Resenha O Oceano no Fim do Caminho

Novo livro adulto de Neil Gaiman, The Ocean at the End of the Lane foi trazido para o Brasil pela Editora Intrínseca, em lançamento simultâneo ao original em inglês, com o título O Oceano no Fim do Caminho.

Regina Umezaki

Regina Umezaki
@reginaumezaki

  terça-feira, 06 de agosto de 2013

oceano resenha 1Neil Gaiman é um dos meus autores favoritos. Seus livros juvenis são ao mesmo tempo emocionantes e assustadores, e seus livros adultos são ao mesmo tempo complexos e simples.

The Ocean at the End of the Lane (O Oceano no Fim do Caminho) é o primeiro romance adulto do autor desde 2005, quando lançou Anansi Boys (Os Filhos de Anansi), motivo pelo qual foi aguardado com ansiedade e expectativa. Foi lançado no exterior e no Brasil simultaneamente (veio para cá pela Intrínseca). Depois de ler o livro, acredito que a espera valeu a pena. Não apenas para matar a saudade do estilo tão característico, mas também por trazer um livro para adultos com um protagonista que é, na maior parte da história, criança, o que é um desafio que nem todo mundo consegue vencer.

O narrador é nosso protagonista, um senhor sem nome que já não é mais tão jovem. Ele está na rua onde morou na infância; De volta depois de anos para comparecer a um funeral, ele acaba mergulhando em lembranças ao encontrar o lar de uma amiga de infância, Lettie, que tinha um ‘oceano’ nos fundos da casa. Apesar de a garota ter se mudado para a Austrália, a família ainda está lá, e nessa visita, uma enxurrada de lembranças desperta.

A partir desse momento, o leitor é levado à infância do narrador, vivenciando junto com ele eventos que vão do mundano ao fantástico. No tom já característico, Neil Gaiman guia-nos por momentos de nostalgia, apreensão e uma tensão agonizante, próxima do terror. Através das lembranças de um adulto gravadas com os olhos de uma criança, somos apresentados a seres e criaturas escondidas pelo véu da realidade.

A capacidade de Gaiman de descrever fantasia e realidade mesclando-as até que não se saiba onde termina uma e começa outra é sempre uma surpresa. Ao mesmo tempo em que sabemos que os fatos narrados não são reais, eles parecem incrivelmente possíveis. Acredito que boa parte disso se deva à naturalidade com que o autor insere o fantástico, explicando tão pouco que tudo acaba parecendo inexplicavelmente crível.

Relativamente curto, The Ocean at the End of the Lane também é uma obra simples. Apesar da complexidade transmitida pelos elementos fantásticos e pelas situações complicadas, a visão infantil do perigo e do medo tornam a narrativa mais acessível. Sem os questionamentos tão presentes na mente adulta, podemos ver tudo pela perspectiva de uma criança quando lemos o livro, sentindo a impotência característica da infância diante de um grande problema ao mesmo tempo que, conscientemente ou não, estamos a par das implicações que esses perigos acarretam de maneira consistente com nossa própria maturidade.

O livro é surpreendente e a história envolve de maneira impressionante. The Ocean at the End of the Lane é tocante, assustador e nostálgico. Dá vontade de voltar a ser criança, ao mesmo tempo em que impele a não querer lembrar como é ser mais novo, de jeito nenhum. Uma mistura equilibrada de malícia e inocência, medo e ousadia.

Os elementos sobrenaturais são, também, apresentados de maneira singular. A mitologia usada por Gaiman é menos explicada e mais crível do que a de muitas outras obras de fantasia que existem. A complexidade dos seres e a maneira incisiva com que eles surgem é de uma sutileza tão própria que encanta e assombra ao mesmo tempo.

Não há muito mais para se falar, até porque os trabalhos do autor costumam representar a si mesmos; Cada pessoa tira algo significativamente diferente de suas narrativas, e seus trabalhos são em geral tão únicos que pouco se pode dizer sem tirar dos demais leitores a emoção da descoberta. Enfim, é uma leitura surpreendente, característica e prazerosa de se ler.


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