Filmes que deveriam ter ganho o Oscar

Leandro de Barros

  terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Filmes que deveriam ter ganho o Oscar

Este artigo foi originalmente publicado na SuperMag #6.

Teoricamente, qual o objetivo do Oscar? Premiar os melhores filmes lançados em um certo ano. Porém, contudo e todavia, nós já vimos nessa mesma edição que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas possui um certo estilo peculiar de filmes que gosta mais. Essa preferência por certos longas acaba gerando algumas (muitas) injustiças na história do cinema mundial.

Por isso, você nobre leitor que devora essa SuperMag com avidez, nós vamos montar uma pequena lista agora com os Filmes Que Deveriam Ter Ganho o Oscar, mas que não ganharam. Uma regra importante é que tentarei citar um filme só por diretor, para não ficar algo muito pesado num estilo ou num cara só.

Não custa lembrar que só falaremos de filmes e não de directores/atores. Se eu fosse fazer uma lista com artistas injustiçados, eu teria de me abster à Orson Welles, Akira Kurosawa, Alfred Hitchcock, Charlie Chaplin e Stanley Kubrick. Quer dizer, eu adoro o Tarantino e o David Fincher, mas não dá pra chamar nenhum deles de “injustiçado” quando a gente lembra que o Kubrick nunca levou uma estatueta pra casa.

Enfim, já demos um jeito de colocar uns mamilos na introdução, ‘bora pra polêmica!

Luzes da Cidade (1931)

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[h3box]O Oscar de 1932[/h3box]

Grand Hotel

O Oscar de Melhor Filme em 1932 foi Grand Hotel de Edmund Goulding, único prêmio do longa durante a cerimônia. O filme é estrelado por Greta Garbo, John Barrymore e Joan Crawford.

Luzes da Cidade, escrito, dirigido e estrelado por Charles Chaplin não foi indicado em nenhuma categoria daquele ano.

Por que merecia?

Antes de tudo, eu preciso dizer que sou um grande fã dos filmes de Charles Chaplin. Já vi muitos e, por um acaso, foi um deles (Tempos Modernos) que me fez ver que o cinema era mais do que pura diversão descompromissada. Como Chaplin foi um grande esnobado pela Academia e nunca ganhou um Oscar de Diretor ou de Melhor Filme, eu podia escolher qualquer um pra citar. Escolho Luzes da Cidade por considerar o melhor e mais bonito, apesar de não ser necessariamente o que eu mais gosto. Uma das coisas mais primorosas em Luzes da Cidade é o cuidado com que cada cena do filme foi pensada e gravada. Se eu tenho a permissão dos leitores para descambar esse texto para o romantismo descontrolado, eu arrisco dizer que as cenas de Luzes da Cidade são como quadros cuidadosamente pintados por Chaplin, todos contando uma bela e sensível história.

Por que não ganhou?

Um pouco acima, eu disse que Charles Chaplin foi um grande “esnobado” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Não é bem assim. Na verdade, eu imagino que a indiferença da Academia tenha sido causada pelo próprio Chaplin. Em 1929, no começo da sua carreira, Chaplin ganhou um Oscar especial “pela sua versatilidade e genialidade” em O Circo. Porém, o diretor não gostava nada da Academia e praticamente ignorou o prêmio, chegando ao ponto do seu filho dizer que ele usava o careca dourado como encosto da porta de casa. Obviamente que, depois disso, a Academia passou a ignorar Chaplin sempre que possível, embora ele ainda tenha ganho um Oscar de Melhor Trilha Sonora e algumas indicações aqui e ali. Assim, Luzes da Cidade nem foi lembrado pela Academia em 1932, quando Grande Hotel levou o prêmio de Melhor Filme.

 

Cidadão Kane (1941)

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[h3box]O Oscar de 1942[/h3box]

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O Oscar de Melhor Filme em 1932 foi para Como Era Verde o Meu Vale de John Ford, o longa ainda saiu com os prêmios de Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte num total de 10 nomeações.

Cidadão Kane dirigido por Orson Welles foi indicado à 9 prêmios mas levou apenas o Melhor Roteiro Original.

Por que merecia?

Faça um exercício rápido na sua vida. Vá até 10 historiadores cinéfilos e pergunte qual o melhor filme da história do cinema e qual o filme mais influente da história do cinema. 6 deles responderão Cidadão Kane para a primeira pergunta e todos responderão Cidadão Kane para a segunda. No filme, o novato prodígio Orson Welles interpreta (além de escrever e dirigir o longa) um homem chamado Kane, um homem que nasceu pobre e se tornou muito rico e famoso. Cidadão Kane é uma das mais importantes obras do cinema mundial pela sua qualidade e pelas suas inovações, seja em técnicas narrativas (o protagonista começa morto e alguns eventos são mostrados fora da ordem cronológica), seja na temática da sua história, mostrando “mecanismos do mundo” no começo dos anos 40.

Por que não ganhou?

Apesar de ter sido nomeado à várias categorias no Oscar de 1942, incluindo aí Melhor Filme, Cidadão Kane só levou uma estatueta para casa: Melhor Roteiro. O filme foi vencido pelo drama Como Era Verde o Meu Vale, do queridinho da Academia John Ford.

Por mais que eu respeite a filmografia de Ford, não dá pra entender onde, quando e o porquê da Academia considerar Como Era Verde o Meu Vale melhor do que Cidadão Kane – e olha que isso não é reflexo de quem não sabe respeitar a opinião alheia. A explicação mais citada pelas teóricos de tempo livre envolve uma pressão feita pelo magnata da mídia William Randolph Hearst, que possuía 28 jornais e 16 revistas na época. Cidadão Kane era supostamente baseado na vida de Hearst, que odiava o filme.

 

Laranja Mecânica (1971)

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[h3box]O Oscar de 1972[/h3box]

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O Oscar de Melhor Filme em 1972 foi para Operação França de Philip D’Antoni que levou ainda mais quatro carecas de ouro para casa: Melhor Ator, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

Laranja Mecânica de Stanley Kubrick foi indicado à quatro prêmios: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição, todas vencidas por Operação França.

Por que merecia?

Stanley Kubrick é um dos grandes nomes do cinema e Laranja Mecânica é uma das suas obras-primas. “Uma das”, já que ele dirigiu alguns dos filmes mais conceituados da Sétima Arte. Nesse clássico distópico, comparado em grandeza à obras como 1984 e Admirável Mundo Novo, Kubrick se baseia no romance de Anthony Burgess para crítica a hipocrisia da sociedade quando o assunto é violência. Um tapa de mão cheia nos seus espectadores, o longa é um daqueles que leva um bom tempo (e algumas várias repetições) para se entender satisfatoriamente.

Por que não ganhou?

Em 1972, Laranja Mecânica chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, mas o pé-frio de Kubrick atuou novamente e o longa foi vencido por Operação França, de William Friedkin. É importante citar que Operação França não é um filme ruim (longe disso) e também não ganhou por ser “o típico filme de Oscar”, já que se trata de um policial. Assim, só resta imaginar o que se passou pela cabeça dos votantes da Academia quando escolheram. Talvez tenham preferido a segurança de Operação França, talvez Laranja Mecânica seja um daqueles filmes que envelhecem muito bem ou talvez tenha sido mal compreendido pelos votantes.

 

Taxi Driver (1976)

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[h3box]O Oscar de 1977[/h3box]

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O Oscar de Melhor Filme em 1977 foi para Rocky – Um Lutador de John G. Avildsen que levou ainda mais dois prêmios na cerimônia: Melhor Diretor, Melhor Edição num total de 10 indicações.

Taxi Driver de Martin Scorsese foi nomeado à quatro prêmios e não levou nenhum para casa. Rede de Intrigas de Sidney Lumet e Todos os Homens do Presidente de Alan J. Pakula ainda levaram 4 prêmios cada, superando Rocky que venceu apenas 3.

Por que merecia?

Martin Scorsese é um sensacional cineasta. A Academia gosta muito dele, ele já foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor 6 vezes até o momento. Porém, até a sua vitória em 2007 com Os Infiltrados, Scorsese sempre foi considerado um “injustiçado” pela Academia, muito principalmente por causa desse filme aqui. Taxi Driver é, na falta de palavras melhores, uma violenta reflexão sobre a solidão – interna e externa – e seu efeito na pessoa e na sociedade. O longa é muito referenciado pela crítica pela sua importância em Hollywood: Taxi Driver abriu as portas à algumas características europeias no cinema americano, além de ser um dos primeiros grandes filmes americanos da época a contar com a improvisação dos atores em alguns diálogos e frases. Some isso à uma direção incrível, um ótimo roteiro e uma performance avassaladora de Robert DeNiro e a dúvida fica: por que Táxi Driver não ganhou o Oscar?

Por que não ganhou?

Bem, tinha um Rocky no meio do caminho. No ano em que Táxi Driver concorreu ao Oscar, o grande vencedor do prêmio foi Rocky, drama de boxe que alavancou a carreira de Sylvester Stallone nos cinemas. Não me entendam mal, eu adoro Rocky (acho que é uma das franquias cinematográficas mais impactantes no meu crescimento como pessoa), mas filme por filme, Táxi Driver é muito superior. A razão que eu vejo para a vitória de Rocky é o asco que a Academia tem de filmes “diferentes”. Como já citado acima, Táxi Driver possui muitos recursos que, na época, não eram comuns, algumas até podemos chamar de inovações. Já Rocky é o clássico drama-com-personagem-carismático. Pra completar, enquanto Táxi Driver tem aquele final que te deixa pensativo por dias, o final de Rocky é visto e digerido na hora (coisa que a Academia costuma preferir também). Por fim, não posso deixar de citar um fator importantíssimo para a perda de Táxi driver no Oscar: seu título no Brasil. Certeza que Táxi Driver – Motorista de Táxi colaborou para fazer com que o filme perdesse alguns pontos – apesar que Rocky: Um Lutador também não é o título dos sonhos.

 

Pulp Fiction (1994)

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[h3box]O Oscar de 1995[/h3box]

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Em 1995 a Acadêmia premiou Forrest Gump como o Melhor Filme, estrelado por Tom Hanks, que também foi premiado como Melhor Ator, e dirigido por Robert Zemeckis, vencedor como Melhor Diretor. O longa ainda saiu com as estatuetas de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Efeitos Especiais. O longa teve 13 indicações ao todo.

Pulp Fiction escrito e dirigido por Quentin Tarantino foi nomeado à sete prêmios e levou apenas o Melhor Roteiro Original. Um Sonho de Liberdade, dirigido por Frank Darabont saiu de mãos vazias depois de ter 7 nomeações.

Por que merecia?

Em 1992, Quentin Tarantino lançou nos cinemas Cães de Aluguel, o filme que marcou a estreia da sua carreira como diretor de cinema. Nele (que também merecia o Oscar), nós vemos um Tarantino experimentando o sapato pela primeira vez, vendo até onde pode ir e o que fazer. Dois anos depois, o sósia do Samuel Rosa volta aos cinemas com Pulp Fiction, o que eu já considero sua versão polida de Cães de Aluguel.

Por que não ganhou?

Porque existiu um filme chamado Forrest Gump. Eu gosto muito de Forrest Gump, mas prefiro Pulp Fiction. Honestamente, não sei nem se o filme de Tarantino é melhor do que o Robert Zemeckis. Acho que são muito equivalentes, mas com estilos bem distintos. Tentarei explicar visualmente: Pulp Fiction é aquela garota que todos nós tivemos na nossa sala: descolada, linda e provocante. Já Forrest Gump é aquela outra garota (que nós também tivemos na nossa sala): a certinha, linda e perfeita. Faz sentido que a Academia ficasse com a garota dos olhos, enquanto Pulp Fiction ficasse pra escanteio. Se ao menos Tarantino tivesse demorado um ano a mais pra terminar o filme…

 

Clube da Luta (1999)

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[h3box]O Oscar de 2000[/h3box]

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O Melhor Filme de 2000 foi Beleza Americana, estrelado por Kevin Spacey vencedor na categoria Melhor Ator. O diretor do longa, Sam Mendes, também venceu como Melhor Diretor e Beleza Americana levou ainda Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia e Melhor Atriz Coadjuvante. Foram 8 nomeações ao todo.

Clube da Luta de David Fincher foi indicado apenas à Edição de Som.

Por que merecia?

Estranhamente, começo a notar um padrão aqui. Clube da Luta é o quarto filme dessa lista que mexe diretamente com o espectador e crítica (ou dá tapas) na plateia. O livro em que o filme foi baseado, escrito por Chuck Palahniuk, é descrito como “definidor de uma geração” e está cuidadosamente colocado na minha cabeceira nesse momento. O filme de David Fincher segue essa linha também. O filme dança perigosamente criticado o indivíduo e suas loucuras na pele de um protagonista, e a sociedade e as suas doenças, na pele de outro, apenas para concluir no final que ambos são a mesma pessoa.

Por que não ganhou?

Em 2000, a Academia passava por momentos difíceis. Eles tinham acabado de cometer uma série de crimes hediondos no Oscar 1999, quando elegeram Shakespeare Apaixonado o Melhor Filme e Gwyneth Paltrow a Melhor Atriz. Assim, eu imagino que a Academia resolveu se endireitar no ano seguinte e escolheu Beleza Americana, um filme que é, ao mesmo tempo, um drama seguro como a Academia gosta e também é ligeiramente polêmico e desafiador ao seu público. Ou seja: quiseram ser conservadores e ousados ao mesmo tempo e não tiveram oportunidade de olhar para Clube da Luta, que nem indicado foi. A competição também estava forte com O Sexto Sentido e À Espera de um Milagre.

 

Memento (2000)

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[h3box]O Oscar de 2001[/h3box]

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Gladiador de Ridley Scott acabou levando Melhor Filme, Melhor Ator com Russell Crowe, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Memento teve apenas duas indicações, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição, não venceu nenhuma delas.

Por que merecia?

Antes de mudar a maneira como os filmes de super-heróis (e os blockbusters em geral) são feitos e vistos, Christopher Nolan começou a sua carreira com o pequeno Memento, baseado numa curta história escrita pelo seu irmão Jonathan Nolan. Estrelado por Guy Pearce (ótimo no papel), Memento é a versão cinematográfica de uma confusão mental. É inteligente, original, criativo, desafiador… tem a marca que Christopher Nolan costuma colocar nos seus filmes, quando ele ainda não era menosprezado por ser adorado por seus fãs, e não possui os problemas de continuidade que seus blockbusters possuem, o que tira o peso de não ser um filme perfeito tecnicamente (Batman – O Cavaleiro das Trevas, estamos olhando pra você).

Por que não ganhou?

Em 2001, a Academia decidiu dar o Oscar de Melhor Filme para Gladiador, de Ridley Scott – que é um bom filme, deixemos claro. Porém, foi um ano em que a Academia estava meio confusa, já que deu o Oscar de Melhor Diretor para Steven Soderbergh, por Traffic, e não sabia direito direito o que estava fazendo. A verdade é que Memento tinha uma concorrência muito forte nesse ano e teve de lutar contra filmes com força comercial e de bastidores muito maior (Gladiador), contra um inspirado Soderbergh (Traffic e Erin Bronkovich), contra um dos melhores filmes asiáticos dos últimos 20 anos (O Tigre e o Dragão) e contra a loucura da Academia, que indicou Chocolate ao prêmio de Melhor Filme.

 

Cidade de Deus (2002)

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[h3box]O Oscar de 2003[/h3box]

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Chicago de Rob Marshall acabou levando 6 estatuetas para casa incluindo Melhor Filme. O longa foi premiado em Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Ao todo foram 13 nomeações.

Cidade de Deus de Fernando Meirelles foi indicado à Melhor Diretor, Roteiro Adaptado, Fotografia e Edição. Não levou nenhum prêmio.

Por que merecia?

Eu acho Central do Brasil um filme que foi muito injustiçado no Oscar, mas também acredito que Cidade de Deus tenha sido o filme brasileiro que mais sofreu nas mãos da Academia. Honestamente, eu comparo o choque de se ver Cidade de Deus com o choque de se ver Tropa de Elite. Ambos são filmes que mostram o que realmente acontece no Rio de Janeiro, nos lugares mais perigosos da cidade. Aliás, eu considero Tropa de Elite uma sequência “espiritual” de Cidade de Deus. Se foi um “Hey, isso aqui é o que acontece na favela e veja só como tudo surgiu e de quem é a culpa”, o segundo é algo como “Lembra do Cidade de Deus? Sabe por que as coisas estão iguais? É isso aqui, olha”. Dois filmaços.

Por que não ganhou?

Sabe-se lá Odin. Por que era brasileiro? Nunca houve um melhor momento pra um filme brasileiro no Oscar. O Pianista é muito bom, mas Cidade de Deus é melhor. O Senhor dos Anéis: As Duas Torres é legal também, mas Cidade de Deus é melhor. As Horas é interessante, mas não é um Cidade de Deus. Chicago, idem. O único que, na minha concepção, oferecia mais riscos era Gangues de Nova York. Ainda assim, ele não levou e Cidade de Deus nem foi indicado. Vai entender…


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