Contra o Tempo – Crítica

  Leandro de Barros  |    sexta-feira, 30 de setembro de 2011

É o mesmo trem, só que diferente. Contra o Tempo estréia hoje no Brasil, depois de diversos adiamentos, com Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga e Jeffrey Wright no elenco.

Uma enorme confusão e diversos adiamentos fez com que Contra o Tempo (Source Code no original) só estreiasse no Brasil hoje, dia 30 de setembro, 6 meses depois da estréia nos EUA e 5 meses depois da estréia em grande parte do mundo.

Vamos lá descobrir se o filme vale a pena de ser visto nos cinemas, mas atenção: pode ser que a crítica contenha spoilers. Não vou contar o final do filme ou coisas assim, mas não dá pra falar sobre o filme sem…. falar sobre o filme, certo? Prossiga com cuidado.

Em Contra o Tempo, Jake Gyllenhaal vive o Capitão Colter Stevens que é colocado em uma máquina capaz de acessar as memórias de um homem que foi morto numa explosão em um ataque terrorista dentro de um trem por 8 minutos. A função do Capitão Stevens é vasculhar as memórias desse homem (Professor Sean Fentress) e descobrir quem foi o responsável por explodir a bomba dentro do trem e, assim, tentar evitar novos ataques na cidade de Chicago.

Bom, pra começar, existe uma questão que é importante para ser colocada. Eu falei sobre isso na review do primeiro episódio de Person of Interest mais detalhadamente, mas vou resumir aqui: existem obras que se utilizam de uma temática sci-fi ou até conceitos de filosofia, física e outros para contar uma história e há obras que se utilizam dessas mesmas ferramentas para propor uma reflexão ao espectador. Se Person of Interest era do primeiro tipo, Contra o Tempo é assumidamente do segundo tipo.

Digo isso pois há uma parte do roteiro que explicitamente diz para você não se preocupar com isso. Ok, a trama trabalha com universos alternativos e tudo o mais, mas esses artifícios não passam de alegorias para o verdadeiro sentido da história. Eu digo isso, até porque o filme não funciona como ficção-científica ou pseudo-ciência ou seja lá qual o termo você prefira usar. É difícil falar sem entregar alguns spoilers, mas vocês vão perceber que tudo que acontece não faz o menor sentido em termos de ciência e, considerando que o roteiro diz, mais de uma vez, pra não se preocupar com isso, só nos resta deduzir que são artifícios para levar ao verdadeiro sentido da história. Mas qual é o verdadeiro sentido da história? A trama começa a nos entregar perguntas (algumas vezes de forma bem óbvia e pouco sutil), como o que nós podemos considerar realidade, questões referentes à morte e como viver a vida.

É exatamente nessa hora, quando o roteiro nos diz pra esquecer a ficção científica, que nós somos colocados no mesmo barco que o Capitão Stevens e vamos juntos em busca dessas respostas. Achar o terrorista, deter o novo ataque, tudo isso vira “irrelevante” (a personagem de Vera Farmiga adora essa palavra) e descobrir a nossa resposta vira o objetivo do filme. Nesse ponto, já não há muito o que dizer. Como o filme ilustra na sua última cena (de forma bem visual e bonita), o universo se desdobra em vários, porque cada um de nós realmente vive num universo próprio, com base em como nossos corpos conseguem entender o mundo à nossa volta. Cada um tem seu mundinho e cada um tem sua resposta.

Para o Capitão Stevens, foi preciso morrer algumas vezes dentro do trem (se você entender uma viagem de trem como uma metáfora pra sua vida, dá pra seguir uma linha de debate bem interessante depois) para que ele conseguisse a sua resposta.

Em termos técnicos, não há muito o que reclamar do filme. Eu gostei bastante do trabalho de direção de Duncan Jones e todo o cuidado em recriar as cenas iguais. Considerando o final do longa, é compreensível o trabalho de Jones em situar o mundo dentro do Código Fonte (a máquina que usam para enviar o Capitão para as memórias do passageiro morto) como um mundo próprio e vivo.

Jake Gyllenhaal faz um trabalho muito bom e maduro como Colter Stevens e é acompanhado com muita competência pelas coadjuvantes Michelle Monaghan, como a passageira Christina, e Vera Farmiga, como a Capitã Goodwin. No time das atuações, quem destoa é Jeffrey Wright no papel do Dr. Rutledge. Pode ser porque o ator não tinha muito com o que trabalhar, mas o personagem está caricaturado e não contribui em nada com o resto da proposta do filme. Ben Ripley também fez um ótimo trabalho com o roteiro do filme, ótimo mesmo.

Para concluir, Contra o Tempo é ousado, criativo e um bom filme para se assistir e depois conversar com os amigos sobre. Se tiver a oportunidade, vá ver no cinema. Vale a pena. Mas lembre-se: “é o mesmo trem, só que diferente”.


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