Resenha Battle Royale

Depois de mais de uma década na espera, o livro que deu origem aos live-actions e ao mangá chegou ao brasil pela Globo Livros. Battle Royale é tudo o que prometia: Violento, ágil, cruel... Mas não apenas isso, e não da maneira óbvia.

Regina Umezaki

Regina Umezaki
@reginaumezaki

  segunda-feira, 26 de maio de 2014

Antes de mais nada, dê uma passada  no artigo do Leandro sobre as diferenças entre Battle Royale e Jogos Vorazes, porque esse assunto já deu, né? Depois, volta aqui e “vambora”.

battle royale livroBattle Royale foi lançado originalmente no Japão em 1999, e já surgiu com polêmicas por conta do conteúdo; Independente das controvérsias, ou talvez por causa delas, também foi transformado em mangá e live-actions.

Quinze anos depois, recebemos a obra no Brasil pela Globo Livros. Levando-se em conta o tema, o tamanho foi uma surpresa: São mais de seiscentas páginas. Mais surpreendente, no entanto, foi a leitura.

O livro traz a história da turma B do nono ano de uma escola de ensino fundamental que, selecionada aleatoriamente para participar do ‘Programa’, é sequestrada durante o que deveria ser uma excursão e levada a uma ilha evacuada para participar do Ato Battle Royale, instituído pelo Governo por “motivos de razões”.

O Programa obriga os estudantes a ‘se matarem uns aos outros’ fazendo uso de armas distribuídas aleatoriamente em seus kits de sobrevivência (cujo nome eu, pessoalmente, achei bastante irônico), indo de garfos a metralhadoras. Iniciado o evento, eles têm um tempo determinado para terminar a matança, ou todos morrerão.

O narrador segue vários personagens em momentos diferentes, passeando livremente entre os estudantes e mostrando seus diferentes planos de ação. O interessante da leitura é que, apesar de tratar-se de um thriller de ação, há também um quê de estudo dos personagens e suas diferentes personalidades. Battle Royale deixa passar a abordagem sócio-política na maior parte do tempo, preferindo ater-se às histórias e motivos dos estudantes.

Apesar de tratar-se de um grupo bastante jovem, na faixa dos quinze anos, a maneira como seus pensamentos e justificativas são descritos dão uma boa noção dos adultos que eles provavelmente se tornariam, usando a maturidade de caráter para contrabalancear com a aparente imaturidade etária. Além disso, essa noção de que eles se tornariam algo no futuro contrasta terrivelmente com o fato de que a maioria esmagadora deles não tem um futuro.

Isso é exemplificado em vários estudantes: Os líderes naturais que, na condição de guia e exemplo, se esforçam para reunir seus colegas; Os que não conseguem assumir a própria culpa, usando os atos dos outros para justificar suas reações; Os que se entregam livremente ao jogo, propondo-se a assassinar os colegas para sobreviver e também os que, recusando-se a participar do jogo, procuram outras saídas.

Battle Royale se mantém interessante o tempo todo, tanto nas cenas de ação quanto nos momentos em que apresenta recordações e idéias dos personagens. Enquanto alguns são interessantes ou simpáticos desde o começo, outros são mantidos um mistério até o momento propício, o que de certa forma causa uma troca constante de favoritos.

Outra característica singular de Battle Royale é a narrativa, principalmente os diálogos. As inflexões nas conversas são muito características (quem já assistiu alguma novela japonesa vai entender melhor a que estou me referindo) e, ainda que de maneira sutil, diferem bastante dos diálogos escritos originalmente em português ou até inglês. O fato de uma tradução conseguir mostrar essas sutilezas é um mérito.

Considerando o todo, sinto certo desconforto em declarar que esse é um livro ‘bom’, principalmente por conta do destino da maioria dos personagens. O teor violento também me impede de indicar a leitura sem restrições, porque não é todo mundo que gosta desse tipo de história. No entanto, apesar de uma ou outra cena mais forte, a leitura é apenas moderadamente agoniante e, embora sejam palavras arriscadas que podem ser interpretadas de maneira errada, diria que Battle Royale tem uma “violência criativa”, imprevisível. Com isso, não estou dizendo que é legal e que eu queria ver tudo isso no meu quintal, e sim que o livro foge da forma básica de “encontrar todos os outros estudantes e matá-los de maneira rápida para vencer”. Há alguns momentos em que quem costuma se envolver com os personagens vai pensar ‘Nossa, será que eu faria isso?’.

Dito isso, considero Battle Royale uma leitura muito envolvente, ágil e dona de um conjunto de fatores muito sólidos e capazes de prender o leitor. Para quem se interessou pela premissa, é sem dúvidas um livro que deve ser lido.

A violência não é novidade. A abordagem, sim.

TL;DR

Em 1997, o jornalista e escritor japonês Koushun Takami sofreu uma grande decepção. O manuscrito de seu romance de estreia havia chegado à final do Japan Grand Prix Horror Novel, concurso literário voltado para a ficção de terror, mas acabou preterido. Não era para menos. Embora habituado a tramas assustadoras, o júri se alarmou com a história do jogo macabro entre adolescentes de uma mesma turma escolar que, confinados numa ilha, têm de matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente. Detalhe: o organizador da sangrenta disputa é o próprio Estado japonês, imaginado pelo autor como uma totalitária República da Grande Ásia Oriental. O livro, intitulado Battle Royale, só seria lançado em 1999, espalhando um rastro de polêmica – vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi comentado no Japão inteiro. A repercussão foi tão intensa que apenas um ano depois já eram lançadas as adaptações da história para o cinema e para os mangás – mais tarde, viriam sequências tanto na tela grande como nos quadrinhos. Tradução: Jefferson José Teixeira Páginas: 664 Formato: 16cm x 23cm Data de lançamento: 17/03/2014 ISBN: 9788525056122 Preço: R$ 39,90 - compre!
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