Resenha A Orquestra Vermelha

“Glaubt mit mir an die gereche Zeit, die alles reifen lässt.” (“Juntem-se a mim na crença no tempo justo, no qual tudo amadurecerá”) – Harro Schulze-Boysen

Luiz Alexandre Andrade
@luizalexandre82

  quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Quero começar essa resenha falando momento em que terminei de ler o livro. Gosto de sempre chegar ao fim da leitura e pensar sobre tudo que li, “A Orquestra Vermelha” me mostra que mesmo após 70 anos da Segunda Guerra Mundial, o conflito ainda tem muitas histórias para serem contadas.

Em “A Orquestra Vermelha”, Anne Nelson reúne fatos dos períodos antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial destacando a ascensão de Adolf Hitler e como os grupos de resistência (em especial a Orquestra Vermelha) se organizaram frente à política genocida nazista.

Anne Nelson escreve sobre uma história sobre resistência e esse é o principal diferencial da obra. Geralmente temos uma imagem sobre a Segunda Guerra Mundial influenciada por filmes, séries de TV, jogos de vídeo-game ou até mesmo pelos livros didáticos das nossas aulas de História de que havia certa homogeneidade do povo alemão durante o período nazista.

Como qualquer trabalho destinado à investigação histórica, Nelson realizou uma pesquisa para responder questões muito importantes e que considero essenciais para entendermos um conflito como a Segunda Guerra Mundial fugindo de quaisquer explicações simplistas e generalizantes: “será que todos na Alemanha eram nazistas?”. Para muitos, o “não” pode ser uma resposta óbvia, mas uma visão generalizante construída através de um senso comum cria uma imagem da Alemanha homogênea onde o nazismo era compartilhado por todos. Talvez fosse assim na propaganda nazista, mas nem todos aceitavam a ideologia imposta por Adolf Hitler.

Capa Orquestra Vermelha AG V2.inddA autora chega a ponderar sobre a forma como a população tende a se dividir durante períodos de ditadura militar: entre aqueles que apóiam a ditadura, aqueles que não gostam dela, mas convivem, e aqueles que não gostam e procuram resistir. “A Orquestra Vermelha” é uma história daqueles que preferiram resistir.

Anne Nelson conta a história da Orquestra Vermelha tendo Greta Kuckhff como sua personagem principal. A partir de anos de pesquisas e entrevistas, a autora conseguiu montar a trajetória do grupo revelando seus agentes primários e secundários, combatendo as visões deturpadas do grupo construídas durante a Guerra Fria e fazendo justiça aqueles que resistiram ao terror nazista ariscando suas vidas.

Não aceitando a escalada do partido nazista na Alemanha e um futuro tenebroso que surgia no horizonte um grupo de amigos formado por intelectuais, artistas e funcionários do alto escalão do Reich, militares, pessoas de diferentes vertentes religiosas e ideologias políticas resolveram oferecer resistência denunciando os crimes de guerra cometidos pela Alemanha e protegendo seus amigos judeus.

No centro deste grupo, destacam-se o papel de Harro Schulze-Boysen e Arvid Harnack, assim como outros que fizeram parte do grupo de resistência que procurava derrubar o nazismo por dentro, afinal de contas, muitos dos membros da Orquestra Vermelha tinham cargos importantes e estratégicos dentro da burocracia estatal e acesso a informações sigilosas essenciais para virar o jogo.

Harro Schulze-Boysen, por exemplo, fez parte da Luftwaffe trabalhando na divisão de informação da aeronáutica. Sua esposa, Libertas Schulze-Boysen, da elite prussiana, trabalhou na Kulturfilm como agente publicitária cinematográfica e produtora, onde tinha acesso ao material que vinha dos fronts de batalha e pôde coletar provas dos crimes cometidos pelos soldados, dos genocídios realizados pelas tropas.

Fo na divulgação da verdade que a Orquestra Vermelha resistia ao nazismo. Através de folhetos espalhados clandestinamente durante a noite, queria alertar a população sobre as mentiras criadas pelo Estado. Coletando informações estratégicas sobre a movimentação militar alemã, os membros do grupo forneceram esses dados a vários agentes de países como Estados Unidos, Inglaterra e França. Inclusive avisaram os soviéticos (com quem mantinham uma rede de informações) da iminente invasão alemã a União Soviética que foi ignorada completamente por Stalin que só descobriu o quanto aquela informação era valiosa quando os nazistas já estavam invadindo o seu território.

À medida que Anne Nelson vai escrevendo os fatos e o modo como as informações coletadas pelo grupo muitas vezes não surgia o efeito desejado, fica difícil não pensar qual seria o rumo da Guerra se a Orquestra Vermelha tivesse obtido êxito. Apesar de seu “fracasso”, o papel do grupo não deve ser diminuído em sua importância, assim como qualquer outro movimento de resistência como o famoso movimento de “20 de julho” – o filme “Operação Valquíria” (2008) recria os fatos desse movimento – no qual militares de alta patente tentaram assassinar Adolf Hitler, que já havia sofrido outros atentados contra a sua vida.

A escrita de Anne Nelson não se aprende apenas na descrição de fatos de uma maneira fria, a autora também cria um clima de tensão e suspense que nos coloca na esfera apreensiva da época, compartilhando do que aquelas pessoas sentiram  por estarem resistindo aos nazistas, pois se suas ações fossem descobertas o destino só seria um: a morte.

É difícil não ficar apreensivo no momento em que o grupo é descoberto durante uma transmissão radiotelegráfica, captada pela inteligência alemã e pela Gestapo, contendo os nomes dos Kuckhoff e Libertas e seus respectivos endereços. A partir de então, Nelson vai nos levando aos dias que sucederam a prisão dos membros da Orquestra Vermelha, a reação de Hitler ao saber do movimento e os julgamentos forçosos que já estavam decididos antes das sessões começarem. Por ordem do Führer, todos deveriam ser mortos.

“A Orquestra Vermelha” de Anne Nelson é um livro essencial para qualquer um que se interesse por temas relacionados à Segunda Guerra Mundial. Diferente das tramas de filmes ou de livros que se destacam a esmiuçar as técnicas de combate e linhas de frente dos fronts de batalha, aqui temos uma história de resistência. De um grupo formado por pessoas de diferentes pensamentos políticos, religiosos e sociais, mas que se uniram para resistir ao nazismo. “A Orquestra Vermelha” é fundamental para quebramos visões homogêneas sobre a Alemanha nazista e fazer justiça aqueles que não baixaram a cabeça para a autoridade de Hitler.

Um livro essencial para qualquer um que se interesse por temas relacionados à Segunda Guerra Mundial

A ORQUESTRA VERMELHA
A história real do grupo de amigos que resistiu a Hitler
Nelson, Anne

Ano: 2015
Gênero: História
Páginas: 490
EAN: 9788501087744
Preço: R$ 58,00

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