Conto | Thea

Roberta Rampini

  quarta-feira, 02 de janeiro de 2013

Conto | Thea

Baseado no cenário "E se a nossa vida fosse uma sessão de RPG?", Thea é um conto onde uma jogadora de RPG encontra a sua "verdadeira mestre"

ATENÇÂO: Esse é um texto enviado por um leitor ou colaborador do Supernovo, referente à um dos cenários postados no Multiverso, blog “locão de dorgas” do site.

Texto: Thea
Autor: Roberta Rampinii
Cenário: E se a nossa vida fosse uma sessão de RPG?


Conto Thea

Thea

por Roberta Rampinii

Eu não sei como começar essa história. Eu não sei nem por que estou escrevendo essa história. Talvez tentar encontrar um sentido lógico enquanto escolho palavras me faça cair na real e finalmente eu vá perceber que tudo isso é apenas efeito dos remédios novos. Meu único medo, e eu tenho vários deles, é que isso não seja apenas uma história.

Meu nome é Thea. É um apelido na verdade. Galathea foi minha primeira personagem. Na hora de me cadastrar o registro perguntava meu nome e eu, noob, me registrei com o nome da minha personagem e não com o meu. É por isso que hoje, sete anos depois, meus amigos ainda me chamam de Thea.

Durante todo esse tempo eu já tive várias outras personagens, mas nenhuma delas evoluiu tanto como Galathea. Nível setenta e sete não é para muitos. Eu devia ter abandonado a Galathea nas dezenas de vezes em que tive a chance. Eu devia ter deixado a Galathea para lá quando meu namorado me acusou de traição e quando o namorado dela me acusou de ser ela. Esse é o tipo de frase que só faz sentido para um jogador.

Mas eu não abandonei a Galathea. Eu dediquei minha vida a ela. Até meu emprego eu escolhi pensando nela. Trabalhar na biblioteca me dava acesso a internet rápida, já ninguém mais usa essa conexão, e eu podia passar os dias lendo os Livros do Jogador sem que ninguém achasse que eu estava procrastinando.  A questão é que em pouco tempo os Livros do Jogador já não eram o suficiente, eu sabia cada combinação de pericia e atributo de cor. Passei então a ler livros de ocultismo, já que Thea era uma bruxa. Na verdade ela era uma mutante, mas você não entenderia a sutileza de tirar a energia da natureza por determinação biológica.

Ter me aplicado como jogadora fez de Galathea um dos personagens lendários da rede. E acredite, não era fácil mantê-la nesse posto. Com o passar dos anos os jogadores mudaram, esses pirralhos de dez anos nascidos na frente de um tablet nunca saberiam o quanto era difícil conectar pela linha telefônica e ver a conexão cair durante o feitiço de ataque que te levaria ao próximo nível mesmo com os bugs do sistema que te roubavam um décimo de XP cada vez que você digitava barra kiss. Eu deveria ter digitado menos vezes barra kiss…

Era justamente por isso que eu estava ali, ajoelhada no meio da biblioteca durante a madrugada, dentro de um círculo alá Supernatural com um espelho entre as prateleiras das sessões de física e histórias de fantasia. A ordem das sessões faz mais sentido em inglês. Se eu pudesse me lembrar de cada pensamento que passasse pela minha cabeça ao celebrar aquele ritual, nenhum pirralho estressante me venceria na eleição de interpretação do mês. O único problema era que eu também não entendia a sutileza de tirar energia da natureza por determinação biológica.

O primeiro passo era jogar água no espelho, aquilo duplicaria as propriedades de reflexão da superfície e se eu dissesse as palavras certas abriria um portal. Isto é, se Galathea dissesse as palavras certas ela abriria um portal. Abrir portais é coisa de jogadores grandes, menos de cem personagens em todo o mundo receberam notas altas o suficiente pela interpretação de suas cenas. Ninguém sabe ao certo o que as notas altas liberam, os boatos diziam que davam acesso a um desdobramento de uma fase secreta do universo básico.

Enquanto folheava meu caderno de anotações, onde o cântico escolhido estava escrito com a pronúncia certa pude perceber que eu não queria ter acesso a um desdobramento de uma fase secreta. Eu queria ter acesso ao mundo onde eu me chamava Thea. A lágrima que pingou do meu rosto enquanto eu olhava aquela decadente biblioteca onde eu realmente passava meus dias criou um círculo na água quando caiu sobre o espelho. Apertei os olhos pensando o quanto era ridículo chorar por ser eu e não… Thea.

THEA! – berrou aquela garota na minha frente. Não me perguntem como ela surgiu na minha frente.  Mas ela estava ali, ajoelhada na mesma posição que eu, do outro lado do espelho, entre as sessões de física e histórias de fantasia.

Quem é você? A biblioteca está fechada! – gritei tão assustada que esqueci de pé eu pareceria mais efusiva.

Como assim que sou eu… Ow… Eu… Mas é claro! Você não sabe quem sou eu – realmente, a única coisa que eu sabia sobre ela era que nos parecíamos. Mas eu era mais bonita. Como uma versão melhorada sabe… E antes que eu pudesse abrir minha boca para respondê-la ela continuou – Sou sua player.

Ah sim claro, minha player…

Como assim você é minha player?

Não se faça de burra! Você tem 23 de inteligência e eu rebolei muito para te conseguir 103 em Jogos, RPG sem perder muitos pontos para Arte, Redação – a garota na minha frente tinha um ar tão real que fazia dela a mais irreal de minhas alucinações.

Eu não sou… – tentei começar a dizer, mas aquela menina parecia saber as palavras exatas nas quais minha frase terminaria.

Um personagem meu? Se Galathea aparecesse na sua frente, como provaria isso a ela? Mostraria seu histórico de jogo, é claro. Mas se quer saber… Não daria muito certo. Você nem tem muitos pontos de carisma… Ah qual é… Eu precisava tirar de algum lugar para colocar em inteligência… E… E você é uma bibliotecária de 22 anos que não desliga o computador para não perder o bônus por horas online, nem parar os downloads de suas séries teenage de vampiros.

Me peguei olhando para ela e nossa aparência tão desigual fez um sentido enorme conforme ela falava. O jeito como ela se movia, suas expressões e tons de voz cuidadosamente combinados às sílabas tônicas. Ela achava que ela era eu… Mas eu era ela.

Quando me concentrei em observar o cenário de minha aventura… – ela mais uma vez continuou minha frase por mim.

Tudo o que viu foi sua própria aventura. Ou seja, sua existência a partir de mim. Um plano genial, eu sei. Mas ao contrário de você não passei meses estudando teorias em livros. Foi cagada mesmo, tirei um vinte na passagem de tempo.

Isso significa que eu não existo? – acreditem em mim, não é o tipo de pensamento mais reconfortante do mundo – Eu sou Tyler… E você… O Narrador.

Ora essa. Por favor. Não vamos fazer desse conto um épico – ela concluiu com um sorriso tão calmo que me deixava desconfortável.

Como ela podia estar tão feliz em me encontrar, sem sustos nem nada enquanto toda minha vida era resumida em uma ficha… Tendência ao sono, talento para computação, ambidestria… Qual é. Ninguém no mundo real tem ambidestria! Eu deveria ter percebido antes. Estava tudo ali na minha frente o tempo todo. Cada passo meu era decidido por dados rolados sobre a minha cabeça e eu não podia ao menos ouvir o barulho deles caindo na mesa sem pensar que eram trovões.

O que eu devo fazer agora? – perguntei com o único sentimento que permanecia sincero dentro de mim. Devoção. Nesse momento imaginei que minha mania em não conseguir agir contra meus preceitos deveria ser um aprimoramento negativo, alguma espécie de juramento.

Os leitores esperam que nós duas conversemos sobre nossas existências. Na maneira como recrio em você desejos do meu próprio eu. Em como você é capaz de realizar tarefas as quais eu nem ao menos me presto a tentar e como isso me satisfaz da forma mais pobre como pessoa.

Mas não vamos fazer isso – dessa vez fui eu quem terminou a frase dela.

Não. Não vamos. Tudo isso é apenas meu prelúdio para o salto temporal da minha campanha. Amanhã quando acordar saberá a verdade e isso te dará vantagem contra os outros personagens. Chegou a hora dos membros do grupo se reunirem e quando isso acontecer esse pequeno encontro me dará o direito de offar – ela riu.

Tudo isso para que você possa… Offar?

Qual é! Eu tirei um vinte! E quem tem código de honra é você!


Se você se interessou pelo cenário, não esqueça de escrever o seu conto (do tamanho que você quiser), baseado em um dos cenários disponíveis e enviar para [email protected]. Nós teremos muito prazer em publicar a sua história no Supernovo.


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