Review The Lost Kids: Buscando por Samarkand

HQ do brasileiro Felipe Cagno busca por financiamento no Catarse

Leandro de Barros

  quinta-feira, 19 de setembro de 2013

No começo do mês, nós falamos por aqui sobre a HQ do brasileiro Felipe Cagno, que buscava financiamento no Catarse para poder sair no Brasil.

The Lost Kids: Buscando Samarkand, como é entitulado o projeto, foi concebido inicialmente como um roteiro de cinema, mas acabou parando em páginas em quadrinhos com o apoio multi-cultural de vários desenhistas pelo mundo.

Depois de ler a HQ, não posso deixar de torcer para que essa campanha dê certo e Lost Kids chegue ao mercado nacional.

Lost Kids review 02

Na trama da minissérie dividida em 8 partes, acompanhamos um grupo de 5 jovens que vão parar num mundo fantástico com reis, princesas, monstros, magia, piratas, ladrões e uma dose de steampunk para temperar tudo isso. Nossos protagonistas são J.J., uma garota que perdeu os pais recentemente e deixou de falar por causa disso; Tommy, um rapazote desenhista; Peter, o confiante e mulherengo esportista do grupo; Kate, a decidida e dona do próprio destino irmã de Peter; e Sarah, a CDF mal-humorada da turma.

Quando os cinco acabam se reunindo na escola ao redor de um pacote com uma esfera misteriosa e um bilhete com a mensagem “Busquem Samarkand”, eles são transportados para um mundo totalmente diferente do deles, onde terão de superar as suas desavenças para poder sobreviver e voltar para casa.

A primeira coisa a se dizer sobre Lost Kids é que a HQ é um pedaço das produções infantis dos anos 80 em pleno Século XXI. A obra mistura bastante o clima aventuresco de obras como Goonies, a visão dos relacionamentos de O Clube dos Cinco e a magia e o cenário de Caverna do Dragão.

Não é raro quando produções independentes esbarram na própria falta de experiência e, apesar de pensar bem nos seus personagens e tramas, pecam ao não saber expôr essas informações para o leitor/expectador de forma fluída na narrativa da história. Isso não acontece com Lost Kids, já que Cagno coloca os protagonistas em situações que definem de maneira simples e direta quem eles são e como se relacionam entre si. Não precisa muito para percebermos que a CDF (Sarah) se irrita com o jeito do esportista mulherengo (Peter) e que há alguma coisa extra ali, por exemplo.

Lost Kids review 05

Além desses 5 meninos, nós temos ainda a presença de alguns aliados nas formas do Capitão Alphonse Van Diemen, um cavaleiro honrado que assume responsabilidade pela segurança do grupo; Sheridan Colt, um “historiador” safado e sem-vergonha que tem um código moral MUITO dúbio; Meital Ravenwood, um jovem e atrapalhado mago; e Nightmare, um assassino cujas motivações permanecem em segredo.

A linha de definir em poucas características cada um dos personagens nas suas primeiras cenas continua quando falamos dos coadjuvantes, o que ajuda bastante a ambientar o leitor na história com rapidez.

Porém, nem tudo são flores nessa parte da história de Lost Kids. Mesmo com algumas ideias bem legais (na primeira edição nós temos um pequeno discurso expositivo sobre a influência dos pais e do ambiente na formação de cada um e como somos produto do nosso meio e da nossa história. Essa ideia volta a ser explorada no fim da HQ de uma maneira significativa) e com um mundo até que bem interessante (honestamente, eu adorei a ideia por trás da Floresta Four Seasons), a HQ peca um pouco em algumas falas que soam bem artificiais. Considerando que o projeto foi escrito originalmente para o cinema e para uma publicação no exterior (portanto, em inglês), essas falas fazem mais sentido no idioma de Shakespeare do que no de Camões – são algumas palavras como “tolo”, por exemplo, que não são tão usadas em português, mas cuja tradução (“fool”), funciona naturalmente em inglês.

Saindo da história e passando para as artes de Lost Kids, temos incríveis 9 desenhistas e 5 coloristas de diversas partes do mundo e que trabalharam em conjunto para trazer a HQ à vida. Porém, justamente esse fato que dá um toque bem especial ao projeto, também é o fato que apresenta um dos seus principais problemas.

Além da troca constante de traço prejudicar um pouco no andamento da minissérie, o principal problema acaba ficando em algumas incongruências que passam entre um desenhista e outro e também entre coloristas (em algumas edições, Kate tem o cabelo marrom e em outras é ruiva; em alguns traços as crianças são bem crianças e em outros já estão um pouco mais sexualizadas; Colt e Nightmare passam por mudanças de idade em praticamente todas as edições, indo de jovens até adultos bem velhos dependendo do desenhista). Essas mudanças acabam confundindo um pouco o leitor e quebram um pouco a fluidez da história.

Os diferentes Nightmares

Os diferentes Nightmares

Porém, contudo e todavia, esses problemas não diminuem muito o valor de Lost Kids. A HQ continua sendo uma leitura divertida, leve, com toques nostálgicos e que vale totalmente o investimento feito na sua campanha de financiamento – clique aqui para colaborar!


Comentários