As Aventuras de Pi – Crítica

Pedro Luiz

  sábado, 22 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi – Crítica

Ang Lee volta a boa forma e dirige um filme tocante do ponto de vista emocional, e extremamente relevante do ponto de vista humano.

Costumamos dizer nas intermináveis discussões sobre cinema que temos no quartel general do Supernovo que, se um filme consegue gerar algum tipo de reflexão após os seus minutos de projeção, este filme cumpriu seu papel enquanto obra artística. A quantidade de filmes ‘’sem alma’’, sem coragem de gerar algum tipo de debate, é tão grande que quando surge uma obra sensível e que não exclui ninguém mesmo abordando temas estritamente religiosos, ficamos impressionados. É justamente isso que o diretor Ang Lee, já oscarizado por O Tigre e o Dragão (lembre-se que ele nos fez acreditar em guerreiros que pulam de árvore em árvore), consegue fazer com o tocante As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012), forte candidato a algumas categorias do Oscar e do Globo de Ouro.

O filme é uma adaptação do livro (que eu não li) escrito por Yann Martel, cujo nome é o mesmo do título original do filme, e narra a história de Piscine Molitor Patel, jovem indiano curiosíssimo. Sua família é dona de vários animais que vivem em um zoológico na Índia, e quando o governo para de dar apoio ao trabalho, eles decidem migrar para o Canadá, onde conseguiriam vender os animais. De navio, a família e as dezenas de animais rumavam em direção ao destino quando uma tempestade fez o navio naufragar, e Pi (apelido dado ao personagem por ele mesmo) acaba em um pequeno bote salva-vidas na companhia de uma zebra, um orangotango, uma hiena (dopada de remédios) e um tigre de bengala chamado Richard Parker. A partir daí, Pi começa a passar por inúmeras provações, e sua fé é colocada em cheque.

Pi em seu ''invento''

Pi é um personagem extremamente curioso. Hindú por criação, quando ainda garoto, Pi experimentou  o catolicismo e o islamismo. Em um determinado momento do filme, um debate entre seu pai, um homem extremamente racional e que parece não crer em explicações divinas para o entendimento do mundo, explicita a ideia de que você não pode acreditar em todas as crenças ao mesmo tempo. Se isso acontecer, é porque você, de fato, não acredita em nenhuma. Se não há entrega total do indivíduo para somente uma ideologia, não faz sentido ter crença alguma. O fato é que Pi, com suas três religiões, é um personagem interessante e complexo pois consegue enxergar um complemento, uma espécie de dependência e harmonia que as religiões precisam para viverem juntas. Só a figura de uma criança, pura e honesta, consegue agradecer um deus hindu por tê-lo apresentado a Jesus Cristo. Ao contrário do que o seu pai acredita, Pi não vê problema em crer nos numerosos deuses indianos, no Deus da igreja católica e no Alá muçulmano. Algo ali lhe complementa, e assim como boa parte da humanidade, a busca pela explicação de tudo vem de uma força maior.

Melhor do que o personagem é a abordagem que Ang Lee aplica a história. Não nos cabe esclarecer o final do filme, mas vale dizer que ao sair do cinema, o espectador terá que fazer uma escolha. Escolha essa que se assemelha a do ouvinte da história, no caso o jornalista que pretende transformar a história de Pi em um livro. Já na vida adulta, Pi conta ao jornalista exatamente como aconteceu sua jornada em busca da sobrevivência, e promete que, ao final de sua história, o jornalista passaria a acreditar em Deus. Assim acontece conosco, ouvintes dessa magnífica história, dotados de uma imensa diversidade de crenças e credos, decidir qual dos dois relatos é o preferido, e qual tomaremos como verdade.

Ang Lee, junto do roteiro de David Magee, é extremamente feliz ao fazer isso. Em um filme onde é quase impossível não haver descrenças sobre a história fabulesca que está sendo contada, e jogar ao espectador a escolha de acreditar ou não, é fantástica. Um exercício proposto pelos idealizadores do filme que consiste, somente, em um exercício de fé.

O visual

Já que citamos o Oscar no início do texto, fica aqui a minha previsão. O Oscar de melhores efeitos especiais PRECISA ser dado a este filme. O tigre Richard Parker é, em 95% do filme, feito em CGI. Os detalhes de sua musculatura, a sombra, a plasticidade e naturalidade de seus movimentos… Tudo é espetacular. Não saberia dizer quando o tigre era feito totalmente em CGI ou se ali havia alguma captura de movimento num fundo verde, tamanha a perfeição da animação. Não há reclamações quanto a isso. As tempestades, os peixes… Tudo é extremamente bem criado e detalhista, nunca deixando transparecer algo inorgânico. Um trabalho, mais uma vez, ESPETACULAR.

A fotografia também merece extremo destaque. Feita pelo chileno Claudio Miranda, responsável pela fotografia de Clube da Luta, os belíssimos quadros abertos retratando a imensidão do Oceano, com a variabilidade de cores usadas a noite, tornam o filme memorável do ponto de vista estético. Em vários momentos onde Pi tem sua fé testada, o filme ganha tons de contos de fadas, e é nesse momento que a fotografia ganha força.

O maior (e único) problema está no infantil uso do 3D. Feito para dobrar o número do ingresso, o 3D é utilizado aqui de forma totalmente desregular. Hora com planos absolutamente memoráveis e simbólicos, lotados de carga emocional, hora malfeitos e desfocados. Por conta da pouca profundidade de campo que um barco pode oferecer, o 3D é anulado em boa parte do filme.

A belíssima fotografia

A edição e a composição da narrativa

As aventuras de Pi sofre o mesmo problema de O Hobbit. Por colocar o personagem principal já velho contando sua aventura, não importa o que ele irá narrar, já saberemos que ele nunca correu algum risco de morte que valha a compra. Isso pode prejudicar muita gente, e o filme fica demonstrando, de forma até cansativa, através de rápidas transições do mar onde Pi estava, para a os cenários calmos onde o já adulto Pi está contando sua história. A narração por vezes se mostra desnecessária, já que o didatismo de ao mesmo tempo mostrar algo, e falar sobre a mesma coisa, pode irritar. A máxima do cinema de ‘’não fale, mostre’’ não é aplicada aqui.

Porém, como foi dito anteriormente, a edição se salva quando consegue imprimir um ritmo extremamente convidativo e empolgante, mesmo tendo em tela um tigre, um hindu magrelo, um bote salva-vidas e um imenso oceano.  Os 127 minutos passam absurdamente rápido, e isso é louvável.

As atuações

Suraj Sharma interpreta Pi na adolescência, ou seja, durante a fatídica história de busca a sobrevivência. Na vida adulta, Pi é interpretado pelo sempre convincente Irrfan Khan (O Espetacular Homem Aranha). Ambos são sensacionais quando precisam demonstrar carga dramática em suas falas, ou quando rendem piadas involuntárias envolvendo religão e crenças. Os dois precisam de destaque, pois o primeiro teve que trabalhar sozinho durante as filmagens, já que é humanamente impossível contracenar com um tigre. E é incrível o trabalho feito por ele… Por outro lado, a cena que mais me emocionou (e os chiados de narizes no cinema não me deixam mentir) é de total responsabilidade de Irrfan Khan, que sozinho, num fundo desfocado, consegue passar toda a sua sutileza e emoção ao narrar sua história ao jovem jornalista.

Todo o elenco é bom, seguro.

Irrfan Khan

Vale o ingresso do 3D? Ou vou no dia do desconto?

O filme não só vale o ingresso integral no dia de movimento, como vale levar o máximo de pessoas possíveis ao cinema. Ang Lee que estava vindo de filmes não muito bem realizados, mostra que ainda está em plena forma, e que só precisa de um bom argumento para contar uma excelente história.

Tocante, sensível e extremamente pertinente aos dias atuais de intolerância e guerras religiosas. Quem dera fossemos como Pi, que não vê problema em acreditar em Deus, Alá, e Ganesh. As aventuras de Pi é coeso e debate a força da fé, que está presente na vida humana em cada momento de sua existência. Talvez você tenha fé que a explicação que você precisa está na ciência, como afirma o pai de Pi. Mas você tem total fé nisso, e exatamente aí que está a grande virtude do filme.

Um grande filme.


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