Como a HBO está revolucionando a maneira de ver notícias

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  quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Como a HBO está revolucionando a maneira de ver notícias

HBO está praticando um jornalismo independente - mesmo sem querer

Epa, Game of Thrones vai ter a participação de William Bonner na próxima temporada? Não, não é nada disso. A HBO é atualmente um dos canais de conteúdo premium de maior adesão nos Estados Unidos e o motivo principal não são os filmes que por ela são transmitidos nem as lutas de boxe que fizeram a fama do canal na década de 1980 quando da criação do pay per view. São as séries. O movimento começou nos anos 1990 com The Sopranos e continuou na década passada e nesta; Mas dois programas em especial chamam a atenção: The NewsroomLast Week Tonight. No caso de ambos a HBO está (ou esteve, dado que The Newsroom teve seu season finale em novembro) praticando um jornalismo independente – mesmo sem querer.

Vejamos o caso de ambas e as coisas ficarão um pouco mais claras em sua cabeça.

newsroom

The Newsroom

Em tradução livre, The Newsroom seria algo como, em português, A Redação. Do título você já tira a premissa do que a série se trata: uma redação de um telejornal de horário nobre apresentado na fictícia ACN – rede de notícias de um conglomerado maior (da mesma forma que acontece com a maioria das estações a cabo de notícia dos Estados Unidos). No epicentro, o âncora Will McAvoy – interpretado brilhantemente por Jeff Daniels. McAvoy foi por algum tempo promotor em Nova Iorque e tem formação jurídica – não jornalística. Durante os atentados do dia 11 de setembro de 2001, uma emergência fez com que ele – até então um correspondente jurídico da emissora – tenha que ser âncora durante algumas horas. A experiência dá certo e ele fica anos no ar ao melhor estilo Jay Leno – sem incomodar ninguém, sem fazer barulho: apenas lendo o teleprompter.

Até que numa palestra para estudantes de Northwestern – uma das melhores universidades dos Estados Unidos – ele pensa ter visto uma ex-namorada e ex-colega de trabalho que o traiu e se irrita com uma pergunta tola: o que faz os Estados Unidos o maior país do mundo? Após mais de 10 anos de opinião editorial não explicitada, McAvoy solta tudo o que pensa: não, os Estados Unidos não são o maior país do mundo. Para justificar seus argumentos, usa vários dados que demonstram que em vários quesitos sociais e econômicos a America não pode ser taxada como “maior”.

Este é o episódio piloto. Dali para frente muita coisa acontece. Ainda no mesmo, a tal ex-namorada que ele por vertigem (ou não) imaginou ter visto acaba sendo contratada como sua produtora executiva pelo diretor do canal, Charle Skinner. A união de MacKenzie McHale – no âmbito profissional – com McAvoy faz de ambos um time como há tempos não se via na televisão. Ao invés de notícias “água com açucar”, o “News Night” começa a falar sobre assuntos que “realmente importam na hora do americano estar votando”. A partir dessa premissa, Will usa de suas habilidades como promotor para inquirir vários políticos, donos de companhia e etc. Isso tudo sem qualquer interferência editorial do seu chefe, Charlie – e isso é bem demonstrado pelo fato de Skinner parecer estar em uma dada cena logado na Full Tilt Poker ao invés de prestar atenção nas tvs de seu escritório. E ele o faz porque confia em MacKenzie e McAvoy para dinamizar as notícias e torná-las algo útil para informar a população americana.

A primeira temporada se foca no objetivo de informar a população a respeito do Tea Party, facção de direita e conservadora dentro do Partido Republicano. A segunda trata do assunto “dever de informar x interesse de Estado” e a terceira sobre a confidencialidade de fonte jornalística e até que ponto deve se ir para proteger a identidade da mesma. Todos – especialmente os dois últimos – assuntos de extrema relevância no mundo jornalístico e que Aaron Sorkin – A Rede Social, West Wing – roteiriza com maestria durante as três temporadas.

Last Week Tonight

John Oliver é um inglês radicado nos Estados Unidos e que fazia reportagens para o programa Daily Show, de Jon Stewart – um talk show que satirizava o mundo político americano. Quando este estava de férias, Oliver o cobria com maestria. Foi pensando neste potencial que a HBO investiu no ano passado na contratação de Oliver como âncora de um horário que, para ela, é nobre: 11 da noite aos domingos, horário o qual é disputado justamente porque o principal jogo de futebol americano da TV (e maior audiência semanal da televisão dos Estados Unidos) acabou de terminar as pessoas estão procurando o que assistir.

Deu certo. Oliver revolucionou o conceito junto da HBO e de uma maneira muito simples: ele não tem limites. Isso não quer dizer que ele seja desrespeitoso ou algo do gênero – ele não tem limites porque a HBO não tem o rabo preso com nenhuma corporação, haja vista que não tem anúncios comerciais por ser um canal premium de TV a Cabo. Com efeito, essa é a principal diferença do Last Week Tonight em relação aos outros talk shows de sátira política dos Estados Unidos – Colbert Report e o próprio Daily Show entre eles: ele não se restringe ao mundo político, pode versar sobre qualquer outro assunto da sociedade americana. Considerando que o programa é semanal – em contraste com o Daily Show (até pelo próprio nome indicar) ser diário – Oliver tem mais material para trabalhar e pode filtrar pautas realmente relevantes. E, para tanto, não versa apenas sobre temas dos Estados Unidos – fala sobre coisas que acontecem no mundo, dado que a HBO é um canal global.

E seus vídeos vão para o YouTube depois do programa ter ido ao ar. A maioria deles bate a casa dos milhões de visualizações e o próprio canal do YouTube tem cerca de um milhão de inscritos – um feito e tanto para um programa de TV a cabo premium. Oliver é sarcástico mas toca na ferida de ponto objetivo e ao utilizar do humor, demonstra o absurdo em dadas situações cotidianas. Um bom exemplo – confira o vídeo abaixo – é quando Oliver fala sobre o Tabaco; Como o lucro dos agricultores de tabaco no sul dos Estados Unidos – e das empresas tabagistas como um todo – aumentou se o número de fumantes nos Estados Unidos diminuiu?

A resposta está na exploração de mercados emergentes, como a Indonésia – onde mais da metade dos homens adultos fumam. Ao mesmo tempo, Oliver utiliza do humor e das redes sociais para explorar o assunto e “fazer o certo”. Em outras oportunidades ele já falou dos absurdos da Copa do Mundo e da FIFA – como o objetivo de levantar o banimento legal a bebidas alcoólicas nos estádios brasileiros devido ao fato da Budweiser ser parceira da entidade. São assuntos relevantes, são notícias – e o humor, como dito acima, é o instrumento para fazer com que as pessoas criem consciência sobre o assunto sem achá-lo chato e desinteressante.

Como isto está sendo feito?

Sem comerciais. O conteúdo premium da HBO, como dito, permite essa liberdade editorial a Oliver e a Sorkin. E isso fez bem ao jornalismo como um todo – o vídeo da FIFA, por exemplo, foi visto por mais de nove milhões de pessoas e à época da Copa do Mundo foi compartilhado por diversos brasileiros nas redes sociais. Quanto ao Brasil, não dá para saber quando esse tipo de produção chegará aqui. Mas um elo direto entre o consumidor e o produto televisivo (que não é inédito, haja vista que a BBC, rede estatal televisiva britânica, também não tem comerciais e no Reino Unido é cobrada uma “taxa de televisão”) pode ser o caminho para algo mais ético, informativo e efetivo em termos de mudança real na sociedade para um bem comum.


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