Homem de Ferro 3 – O filme mais incompreendido do ano

Leandro de Barros

  segunda-feira, 20 de maio de 2013

Homem de Ferro 3 – O filme mais incompreendido do ano

Numa missão digna de um Vingador, tentamos mostrar que, afinal, Homem de Ferro 3 não é tão ruim quanto dizem

Texto com MUITOS spoilers sobre o enredo de Homem de Ferro 3, só leia se já tiver visto o filme ou não reclame nos comentários.

Iron Man 3 sofa

No momento em que esse texto é escrito, Homem de Ferro 3 já está nos cinemas nacionais desde o dia 26 de abril, praticamente um mês. O longa já arrecadou mais de $1 bilhão de dólares nas bilheterias ao redor do mundo e é um grande sucesso comercial. Porém, eu notei nas ~redes sociais~ muita reclamação sobre o filme – pelo menos de parte do público brasileiro. Parece que ninguém realmente GOSTOU de Homem de Ferro 3 e todo mundo resolveu criticá-lo.

Essas críticas (e, confesso que nem tanto o teor delas, mas a forma como eram feitas) me afastaram dos cinemas. Eu resolvi não assistir Homem de Ferro 3 enquanto o hype da estreia do longa não tivesse passado. Deixei a poeira baixar e só então fui até o cinema para assistir ao filme – infelizmente já ciente de praticamente todos os spoilers. A minha surpresa: o Homem de Ferro 3 não é, de longe, tão ruim quanto dizem.

Nas últimas semanas, eu acompanhei pelo Facebook uma série de “furos” de Homem de Ferro 3. Pelo que aqueles ao meu redor diziam, o roteiro do filme era pior que um queijo suíço. Agora que eu assisti ao longa, posso ver o quanto de exagero havia em tais declarações precipitadas (ui) e, antes de dar minha opinião sobre Homem de Ferro 3 num geral, vou dar minha opinião sobre os tais “furos” do filme.

  • Por que o Tony Stark não chamou as milhares de armaduras logo quando saiu da casa dele e a Mark 42 ficou sem energia?: Ah, um clássico. Tanta gente mencionou isso pra mim antes de eu ver o filme que eu realmente pensei que era um furo do roteiro. É uma pena porque só mostra que ou todo mundo não viu o mesmo filme que eu (possível) ou ninguém prestou atenção no filme (provável). Quando Tony e Rhodes estão no barco do Mandarim indo salvar Pepper o Presidente (ao mesmo tempo em que Savin entra com o Presidente no avião), Jarvis “liga” para o Tony e diz que “os guindastes chegaram” e “as portas estão liberadas”. Caso você precise de um refresco na memória, lá vai: a casa de Tony Stark, em Malibu, foi atacada e destruída. Com isso, a porta subterrânea onde as 290382103728372 armaduras estavam guardadas, ficaram trancadas, impedidas de abrir. Quando os tais guindastes chegaram (já quase no último ato do longa) é que Tony pôde acioná-las;
  • A Mark 42 desmonta o tempo todo! Qualquer encostada e ela já desmonta: Ok, à primeira vista parece um “furo”, mas vamos lá. Qual o propósito da Mark 42? Ser uma armadura que alcance o Tony Stark onde ele estiver em qualquer momento. Repare que cada armadura do filme tem uma função específica. A função da 42 é essa. Portanto, ela precisa ser mais maleável. Veja só como ela funciona: cada peça voa em direção ao Tony Stark. Como isso seria possível se ela não fosse “de encaixar”, tipo LEGO? Repare que as outras levam trancos tão fortes quanto e não desmontam, porque são feitas de maneiras diferentes;
  • O Tony Stark dorme quando sai voando, depois do ataque na casa dele. PQP que vacilo idiota!: De novo, talvez faltou um pouco de “conhecimento básico” ou de explicação no filme. Vamos lá no contexto: Tony Star está claramente sofrendo de stress pós-traumático depois dos eventos de Os Vingadores. Ele mesmo explica: não consegue dormir, está com medo, focado no trabalho e constrói milhões de armaduras. Em uma determinada cena, ele chega a dizer que não dorme há 72 horas! Pois bem, além disso, Tony tinha acabado de passar por um momento de grande ação e adrenalina. É provável que você saiba, mas em momentos assim, o corpo humano recebe uma grande descarga de adrenalina para poder se movimentar mais rápido, ter os sentidos mais aguçados e tudo mais. Depois que esse momento passa, é normal que uma onda de cansaço venha – porque toda essa “ação” custa algum preço no corpo. Some isso à ficar 72 horas sem dormir e você tem o “desmaio” do Tony Stark naquela hora;
  • Happy Hogan estava do lado do homem-bomba e sobreviveu à explosão, quando foi dito que qualquer um à menos de 12m seria evaporado. Responde essa, sabichão: Veja a cena de novo – Happy Hogan (o segurança, caso você não saiba quem é) se esconde atrás de um “quiosque” na cena. Aliás, veja a cena de novo com atenção e você vai notar que ele estava bem longe do homem-bomba. Em termos de perspectiva, a cena é montada mais ou menos assim: Happy Hogan – Quiosque – Savin – vários metros pelos quais Hogan foi arremessado – Homem-Bomba;
  • Caraca, olha esse furo: as armaduras usam o reator no peito dele pra se mover, mas no meio do filme fica sem energia! Como assim? – É mesmo, sabichão? E como o Máquina de Combate usa a armadura dele então? Nem toda armadura precisa da energia do reator. Elas precisam de energia – de qualquer fonte (tanto é que o Stark recarrega a Mark 42 com energia elétrica). Em todo caso, interessante você citar o reator aqui. Por que a Mark 42 fica sem energia? Bem, você tem um celular, eu imagino. Ele também fica sem bateria, daí você precisa ir recarregá-lo, certo? A Mark 42 usa a energia do reator, só que ela não pode usar toda a energia de lá, porque o reator precisa funcionar pra manter o Tony vivo, esqueceu? Logo, a energia acaba se não for recarregada;
  • O Killian só virou vilão porque o Tony deixou ele esperando no telhado! Que horrível, ele só fez isso pra se vingar!: NÃO, NÃO E NÃO. Desculpa, eu nem vou ser razoável nessa. O Killian NÃO FEZ NADA pra se vingar do Tony Stark. Aquele foi um momento de virada na história do personagem. Até ali, a gente não conhece muito dele – ele parece ser um nerdão com grandes sonhos (embora já esteja de olho na tecnologia que a Maya estava desenvolvendo). Ser deixado ali é uma decepção para o cara, óbvio, e essa experiência só faz com que ele decida mudar sua abordagem. Ele matou milhares de pessoas e fez tudo aquilo para realizar o objetivo que ele tinha desde o início – financiar e aperfeiçoar a tecnologia Extremis. Não esqueçam que, para as pessoas “normais”, o Mandarim sempre foi o Ben Kingsley e o Killian era só um executivo/cientista. O plano do cara era: criar um inimigo que ameace a América, eliminar o Presidente e colocar o Vice-Presidente no poder e conseguir o financiamento para finalizar e utilizar a Extremis para fazer seu nome. Se no meio do caminho ele conseguisse causar danos ao Tony Stark, é bônus. No começo do filme ele até procura a Stark Industries para o financiamento da tecnologia (provavelmente numa maneira teatral de vingança, mas fica ali – o plano dele de verdade é com o Mandarim). O Tony Stark e a Pepper Potts só foram envolvidos na história porque a Maya foi até a casa deles e porque o Happy foi ferido na explosão;
Mandarim quadrinhos

o Mandarim nos quadrinhos – tão terrorista quanto eu ou você

Agora, vamos falar dos aspectos mais polêmicos do filme. Começaremos logo pelo casca-grossa: o Mandarim. Nas HQs, o Mandarim é o único vilão do Homem de Ferro que consegue ser razoavelmente conhecido. Você pode até ter o hábito de ler quadrinhos, mas se eu perguntar quem é o Monge de Ferro, você vai precisar ir no Wikipédia pra responder. E olha que ele foi o vilão do primeiro filme! Mas não se preocupe, eu também não sei quem é o Monge de Ferro.

Porém, vamos ser sinceros: o Mandarim não é um bom vilão. O cara foi criado na década de 60 junto com vários outros vilões da Marvel e obedece uma certa linha de pensamento da época. Portanto, o Mandarim é a personificação dos esteriótipos chineses. Mestre em artes marciais, o cara usa 10 anéis que conferem poderes especiais e ele pode se teletransportar por aí. Sério que vocês queriam esse cara nos cinemas?

Você, querido leitor, tem absolutamente TODO O DIREITO de não gostar da mudança do personagem nos cinemas. Porém, por motivos de coerência, não dá pra dizer “Ah, o Mandarim é foda nos quadrinhos e aquele não é o personagem das HQs”. Primeiro porque não, ele não é foda; e segundo porque MESMO SEM O PLOT TWIST, aquele NÃO ERA o Mandarim dos quadrinhos. Quando o Mandarim foi um terrorista árabe? Nunca! Ele é um chinês (na verdade, um alienígena de uma raça que se parece com dragões e que causou a origem das lendas na China – olha aí que personagem foda vocês queriam) que usa 10 anéis mágicos para atacar o Homem de Ferro. Novamente, você tem todo o direito de não gostar do reviravolta, mas não porque “mudaram o personagem das HQs” com ela – o personagem das HQs NUNCA apareceu no filme.

Pessoalmente, eu gostei muito do conceito do Mandarim. Eu já sabia que ele era um ator (não dá pra fugir de spoilers), mas se não soubesse, teria sido muito surpreendido positivamente. Usar o Mandarim como um símbolo, como uma marionete para mexer com o povo americano é de uma ironia com a verdadeira origem do personagem que beira a fodacidade. Veja bem, o próprio Homem de Ferro foi criado para ser uma piada do Stan Lee (na década de 60, os grandes “vilões do mundo real” eram os fabricantes de armas, que eram peças importantes em guerras como a do Vietnam – Lee resolveu pegar um desses e transformá-lo num herói pra trollar o público). O Mandarim segue essa mesma linha, ele é um conjunto de esteriótipos asiáticos que beira a xenofobia. Pegar esse fato e usá-lo de uma maneira como que diz “Olha só, um monte de esteriótipos preconceituosos – opa, estava enganando você desde o início” é uma trollagem ótima do roteirista e do diretor do filme. É usar a ironia do nascimento do Homem de Ferro, da concepção do Mandarim e dos preconceitos da sociedade pra mostar como as coisas funcionam. Afinal, pra ser um terrorista basta ser barbudo e usar umas roupas estranhas, né?

CAGED_007F_ENG-GB_70x100.inddAgora, o Killian e a tecnologia Extremis. Eles acabaram mostrando uma incoerência brutal de quem falou mal do filme. Todo mundo meteu o pau no longa porque “o Mandarim não é o das HQs”, mas todo mundo também reclamou da tecnologia Extremis. “Nossa, o cara cuspiu fogo, que idiota” – amigo, lê o arco Extremis e depois a gente conversa. A tecnologia é aquilo ali mesmo – transforma a pessoa num Tocha Humana sem vidro elétrico.

O Killian em si foi uma mudança bem grande – já que ele só aparece em duas páginas do arco. Porém, vendo ali como eles resolveram utilizar o Mandarim, achei uma mudança bem justificável. Levando em consideração que o filme fala bastante sobre “se perder em quem se é”, eu digo que o Killian foi até necessário. Enquanto Tony se perdeu após Os Vingadores no trabalho de maneira excessiva, Killian é a contra-parte, que se perdeu na busca pela Extremis. Aliás, o Killian é uma contra-parte também do garotinho que fica amigo do Tony Stark.

Muita gente reclamou da presença do jovem Harley no longa. Eu até que gostei justamente por ele ser o “lado inocente” da ciência. Killian é o lado “mal”, o lado que manipula e não se preocupa com “implicações morais e sociais” da tecnologia. Harley é o lado inocente, que faz pra ajudar. Lembram quando Tony diz que a armadura era um casulo? Pois é, antes ele era Killian e depois ele se tornou Harley.

Agora, o final. Tony tirou os estilhaços, o reator e deixou de ser um herói? Não! De onde vocês tiraram isso??? Foi só pra mim que ficou bem óbvio que ele finalizou a tecnologia Extremis e usou isso pra tirar os estilhaços do peito? Quer dizer, eu não precisei “perceber” nada, ele diz literalmente que finalizou a tecnologia, curou a Pepper e ele mesmo. Isso significa que nunca mais usará uma armadura? Claro que não! O Máquina de Combate tem reator? Francamente…

Outras questões que valem a pena mencionar:

Por que ele explodiu as armaduras no final? – porque elas eram fruto do medo, da paranóia e da obsessão dele. Elas estavam afastado Tony da Pepper. Aliás, ele construiu aquele monte de armadura para criar uma falsa sensação de segurança (lembram dos ataques de pânico cada vez que ficava sem armadura?). Na cena final, ele viu que não precisa de milhões de armaduras, só precisa dele mesmo, então explodiu todas;

Nas HQs, o Patriota de Ferro é o Norman Osborn. Que bosta ser o Máquina de Combate – que bosta nada, vacilão. Nas HQs ORIGINALMENTE foi o Norman Osborn. Porém, no Universo Ultimate, é o Tony Stark. O Patriota de Ferro é, primeiramente, um “símbolo”. O Norman Osborn usava o nome para liderar o Universo Marvel depois do ataque dos Skrull e para ser mais bem aceito (um vilão usando o Patriota de Ferro como medida de marketing? Em qual filme eu vi isso? Ah, no Homem de Ferro 3). Já o Tony Stark, se torna o Patriota de Ferro no Universo Ultimate justamente para ajudar a reconstruir o país depois de uma Guerra Civil violenta. De novo, um símbolo para o povo americano. Realmente é preciso desenhar? O Mandarim é um “símbolo de vilão”, enquanto o Patriota é um “símbolo de herói” – ambos criados pelo verdadeiro vilão do filme

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No geral, é isso. Eu gostei de Homem de Ferro 3. Tem defeitos sim: algumas piadas estavam fora de hora, não gostei muito de algumas cenas de ação e achei que colocarem o Tony Stark como herói de ação ficou forçado – o herói é o Homem de Ferro, mas beleza. Homem de Ferro 3 é bem agradável e divertido, mas a sua principal característica é ser mal-compreendido. Demais até.

Novamente, digo que você tem todo o direito de não gostar do filme – assim como eu tenho de gostar e escrever esse texto explicando o porquê. Porém, proponho um desafio: vá ao cinema (ou alugue o filme depois) e reveja novamente, de cabeça aberta e sem nenhum amiguinho do lado botando defeito. Veja se ele é realmente tão ruim ou se a Internet estava de cabeça quente no hype do lançamento e acabou marcando o filme como “Ruim” – e todo mundo foi na onda.


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