O Espetacular Homem-Aranha – Crítica

  Leandro de Barros  |    quinta-feira, 05 de julho de 2012

Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans e Martin Sheen trazem O Espetacular Homem-Aranha mais uma vez para os cinemas

Em certo momento de O Espetacular Homem-Aranha, uma professora de Peter Parker diz que só existe um tipo de história: a do “Quem sou eu?”. Bem, essa é a história do Homem-Aranha.

Sem spoilers hoje.

Bem, a gente finalmente viu O Espetacular Homem-Aranha. Dos três filmes de super-heróis do ano (Os Vingadores e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge), o filme do Homem-Aranha era o que eu estava mais receoso. Tinham anunciado uma mudança na origem do personagem, era o começo de uma franquia, algumas liberdades criativas estavam sendo tomadas, o diretor do filme nunca trabalhou num filme de ação antes… inúmeros motivos me deixavam com o pé atrás, apesar de eu achar que O Espetacular Homem-Aranha seria um bom filme. Felizmente, eu estava certo.

Como filme, O Espetacular Homem-Aranha não faz feio. Como filme de super-herói,é uma boa diversão. Como a retratação de um dos heróis mais queridos da Marvel, o filme pisa na bola.

Eu prefiro falar primeiro dos defeitos, pra gente já se livrar da parte mais desagradável. O Espetacular Homem-Aranha falha em duas coisas básicas: a primeira delas é a tentativa de explorar a história dos pais do Peter (Andrew Garfield), algo que nunca deu certo nos quadrinhos e que voltou a falhar no filme. A segunda falha está na coincidência irritante de coincidências ao longo da história do Homem-Aranha. O roteiro e a direção do filme martelam tanto no conceito de que os elementos da vida do Homem-Aranha estão “interligados numa teia de acontecimentos” que chega a incomodar.

Não bastasse uma série de coincidências que abusam dessa brincadeira, nós ainda somos brindados com essa “teia de acontecimentos” de maneira gráfica ao longo do filme: o local onde está a aranha que acaba picando Peter parece uma versão “marvelística” das Moiras da Mitologia Grega. Em certo momento, o próprio Homem-Aranha tece sua teia, deixando ainda mais clara essa idéia dos produtores do longa.

Esse será o elemento que mais vai desagradar os fãs do herói nos quadrinhos. Muitos elementos da mitologia do Aranha são alterados para poder encaixar nessa visão do personagem. Eu, que não sou exatamente o mais purista dos fãs, fiquei incomodado com algumas coisas, imagino como ficarão os fãs mais ferrenhos.

Agora, vamos falar de coisa boa, dos acertos do filme. Marc Webb (500 Dias Com Ela) é um cara que tem um talento incrível para construir personagens e fazer com que os espectadores se conectem com eles. O Peter Parker desse filme, interpretado muito bem por Andrew Garfield, é MUITO melhor que o Peter Parker de Tobey Maguire, apesar de ainda ter uma distância pro Peter dos quadrinhos. Como dito no começo da crítica, há um momento em que uma professora diz que só existe um tipo de história: a do “quem sou eu?”. No filme, Peter Parker parte em busca dessa resposta, com toda a insegurança e todas as defesas que um adolescente pode levantar contra suas figuras paternas. Tudo ganha uma escala maior quando o garoto literalmente se transforma e precisa reaprender quem é, o que fazer com seus poderes (e precisa aprender a deixar a máscara na cabeça. Acho que ele fica mais tempo sem a máscara do que com a máscara).

Abordar esse tema (que é um dos pilares de toda a história do Homem-Aranha) é o tipo de decisão que fez a Trilogia do Batman, por exemplo, ser tão bem sucedida: é pegar a alma do personagem e transpor para os quadrinhos. Mesmo com todos os defeitos citados há alguns parágrafos, ainda é o Homem-Aranha. Aliás, é bem mais o Homem-Aranha do que visto antes. Na cena do metrô, foi a primeira vez em que eu realmente vi o Peter Parker dos quadrinhos no cinema. Aquela é a essência dele e foi um dos momentos altos do filme.

gwen e a “maldita teia de acontecimentos”

Além de Peter, outras duas personagens dividem as atenções: o vilão Dr. Connors (Rhys Ifans) e a mocinha Gwen Stacy (Emma Stone). O Lagarto de Ifans, apesar do horrível uso do CGI nas suas expressões faciais, agrada bastante como uma espécie de releitura do clássico O Médico e o Monstro. Connors é aquele centista bem intencionado na sua forma humana, mas perde o controle quando se transforma no Lagarto. Emma Stone, por sua vez, é a Gwen Stacy. A personagem dos quadrinhos, tão brilhantemente desenhada por Steve Ditko, ganha vida nas telas dos cinemas. Poucas vezes eu vi um ator que realmente incorporou o personagem com maestria nos cinemas. De cabeça, posso lembrar de Michael Caine como Alfred e Gary Oldman como o Comissário Gordon, e não há um elogio maior para ser feito para Stone.

Uma coisa que me chamou a atenção nos trailers do filme era a plasticidade das cenas de ação de O Espetacular Homem-Aranha. Essa impressão se confirma nas telas e somos brindados com um espetáculo visual, tanto nos combates entre o Homem-Aranha quanto nas cenas em que ele apenas balança por aí. O Aranha é bem mais ágil, liso, esguio do que antes. Um cara bem mais difícil de se acertar em combate, alguém que não vence pela força, mas pela esperteza.

Para concluir, O Espetacular Homem-Aranha é o mais próximo do Cabeça de Teia dos quadrinhos até o momento. Andrew Garfield fez um ótimo trabalho interpretando o melhor Peter até agora, com as piadinhas, a inteligência e a falta de traquejo social. Emma Stone é a Gwen perfeita, um universo foi criado para o herói e há pedaços da sua mitologia por todo o lado. A ação é boa, a trilha sonora é fantástica e os coadjuvantes mandam bem. A falha está na exploração de conceitos que já se provaram errados antes e que não possuem ligação de verdade com o herói.

Fã ou não, vale a pena dar uma olhada nos cinemas. Mesmo se você não gostar do filme, a cena com o Stan Lee já vale o ingresso. E uma dica: fiquem até o fim dos créditos.


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