Resenha Dois Garotos se Beijando

Regina Umezaki

Regina Umezaki
@reginaumezaki

  terça-feira, 07 de abril de 2015

David Levithan é, no mínimo, um escritor peculiar. De seus livros com Rachel Cohn, passando pela parceria com John Green e mesmo em seus livros solo, ele nunca assume um estilo de narrativa simplesmente característico, mas usa de um tipo agradável de metamorfose constante para experimentar diferentes histórias, personagens e situações, tendo em comum apenas a mensagem imutável de aceitação.

dois garotos se beijandoEm Dois Garotos se Beijando, o autor assume a voz de uma geração inteira: Aquela primeira, que sofreu muito mais com o abuso, preconceito e desinformação impostos pela sociedade quando os homossexuais começaram a deixar de se esconder.

Com essa voz, Levithan narra os preparativos e o decorrer da tentativa de Craig e Harry, dois adolescentes gays, de quebrar o record mundial de beijo mais longo, em resposta a um caso de agressão homofóbica.

Além dos dois, o leitor acompanha as histórias de Neil e Peter, um casal num relacionamento estável, Avery e Ryan, dois garotos que acabaram de se conhecer, e Cooper, que vaga sozinho sem entender muito bem quem é e como se aceitar.

Como história, o livro entretém com sucesso e corre rápido. A narrativa é compulsiva, conversativa e interessante. No entanto, mais do que isso, Dois Garotos se Beijando é também um comentário social.

Para cada um de nós que conseguiu morrer pacificamente em uma cadeira de varanda, com o cobertor sobre o corpo, enquanto o vento soprava o cabelo e o sol aquecia o rosto, houve centenas de nós cuja última imagem do mundo foi paredes brancas e maquinário metálico, um vislumbre de janela, as flores inadequadas em um vaso, representantes escolhidos da natureza que perdemos.

David Levithan é um constante desafio para o leitor, sempre tentando de alguma maneira expandir os conceitos de amor, sexualidade e gênero com seus personagens, vide Tiny Cooper em Will e Will, Infinite Darlene em Garoto encontra Garoto e principalmente “A”, de Todo Dia. Dois Garotos não é diferente, tendo seu leque de personalidades, sexualidades, gêneros e casais. Provavelmente o que o diferencia dos demais livros do autor, além da narrativa peculiar, é um certo tom melancólico e apresença bem mais marcante do preconceito.

Além de uma história, o livro é uma reunião de argumentos; Ele é pró-aceitação, pró-amor, um repúdio ao repúdio. Dois Garotos se Beijando é sobre os garotos que se beijam, os que tem medo de se beijar, os que não puderam se beijar e os que se beijaram e foram punidos por isso. As histórias contadas são imagens que não parecem de maneira alguma surreais ou fictícias, porque englobam um infinito de possibilidades abordadas de maneira eficiente e, em momentos, didática. De uma maneira incisiva, Levithan aborda não apenas o relacionamento homoafetivo, mas também o relacionamento familiar da pessoa homossexual, as dificuldades, a necessidade de sensibilidade dentro dessa esfera e a importância da aceitação, se não do apoio irrestrito.

As pessoas gostam de dizer que ser gay não é como a cor da pele, não é uma coisa física. Elas dizem que sempre temos a opção de esconder. Mas, se isso for verdade, como é que eles sempre nos descobrem?

Não sei até onde uma mulher heterossexual consegue, com sucesso, entender a significância de um livro sobre homens homossexuais, mas a experiência pessoal de leitura com Dois Garotos se Beijando foi no mínimo reveladora. No final das contas, o quanto o leitor vai gostar ou apreciar o livro depende de vários fatores, desde o sócio-cultural até a empatia pessoal. No entanto, levando tudo isso em conta, eu ainda diria que é um livro que deve ser lido sim, não por ser uma história que vai te dizer coisas que você não sabia (ou não queria saber), mas por ser uma obra que vai apontar coisas que você talvez até já soubesse, mas nas quais não prestou atenção suficiente.


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