Review Waking Mars

Ou como fazer um planeta adormecido explodir de vida alienígena

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  sábado, 03 de outubro de 2015

Agora que a NASA confirmou a descoberta de água líquida na superfície de Marte, este é um ótimo momento para falarmos deste simpático joguinho sci-fi o qual aborda justamente a descoberta de vida alienígena no planeta – mais especificamente em 2097.

Originalmente lançado para iOS em 2012, Waking Mars tem como motivação inicial encontrar a sonda 0CT0, que após enviar algumas informações importantes sobre o conteúdo das cavernas marcianas, repentinamente interrompe suas transmissões. É a partir daí que acompanhamos as andanças e pesquisas quase solitárias de Liang Qi, um astrobiólogo chinês e introspectivo que ocasionalmente se comunica com sua única colega e cientista no local, Amani Ronga. E também com ART, uma inteligência artificial meio engraçaralha que funciona como intermediário na análise dos dados e conclusões de todo um ecossistema auto-sustentável que se desdobrará com o passar da aventura.

waking mars screenshot

A mecânica-base do jogo é, assim, um sistema de plantar “sementes” para que a biomassa de cada fase alcance um valor mínimo e permita a passagem para a próxima. Há várias espécies que são reveladas à medida que prosseguimos, podendo agir de forma simbiótica ou hostil entre elas – e é com base nestas informações que você vai escolher onde e o que plantar. É quase um puzzle ambiental, como acontece na série Portal.

Não que a jogabilidade se sustente muito sozinha; a princípio uma tarefa bastante tranquila, ela eventualmente torna-se repetitiva e fica mais laboriosa ainda caso você queira ver os possíveis três finais do jogo. A maior graça de Waking Mars reside em três pontos: sua ênfase de gerar vida como premissa central, seus personagens e sua preocupação de ser cientificamente crível, a ponto se ser até mesmo didático em termos de geologia e na classificação de seres vivos. Tudo é catalogado: reprodução, fraquezas, dieta, hipóteses quanto à forma com que evoluíram… Não é obrigatório ler tudo isso, mas ajuda bastante.

waking mars solar system

Será que isso é uma réplica do sistema solar? O que será que causou tal formação, vida inteligente ou fenômenos naturais? Questionar é um dos princípios elementares do ceticismo, e também onde o jogo mais se baseia.

waking mars liang smiling

Uma discussão antiga que só passou a ganhar os holofotes da indústria de jogos nos últimos anos é a representatividade dos personagens no meio, especialmente em relação a mulheres e não-brancos. Neste aspecto, Waking Mars é um caso incomum de título ocidental que, propositalmente ou não, faz isso muito bem: tanto Liang quanto Amani são exemplos positivos com personalidades fortes e complementares, além dos dois serem igualmente relevantes à narrativa.

Mais do que um cientista sério, à medida que Liang permanece explorando as cavernas de Marte, maior é o seu fascínio por elas e mais reflexivo fica ao lembrar sobre o quão impactante essas descobertas afetarão nossa concepção do que é a vida e o Universo. Amani, por sua vez, tem um jeitão mais descontraído, discute a análise dos dados coletados pelos robôs e, mesmo não fazendo parte da equipe de engenharia, sabe programação o suficiente para ter mudado as configurações de 0CT0, o que se mostrou fundamental para a descoberta de vida inteligente no planeta. E tudo isso fica muito melhor com o voice acting profissional que Waking Mars recebeu em sua versão repaginada, sem dúvidas elevando a qualidade do jogo como um todo.

Isso dito, dê uma chance a ele. Fora os problemas de repetição mencionados, a segunda obra da Tiger Style é uma experiência refrescante diante dos clichês mais batidos possíveis sobre vida alienígena, atmosférico e munido de uma história instigante à sua forma. Joguei no PC, mas li em outros lugares que as versões para iOS/Android são melhores.

waking mars liang and amani

 


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