados ao critério ‘dá susto?’. O lado bom é que tantos filmes com orçamentos ridículos de baixo são lançados para o nosso prazer. Basta uma câmera, uma idéia e uma boa dose de coragem.


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