O Preço do Amanhã – Crítica

  Leandro de Barros  |    quinta-feira, 03 de novembro de 2011

Com um elenco recheado de bons nomes e um diretor talentoso, o sci-fi de ação conseguiu gerar adquirir uma boa quantidade de atenção prometendo ser um ótimo filme. Mas será que ele entrega o que promete?

O novo filme de Andrew Niccol, O Preço do Amanhã, estréia nessa sexta-feira nos cinemas de Pindorama, embora o filme já tenha estreado há tempos em outros países.

Com um elenco recheado de bons nomes e um diretor talentoso, o sci-fi de ação conseguiu gerar adquirir uma boa quantidade de atenção prometendo ser um ótimo filme. Mas será que ele entrega o que promete?

A crítica não tem spoilers muito grandes, mas prossiga com cuidado.

Num futuro próximo, a engenharia genética estará tão avançada que o ser humano se torna praticamente imortal. O gene do envelhecimento foi desligado, humanos possuem um relógio de LCD no braço e podem viver para sempre. Isso se eles conseguirem trabalhar para isso, pois o tempo virou a unidade monetária da humanidade.

Em O Preço do Amanhã, essa é a realidade diária. Cada ser humano vive até os 25 anos. Depois disso, a pessoa recebe mais um ano de vida e tem de começar a trabalhar para poder viver mais. Nesse cenário, Will Salas (Justin Timberlake) acaba salvando a vida de um milionário (Matt Bomer) apenas para vê-lo se suicidar. Não sem antes entregar à Will séculos de vida.

A mensagem do filme é óbvia. Tão óbvia que já é transmitida pela sinopse do filme. Mas o fato de ser óbvia não desmerece em nada nesse caso, apenas porque é a retratação do que acontece na nossa sociedade. A única diferença, é que o diretor Andrew Niccol trocou o dólar/euro/real pelo tempo para deixar mais claro o que passa por debaixo dos nossos olhos todos os dias.

O filme não poderia estrear em melhor hora. Com toda o protesto em Wall Street acontecendo, a trama do longa vai fazer ainda mais sentido para quem começou recentemente a acompanhar e entender o sistema financeiro do mundo globalizado de hoje e como isso interfere nas nossas vidas. Pra quem já sabe como os dados rolam, não tem muita novidade. Enquanto 1% vive com séculos e séculos de vida (e alguns já nascem com uma quantidade absurda de tempo), outros acordam de manhã com menos de 24 horas pra viver. Enquanto alguns podem se dar ao luxo de perder séculos de vida numa rodada de poker, outros morrem por que não cumpriram a cota mensal no trabalho e não receberam tempo o suficiente até o próximo pagamento. Troque “tempo” por “comida” que as coisas ficam ainda mais na cara.

Ainda existem várias outras idéias colocadas no filme que era possível comentar aqui. O fato de que, se um dia conseguirmos mesmo viver para sempre, isso será um privilégio de poucos e não de todos; a responsabilidade social de quem tem muito mais; o fato de ninguém ter culpa do com quanto nasce, mas é responsável pelo o que faz com esse tanto; a necessidade de se haver morte, etc, etc, etc.

Um dos pontos altos do filme é a adaptação e apresentação desse cenário ao espectador, ajudando a explicitar a mensagem de Niccol e a traçar o paralelo com a nossa sociedade. Desde frases do nosso cotidiano (‘Hey, você tem um minuto?’; ‘Desculpe senhor, posso pegar 5 minutos do seu tempo?’, e afins) que ganham um sentido completamente novo até os gastos com coisas cotidianas da vida (você perde 4 minutos por um café; uma passagem de ônibus para um percurso de 2 horas a pé custa… 2 horas), passando por diferenças no modo de agir entre ricos e pobres (pobres comem com pressa, correm pelas ruas, foram maquiados para dar a impressão de serem mais velhos, enquanto os ricos é ao contrário). Tudo isso está lá de maneira bem feita e que vai ajudar a fazer o espectador entender a profundidade em que estamos enterrados no nosso sistema financeiro. Além disso, há também as Zonas do Tempo, que chegam a ser lúdicas. As cidades são divididas em Zonas de Tempo. Se você é relativamente pobre, vive numa Zona relativamente pobre, onde pode pagar pelos bens que consumir, etc, etc, etc. Se você é rico, vive numa zona rica. Você pode mudar de Zona do Tempo, claro, mas é preciso pagar um pedágio. Pagando com tempo. Você não deixa de ser pobre para ser rico de um dia pro outro, certo? Só o conceito de Zonas do Tempo daria pra escrever um texto de umas 6 páginas relacionando com as classes sócio-econômicas, mas eu não vou ficar explicando um filme que já se explica sozinho o tempo todo.

Talvez seja esse um dos problemas do filme. Provavelmente numa tentativa de ser mais comercial e de agradar mais gente, o filme se explica em todas as cenas. É quase como se estivessemos vendo um filme com uma legenda criativa. “Olhe, nessa cena o Will Salas paga um ano pra mudar de Zona do Tempo simbolizando que as pessoas tem de trabalhar muito pra mudar de classe sócio-econômica”, etc.

No meio do conceito de Niccol, está o talentoso elenco reunido para o filme. Nomes como Olivia Wilde (Cowboys & Aliens), Johnny Galecki (The Big Bang Theory), Alex Pettyfer (Eu Sou o Número 4), Cillian Murphy (Batman Begins), Amanda Seyfried (Garota Infernal), Vincent Kartheiser (Mad Men) e Justin Timberlake (Amizade Colorida). É preciso ressaltar, não só o excelente trabalho de casting, mas também a qualidade das atuações. Nenhum deles deixa a peteca cair, principalmente Justin Timberlake, que chega a surpreender. Não sou o primeiro (nem serei o último) a dizer que a melhor coisa que Timberlake poderia ter feito foi trocar a música pela atuação. Ele pode não ser um monstro da interpretação, mas é competente e consegue fazer seu trabalho sem soar falso. Amanda Seyfried também entrega o seu nível normal de atuações, criando um bom contraste entre o modo de vida de Will Salas e o de sua personagem, Sylvia.

Eu já mencionei o nome de Andrew Niccol algumas vezes por aqui, mas não dá pra não fazer de novo. Ele é o responsável por esse filme, ele dirigiu, escreveu e foi um dos produtores do filme. O conceito nasceu dele e a responsabilidade é dele. Se o filme é bom, temos de elogiá-lo e se o filme é ruim, criticá-lo. Nesse caso, Niccol está de parabéns. O Preço do Amanhã pode não ser o supra-sumo do cinema e pode ter muitos defeitos (e tem!) mas, fugindo de comparações, O Preço do Amanhã é bom por si só e, além de boas cenas de ação, um bom elenco e boa direção, entrega um retrato da nossa sociedade e expõe uma faceta de nós mesmos que não queríamos admitir (ou nem sabíamos da existência). Entrega de maneira diluída, didática e comercial, mas talvez seja preferível ter muita gente recebendo a mensagem mastigada com potencial para se aprofundar do que pouca gente com o material já aprofundado.

Se você tiver a chance, não deixe de ver O Preço do Amanhã. Faça bom uso do seu tempo, porque ele vale como dinheiro.


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