Análise O Sol é Para Todos

Depositem suas plaquinhas de ‘Você Não Pode Criticar Um Livro Que Já Era Foda Antes De Você Nascer’ aqui antes de entrar, por favor. Esse livro é amor demais e seu poster pode bloquear a visão.

Regina Umezaki

Regina Umezaki
@reginaumezaki

  terça-feira, 25 de março de 2014

Tem gente que não gosta de resenhar clássicos porque tem todo esse papo de ‘Você Não Pode Criticar Um Livro Que Já Era Foda Antes De Você Nascer’. Eu não tenho muito desse problema, porque vejo nas resenhas uma maneira de registrar o que eu achei de um livro e, possivelmente, atrair outros leitores para ele, se o achar bom. Então, por favor, deixem suas plaquinhas de ‘Você Não Pode Criticar Um Livro Que Já Era Foda Antes De Você Nascer’ encostadas na parede ali do lado e vamos falar desse livro maravilhoso.

O Sol é Para Todos é um clássico frequentemente trabalhado nas salas de aula da América do Norte (ou será que é apenas dos Estados Unidos?), e é o único livro lançado pela autora.

to kill a mockinbirdNo livro, Harper Lee fala sobre determinado período da vida de Scout Finch, uma menina espoleta e inteligente. Sim, eu usei a palavra espoleta. Creio que o uso foi correto. Há ha. A história é narrada por ela mesma, mas de algum lugar confortável em que, ao falar do que viveu, Scout fala do passado.

Junto dela, existem outros personagens, todos igualmente simpáticos e incríveis, dentre os quais se destacam seu irmão mais velho, Jem, e seu ‘namorado’, Dil, que passa as férias com eles ao longo dos anos.

O Sol é Para Todos é conhecido como um livro que trabalha situações problema envolvendo segregação e preconceito racial, mas apesar disso, também fala muito do que é ser criança e do que significa crescer e amadurecer.

É um pouco difícil especificar em palavras o que é bom no livro, mas acho que vale a pena tentar. Os personagens são expressivos, bem construídos e muito bem apresentados através dos olhos de Scout. As crianças são de uma simpatia incrível, e os adultos são adultos. Dá pra entender? Vou tentar explicar de maneira mais específica:

Atualmente, adultos de vinte, trinta e quarenta anos tem muito em comum nos gostos e na maneira de agir. O estilo de vida e a liberdade social de hoje em dia permitem que isso aconteça. Em O Sol é Para Todos, os adultos são muito mais delineados como adultos, principalmente por conta do papel que desempenham junto às crianças, numa relação de amor com deferência. Ainda assim, a autora consegue torná-los humanos com falhas e questionamentos. Um exemplo claro é Atticus, o pai de Jem e Scout, um advogado que ela diz ser um velho (por ser mais velho do que os pais dos colegas deles). Apesar de tratar o pai por ‘Atticus’ ou ‘Senhor’, ela não se sente intimidada quando lê junto com ele ou é colocada para dormir, e apesar de ensinar os filhos da melhor maneira possível sobre o que é certo e errado, Atticus faz o possível para também ensinar a eles o discernimento entre o que é regra e o que é certo.

A narrativa de Scout também é um ponto positivo. Apesar de já ser adulta ao contar a história, ela traduz em palavras maduras o sentimento da infância com uma precisão impressionante. Não é incomum ela dizer ‘apenas anos depois eu entenderia o que tal coisa significava’, ou ‘só quando fiquei mais velha entendi que ele fez tal coisa intencionalmente’.

Assim, ela não apenas conectou-se com a criança que já foi, mas também com o leitor, ao situá-lo nos arranjos da narrativa.

Voltando à questão do tema, o livro tem, sim, uma mensagem clara em relação ao preconceito, que desempenha um papel importantíssimono desenvolvimento e conclusão história não apenas por ser um fator chave no amadurecimento dos personagens, principalmente Jem, mas também por desencadear acontecimentos que são determinantes na conclusão da narrativa e na justificativa do título (pelo menos o original, ‘To Kill a Mockingbird’).

Apesar de ser um livro antigo, a linguagem é acessível e a narrativa é gostosa de ler. A maneira como as palavras da Scout de agora e a de antes se misturam cria um tipo peculiar de graça infantil com elegância adulta. É inteligente, mas não faz questão de ser sério, pelo menos não daquele jeito todo intelectual, por vezes soando como uma conversa. O Sol é Para Todos é ‘um livro amigo’. Terminei de ler e só queria abraçar.

Enfim, definindo em sensações bem amplas, diria que esse livro é uma mistura de nostalgia, inocência, amadurecimento e descobertas. É engraçado e tocante ao mesmo tempo, e se tornou um favorito.


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