O Sol Renasce no Oriente: Uma Introdução a Industria Oriental de Videogames

Thiago Alencar

  terça-feira, 23 de julho de 2013

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O Sol Renasce no Oriente: Uma Introdução a Industria Oriental de Videogames

Em um lugar em que tecnologia e jogos se misturam com sua própria imagem externa, Japão e Coréia do Sul lideram o renascimento da indústria oriental.

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Há poucos anos, era impossível pensar em videogames sem pensar exclusivamente no Japão. Com a queda da Atari e a ascensão de Sega e Nintendo, aliado a revolução trazida posteriormente pela Sony, era difícil imaginar um mundo em que os consoles das três não fossem os principais do mercado e em que as third-parties orientais não dominassem os rankings de venda pelo mundo.

Nós vimos a ascensão dominante da Nintendo. Todo o poder do seu Nintendo Entertainment System (o glorioso Nintendinho), a gloriosa batalha entre SNES e Mega Drive (saudosistas choram), o gigante tecnológico da Sony entrando no mercado de videogames e o ressurgimento da Nintendo sob as asas do Wii e do DS, há muito o que amar, mas também há diversos motivos para odiar o continente que se tornou referência em desenvolvimento tecnológico.

É fácil achar que as developers japonesas sempre estiveram por aí. Alguns de nós só se lembra da época dos Nintendinhos e seus vários clones (Super Charger, Phantom System, Dynavision e vários outros), com vagas lembranças da existência do tal do Atari. Nós quase não lembramos que a industria praticamente foi a falência e que ganhou vida nova a base dos consoles e arcades orientais. Em qualquer lugar dos anos 90 (e até hoje) era fácil encontrar fliperamas de Street Fighter, Mortal Kombat, King of Fighters, House of the Dead e outros. Eles não inventaram nada, mas estavam no lugar certo, na hora certa, com o produto certo.

Olhando pra esse período em que a “dominação japonesa” era mais aparente, é fácil crucificar o estado atual das empresas nipônicas. Foi o ápice da produção de jogos, época em que era muito mais barato e menos arriscado lançar novas franquias. Época em que jogos eram feitos por equipes que se mantinham anônimas e que produziam muito.

Enquanto os ocidentais ainda engatinhavam no desenvolvimento pra consoles e se focavam em PCs (época de ouro dos point and clicks e dos RTS), o Japão parecia uma fábrica de diamantes. Castlevania, Metroid, Mario, Zelda, Street Fighter, Megaman, Final Fantasy, Pokemon, Sonic, Dragon Quest e tantos outros surgiram nos “consoles clássicos” e se tornaram paixões por todo o mundo. Uma época tão lembrada pelos “old gamers” e que acabou florescendo em uma cobrança a níveis estratosféricos pra tudo o que vem de lá.

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Em suas duas primeiras décadas (se contarmos do lançamento do NES pro mundo em 1985 ao lançamento do Wii em 2005), a industria japonesa era a força motriz por trás de todos os avanços tecnológicos em consoles. Nos tempos aureos em que se contava gerações através de seus bits, os americanos, salvo uma ou outra tentativa como o Jaguar e o Apple Pippin, ficaram sem representantes até a entrada da Microsoft em 2001 com o Xbox. Essa abertura ao mercado japonês de entretenimento cada vez maior nos anos 80/90 (um dos grandes sinais de um inicio de “globalização da cultura”) foi a grande marca da prosperidade e o prelúdio da “queda” dos orientais como reis do mercado.

“Queda”? Por que as aspas, nobre Summoner dos Eidolons perdidos? Todo mundo sabe que a industria japonesa não é mais a mesma. Os mestres dos olhos puxados já não mandam em nada, você diria, meu jovem Belmont. Mas, se você olhar ao redor, vai perceber que não é bem assim. Primeiro, não se esqueça de como o Wii dominou de ponta a ponta a sétima geração, ou de como o DS é o console mais vendido de todos os tempos (sim, mais do que o PS2). Não esqueça que o PS3 segue emparelhado em seu volume de vendas com o X360.

É fácil olharmos só pra industria americana. São só as vendas de lá que importam pra filmes, hqs e praticamente tudo o que importa pra gente quando se trata de cultura pop. Mas é só analisarmos o todo e ver como a Sony e a Nintendo prosperam em todo o resto do mundo pra entender que não é bem assim. A gente simplesmente atira pedras na Square-Enix, Nintendo, Sony, Sega, Capcom e todas as outras grandes produtoras orientais sem tentar entender os pormenores da produção de jogos.

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Não só os custos de produção aumentaram astronomicamente, como a economia japonesa praticamente parou por 2 anos durante a Crise de 2008, e quando começou a se recuperar, foi novamente dizimada por terremotos e tsunamis. A exceção da Nintendo que a época se apoiava nos fenômenos que foram o Wii e o DS, todas as grandes empresas do ramo foram abaladas. Mesmo a Sony, com todos os seus outros produtos, começou a sofrer bastante, principalmente por outros setores de tecnologia enfrentarem novos titãs na forma das coreanas Samsung e LG (produtos mais baratos e no mesmo padrão de qualidade).

Mas ninguém apanhou tanto quanto as produtoras. Presas entre uma crise econômica e o fortalecimento de publishers ocidentais (o monstro que a Ubisoft se tornou, a EA e seus novos estudios, a Take-Two e seus clássicos entre outras), elas passaram por uma crise de identidade. Muitos dos seus antigos “fãs” passaram a se apoiar na onda “retro gamer” e atacar com tudo o que tinham todo novo jogo vindo do oriente. Cada novo “Final Fantasy” era recebido como a “prova da morte da série”, os novos Resident Evils foram queimados em praça pública porque tentaram se “ocidentalizar”, a franquia Megaman foi pro limbo porque mesmo quando voltou a ser um side-scroller, seus unicos jogos que vendem, são em portáteis e por aí vai.

O resultado disso, ao invés de ser a redução na produção de jogos, foi o aumento de jogos que não saem do Japão. Se antes as produtoras tinham grana pra bancar o lançamento de quase tudo o que produziam no ocidente, agora é cada vez mais difícil que eles se arrisquem. Vários jogos de DS e PSP nunca foram localizados por falta de verba. É sintomático quando alguém do porte de Yoshinori Ono diz em seu twitter que não tem verba ou pessoal pra fazer um Street Fighter para a próxima geração, algo mais implícito na declaração da Konami quanto a ter um Pro Evolution Soccer 2014 no PS4 e X1.

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É uma situação que faz com que nomes gigantes como Hideo Kojima e Shigeru Miyamoto fiquem presos em novas e novas versões de suas franquias por dependência das casas que lhes abrigam, sem liberdade pra se dedicar aos projetos que a anos dizem querer tirar do papel. Um mundo resumido pelas palavras de Shinji Mikami, as publishers asiáticas AINDA podem “vencer”, se tiverem dinheiro e para investir no desenvolvimento de seus jogos e se as empresas fossem mais flexíveis. O grande problema é que a situação econômica das publishers não está das melhores, dificultando esse tipo de investimento. Se nem um lançamento enorme como Tomb Raider consegue ser suficiente, será que dá pra ter esperança?

Calma, calma, não decretem ainda a morte das empresas japonesas, pois, mesmo com essa situação calamitosa, há esperança. Pela primeira vez, a Sony abriu o desenvolvimento de seus consoles a um ocidental. O (por falta de outro termo) gênio Mark Cerny se tornou o arquiteto principal do PlayStation 4, ligado a empresa desde o começo do 1° PlayStation (um dos homens responsáveis pela parceria da Sony com a Insomniac e a Naughty Dog não pode ser ruim, certo?), ele decidiu trazer duas coisas de volta aos consoles de mesa e que são tão marcantes dos portáteis (e razão pela qual PSP, PS Vita, DS e 3DS tem bibliotecas enormes no japão): facilidade de programar e redução de preço.

Será suficiente? É difícil prever. Mas quando a Sony e a Nintendo parecem entender os problemas de seus parceiros da Terra do Sol Nascente, bem como abre cada vez mais espaço pros reis dos “Jogos Competitivos” (só ver como Coreanos e Japoneses vem dominando a cena de e-sports e como cada vez mais chineses começam a aparecer nas cenas) com sua arquitetura mais “pczística” e com o crescimento dos celulares como plataforma de jogos (cena cada vez mais dominada pela LG e Samsung como referências em celulares android), as empresas asiáticas parecem preparadas para aprender com seus erros nos últimos 7 anos e prontas para retomar seu posto como grandes reis da industria de jogos.

Se em tempos de dificuldade, ainda somos agraciados com grandes jogos como os ultimos Tales of, Dragon’s Dogma, Puppeteer, Rain, Kid Icarus, Bravely Default, a franquia Ace Attorney, Project X Zone, Tokitowa, Ni No Kuni, Sword Art Online, Shining Ark, Soul Sacrifice, Project Diva F e (sim, eu vou lá) Final Fantasy XIII, entre outras, imagine o que nós teremos com consoles fáceis de programar e mais baratos de se fazer jogos? A era de ouro pode ter passado, mas podemos estar prestes a ver o ressurgimento daqueles que nos ajudaram a crescer e nós abandonamos. Talvez seja a hora de olhar para eles com carinho novamente.

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