#ChangeTheCover ou #DontChangeTheCover – Eis a questão!

Leandro de Barros

  terça-feira, 17 de março de 2015

Blog /// Super Kabooom Super Kabooom

#ChangeTheCover ou #DontChangeTheCover – Eis a questão!

Capa alternativa de Batgirl #41 levanta polêmica e discussão sobre tratamento feminino nos quadrinhos

A DC Comics adotou uma estratégia de marketing há alguns meses (um ano já, na verdade) que se resume no seguinte: todos os meses, suas HQs saem com capas alternativas temáticas. Existem as capas “oficiais” e as variantes e o leitor pode escolher qual levar pra casa – a ideia é que colecionadores comprem as duas pra DC vender mais.

Esses temas são bem diversos. Já tivemos o “mês das selfies“, “mês dos filmes“, mês disso e mês daquilo. Em Junho, para celebrar os 75 anos do Coringa, o tema das capas alternativas será o vilão do Batman. Uma dessas capas,  porém, gerou bastante polêmica nas Interwebs.

A arte da capa alternativa de Batgirl #41, desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque, mostra a Batgirl aterrorizada (até chorando!) sendo mantida capturada pelo Coringa, que está com uma arma e desenhou um sorriso na cara dela com o que parece ser sangue. A capa faz menção a história A Piada Mortal, em que o Coringa atira em Barbara Gordon e a deixa aleijada, depois tira fotos dela sem roupa (e aí fica subentendido um estupro) e tenta enlouquecer o pai dela com isso.

Veja abaixo:

coringa 01

Parte do público não reagiu bem à arte e iniciou uma campanha no Twitter com a #ChangeTheCover para que a DC Comics retirasse essa capa do mês temático de Junho. A campanha foi bem sucedida já que ontem à noite tanto a DC Comics quanto Rafael Albuquerque anunciaram que iriam remover a arte do mês temático a pedido do artista.

Mas… e aí? A capa foi mudada, mas ela deveria?

#ChangeTheCover

Primeiro de tudo, vamos estabelecer alguns fatos aqui para o prosseguimento tranquilo desse artigo: não há evolução sem discussão. Não tem como quadrinhos se tornarem um meio mais justo e igualitário com mulheres e minorias se não houver uma discussão sobre como esses leitores são afetados.

Por isso, diminuir toda essa questão como “mimimi de SJWs” é tão nocivo para os quadrinhos como… bem, como qualquer uniforme feminino sexualizado, qualquer mocinha que precisa ser resgatada e coisas do tipo.

Vamos lá: o que incomoda nessa capa?

Existem basicamente dois grandes pontos que incomodam as pessoas sobre a arte de Rafael Albuquerque – e nenhum deles tem a ver com a qualidade do desenho, que é uma baita arte diga-se de passagem, como diria o Craque Neto.

O primeiro deles é a retratação de uma personagem feminina em posição aterrorizante, submissa e violentada por um personagem masculino. A situação ganha subtextos ainda piores porque Barbara Gordon realmente sofreu abuso nas mãos do Coringa (A Piada Mortal é uma história cânone e é referenciada quase mensalmente pela DC Comics), o que ainda adiciona o desagradável tempero do abuso sexual, e também pega aquela que era um ícone do empoderamento feminino nos quadrinhos para quebrá-lo logo depois.

(Abro um parênteses aqui para dizer que nada disso era a intenção do artista, claro. Rafael Albuquerque é um cara conhecido por fazer artes sombrias e fica claro que sua intenção era apenas homenagear A Piada Mortal – tanto é que ele pediu pra DC remover a capa).

O segundo grande ponto que incomoda as pessoas sobre essa arte é o fato dela estar totalmente desconexa do tom atual da revista da Batgirl.

O chamado “Team Babs”, a equipe técnica que cuida da Batgirl atualmente (composta por Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr), vem reinventando a personagem para criar uma identificação maior com um público engajado politicamente e mais jovem que o leitor de quadrinhos “padrão” nos EUA.

Por isso, pegar uma HQ que se dedica a dar voz e espaço para minorias (mesmo que da forma errada às vezes) e subvertê-la com uma capa que, mesmo intencionalmente, reforça ideias de misoginia é de uma ironia tão cruel que seria coisa digna do Coringa em si.

Vendo por esse lado, faz total sentido pedir que a capa não seja comercializada. Até porque a equipe criativa da Batgirl não sabia como seria a arte dessa capa.

#DontChangeTheCover

Porém… vamos olhar tudo isso mais de perto.

Como já mencionado, é óbvio que a intenção da arte não era subverter nenhum esforço de luta por espaço de minorias nos quadrinhos, nem contra o empoderamento feminino. A ideia da arte era homenagear uma das histórias mais famosas já publicadas pela DC Comics e aproveitar e homenagear também um dos aspectos mais celebrados do Coringa: o fato que ele é um vilão assustador pra caramba.

A verdade é que não tem outro vilão mais assustador do que ele na DC. Nem na Marvel. Nem nos quadrinhos. Provavelmente nem em lugar nenhum.

Não importa se você é o Batman, o Superman, o Lex Luthor, o Darkseid ou um cidadão comum: seu dia será uma merda se você cruzar com o Coringa na rua.

Muitas das capas alternativas divulgadas pela DC celebram o lado “palhacinho” do Coringa, ou seu visual icônico ou outras facetas dele, mas poucas vão pelo caminho de mostrar o quão assustador ele é de verdade – e poucos artistas conseguiriam isso como Rafael Albuquerque consegue.

Também é preciso lembrar que a forma como se trata um assunto é tão importante como o assunto em si. A gente vê exemplos disso o tempo todo no “humor brasileiro”: comediantes fazendo “piadas” chamando as pessoas de gordas ou gays, sem perceber que estão sendo ofensivas por apostar que a graça é justamente no fato do alvo “ser gordo”. Nesse caso, não há uma glamurização da violência contra mulheres, mas um atestado do quão aterrorizante é o Coringa.

Até porque, o Coringa já fez o mesmo com outros personagens:

coringa capa

Mudar ou não?

A DC mudou a capa a pedido de Rafael Albuquerque. O artista deve ter percebido que seu trabalho não saiu do jeito que esperava e entendeu que muitas das críticas são válidas.

Pessoalmente, não vejo a capa, a DC ou o artista como opressores ou agentes de uma campanha anti-feminista. Vejo sim que é um problema a retratação de submissão feminina, mas ao mesmo tempo veja a arte como uma representação da figura aterrorizante do Coringa sobre um(a) herói(na).

Também não vejo “ditadura do politicamente correto”, “censura” ou “mexendo na integridade do artista” porque foi uma opção do próprio Rafael Albuquerque, que provavelmente entendeu porque as pessoas não gostaram da arte e pediu para a DC tirá-la da campanha.

A melhor parte de toda a polêmica é o fortalecimento de um trabalho de contra-cultura nos quadrinhos também, onde os leitores podem reagir e se manifestar imediatamente sobre temas ou ações ofensivas e contribuir para a criação de um ambiente menos hostil e mais igualitário nos quadrinhos.

Não entender isso é o verdadeiro problema, mudando a capa ou não.

Sobre » Super Kabooom

É um pássaro? É um avião? Não, é o Super Kabooom, o blog de quadrinhos do Supernovo. Além de usar recursos textuais mais antigos do que a cueca vermelha do Superman, esse blog trará a iluminação para os fãs da Nona Arte. Se a sua alma quadrinesca precisa de salvação, esse é o lugar certo (espero).


Já está nos seguindo no Twitter e no Facebook? Vem trocar uma idéia com a gente também no Botecão do Jack, nosso grupo no Facebook. Se quiser algo mais portátil, corre pro Telegram.

Comentários