Django Livre – Crítica

Pedro Luiz

  sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Django Livre – Crítica

Tarantino recorta elementos do western spaghetti, adiciona muitas piadas, black music e faz quase três horas de uma das melhores comédias do ano.

Quentin Tarantino é um nerd clássico. Aprendeu a fazer cinema por conta dos inúmeros filmes que assistiu, e isso está absolutamente claro a todos que assistem a qualquer uma de suas obras. Ao todo são sete filmes, e em todos eles vemos recortes, adaptações e, por que não, melhoramentos de filmes consagrados. Há quem diga que Cães de Aluguel, filme que lançou sua carreira como cineasta, é uma cópia descarada de City on Fire, filme chinês oitentista. Porém, creio que todos aqueles que acompanham sua filmografia e a defendem, tem isso em mente sob a ótica de que Tarantino é um ser muito peculiar, e seus gostos pessoais fazem seus filmes pularem do conceito de ‘’plágio’’ para o conceito de ‘’homenagem’’.  O fato é que Tarantino faz filmes extremamente divertidos, adicionando suas visões insanas e sobrepondo a ideia que, na maioria das vezes (Pulp Fiction não conta), já existe.  Um filme necessita de alma, personalidade. E Tarantino sabe, como poucos, alcançar esse nível de particularidade.

Como bom nerd, faltava a Tarantino um filme western de verdade. Fã de Sergio Leone e do western spaghetti, o anúncio de que viria um filme com essa temática não tardaria a aparecer. Já passamos pelas artes marciais, pelas quadrilhas de roubo a banco e até por nazistas… Era chegada a hora da famosa ‘’câmera árida’’. E por incrível que pareça, Tarantino consegue fazer de Django Livre (Django Unchained, 2012) o filme menos western de sua filmografia, transformando-o, porém, na comédia que faltava em seu currículo.

1138856 - Django Unchained

O roteiro (do próprio Tarantino) nos apresenta a Django (Jamie Foxx), um escravo que fora libertado pelo Dr. Schultz (Christoph Waltz) para que, juntos, pudessem procurar e matar alguns bandidos. Schultz logo descobre que Django tem um talento nato para atirar, e lhe oferece mais algumas buscas, prometendo-lhe uma parte das recompensas. Django pega gosto pela coisa e decide libertar sua esposa Broonhilda (Kerry Washington), que está servindo ao escravocrata lunático Calvin Candle (Leonardo DiCaprio). Para isso, Django e Schultz armam um plano e partem com a missão de libertá-la.

É claro que uma mente insana como a de Tarantino não deixaria de retratar o velho oeste americano da forma mais crua e violenta possível. O sangue faz parte da história americana, assim como também faz parte da filmografia de Tarantino, logo, juntamos aqui a fome com a vontade de comer. A violência chega a ser extremamente ridícula em certos pontos, deixando a seriedade de lado e assumindo-se absurda, e são nesses pontos que o filme mostra sua verdadeira identidade. Normalmente, um tiro a queima roupa não poderia (em mentes sãs) significar algo engraçado. Tarantino, porém, justifica as balas sob a ótica do propósito maior que é a libertação da esposa de Django, e no meio disso ainda estão as escorregadias explicações de Schultz para as mortes causadas.  Quando alguém morre de forma aparentemente injustificável, lá está o dentista caçador de recompensas com uma ordem judicial na mão.

Django Livre

Como já é de costume, as atuações aparecem como componente chave para o ritmo do filme, que tem quase 3 horas de duração. Christoph Waltz está absolutamente fantástico como dentista caçador de recompensas e proporciona a maioria das risadas que Django Livre dispõe. Sua charrete com um molar gigante no teto já demonstra o pouco tom de seriedade que seu personagem carrega. Leonardo DiCaprio faz um dono de escravos extremamente cruel quando cria, lá nos primórdios da civilização americana, o MMA. Em determinados momentos, chega a assustar. O destaque vai para Samuel L. Jackson, que faz um velho escravo que chefia todos os outros escravos da mansão de Calvin Candle. Stephen (Jackson) é a representação dos poucos momentos de seriedade que o filme possui. Ele é um escravo, negro, que se assusta ao ver um negro, semelhante a ele, montado em um cavalo. Um escravo chefiando escravos. Quando Stephen surge no filme, a mensagem que fica é justamente o que representa a loucura do velho oeste. Os interesses de cada indivíduo fazem com que, muitas vezes, seus próprios princípios sejam deturpados.

A trilha sonora não respeita a cronologia do filme. Como parte importantíssima em sua filmografia, Tarantino homenageou a cultura negra com inúmeras canções, passando da música de abertura ‘’Django’’ até o Hip Hop atual, que compõe uma das melhores cenas de ação do filme.

Com a participação do próprio Tarantino, uma sequência impagável envolvendo gorros da Ku Klux Klan e atuações impecáveis, Django Livre se mostra descompromissado ao fazer o espectador gargalhar durante boa parte do filme, e tem em um de seus personagens a crítica central a sociedade atual.

O western menos western da carreira de Tarantino.


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