Desconstruindo o Batman do Nolan

  Leandro de Barros  |    quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Supernovo tenta entender o Batman criado por Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David Goyer nos cinemas

Então você gosta do Batman do Nolan? Você acha que é a melhor representação do herói nos cinemas? Mas por quê? O que o Batman do Nolan representa? Como ele é construído? Quais são as suas motivações e qual a mensagem que Nolan quer passar com ele?

Em primeiro lugar, quero deixar claro que eu não sou a voz da verdade e da razão do mundo. Não por falta de tentativas, claro. Já tentei ser o Guardião Universal do Bom Senso, mas não aceitaram a minha candidatura. Infelizmente.

Portanto, minha palavra não é a lei do mundo (por enquanto). Sendo assim, essa é a MINHA visão do Batman do Nolan (logo, a correta). A sua visão pode ser totalmente diferente (logo, errada). Se for esse o caso, fica o convite para que você exponha a maneira como você vê o Batman nos comentários.

Batman Begins – O começo da lenda, seu suporte e motivação

Saída do julgamento do assassinato dos pais de Bruce Wayne. Joe Chill, o criminoso que ficou famoso por ceifar a vida de Thomas e Martha Wayne, caminha cercado de jornalistas de todos os lados. O herdeiro Wayne, confuso e cheio de raiva, saca uma arma para matá-lo. Antes que possa atirar, uma mulher que trabalhava para o mafioso Falcone mata Joe Chill, por ter dado informações à polícia.

Essa cena acontece em Batman Begins e é uma das cenas chaves da franquia. Sem ela, não teria Batman. Se Bruce Wayne puxa o gatilho, adeus Homem-Morcego. Se ninguém puxa o gatilho, adeus Cavaleiro das Trevas.

Bruce PRECISAVA ver que Chill era só mais uma peça dentro do crime organizado de Gotham. Sua raiva, que era direcionada para o criminoso, o cegava de ver que matar Chill (ou vê-lo ser preso) era tratar um sintoma e não uma doença. E é nesse momento, que Bruce Wayne passa a ser o homem que poderia vestir o manto do Batman.

O Batman já passou por várias reinterpretações durante a sua existência. A sua versão “atual”, a sua leitura contemporânea, dita que o Batman é o Cavaleiro das Trevas e não o Cavaleiro da Vingança. Essa frase é bem interessante porque é ela que acaba ditando a motivação do Batman.

O Homem-Morcego é um produto da Gotham em que vive, não um produto do assassinato dos pais. É verdade que o assassinato dos pais do Bruce marcaram o Bruce, mas não são tão determinantes assim para a criação do Batman. O assassinato serviu de combustível para o Bruce criar o Batman, mas não é o que move o herói. Ele quer limpar Gotham, não se vingar dos criminosos. Essa diferença de postura, que muitos autores não parecem ver (sim, Frank Miller, essa é pra você), que Nolan trouxe para o cinema. Leitura que nunca apareceu antes.

À partir de definir esse motor para a criação do Batman, Nolan passa a nos mostrar todo o processo que levou a formação do herói. Bruce viaja pelo mundo, aprende como funciona a mente dos criminosos, treina com Ra’s Al Ghul e volta para Gotham composto e pronto para começar a agir.

Bruce volta à Gotham como um filho volta à casa e é lá que nasce o Batman. O Batman é fruto do crime de Gotham e fruto do desejo de Bruce de seguir os passos do pai e fazer algo pela cidade. Thomas deu a vida tentando fazer algo de bom para Gotham e o Batman é a realização desse desejo do Bruce, de também fazer algo pela cidade.

Batman é a face de Gotham, mas a cidade é uma moeda de duas caras

Então nós percebemos em Batman Begins que o Batman é um dos produtos de Gotham. Assim como a cidade acabou produzindo a doença, ela também produziu a cura, tipo o Stallone Cobra. Mas Gotham é uma cidade de duas caras e chega O Cavaleiro das Trevas para nos mostrar isso.

Batman é a ordem. Coringa é o caos.

Se eu tivesse de definir O Cavaleiro das Trevas em uma palavra, seria  “dualidade” a palavra que eu escolheria. O filme todo passa pelo conceito opostos binários, ordem e caos, herói – vilão. De um lado o Batman, do outro o Coringa. No meio? Gotham. E Harvey Dent.

O promotor que tinha tudo para ser o herói e que se tornou o vilão. O retrato de Gotham expresso numa pessoa. A cidade que tinha tudo para dar certo, mas sucumbiu ao caos.

O Batman e o Coringa batalham pela alma da cidade (e pela alma de Gotham) desde o começo do filme. Como o caos é mais chamativo que a ordem e como ele ataca primeiro, o longa mostra como as ações do Coringa (o produto “mal” de Gotham, a encarnação do caos da cidade) interferem no espírito da cidade (em Harvey).

E finalmente, depois de um longo plano, o Coringa conseque quebrar o espírito de Harvey e o caos parece que vai prevalecer em Gotham. Porém, no final, o povo de Gotham ainda tem forças demais pra aceitar o caos do Palhaço do Crime e a Ordem vence.

Batman, então, vai para a sua última jornada atrás da alma de Gotham, já tão danificada pelo caos. A cena final de Harvey Dent no filme é muito simbólica: caido no chão, quebrado, massacrado pelas ações do Coringa. O Batman foi o herói que Gotham precisou e deu à cidade o herói que ela mereceu.

A Gotham de Christopher Nolan termina O Cavaleiro das Trevas quebrada e massacrada, mas com a esperança de que ela vai ressurgir.

E ela vai. Em breve.


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