Review The Longest Journey

Mano, como eu amo esse jogo

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  quinta-feira, 09 de julho de 2015

Escrito e produzido por Ragnar Tørnquist, The Longest Journey é o início de uma maravilhosa saga lançada pela norueguesa Funcom, hoje um estúdio voltado para MMORPGs como The Secret World e Age of Conan. Trata-se de um adventure bem tradicional, com direito a puzzles muito sem noção, como o relativamente famoso Rubber Duck; eventual combinação de itens e inúmeras linhas de diálogo. Mas ele brilha na história e, principalmente, em seus personagens. O segundo título da sequência chama-se Dreamfall (2006) o terceiro, Dreamfall Chapters (2014), atualmente lançado no mesmo formato episódico que a da Telltale.

Comecemos pela April Ryan, uma garota do interior que vive numa pousada localizada dentro de uma metrópole do século 23 e é estudante de Artes Visuais (rolou até uma identificaçãozinha aqui, hahaha). Para mim, ela é uma das, senão a melhor e mais bem-escrita protagonista feminina já concebida para videogames. Sério. Embora cada vez mais estejamos presenciando protagonistas incríveis nos últimos anos, como as boas surpresas da E3 deste ano, poucas chegam a receber uma profundidade tão significativa de psiquê e personalidade exploradas.

Em menos de meia hora de gameplay, April faz a ponte necessária para o jogo tornar-se engajante, exprimindo muito de seu carisma e personalidade o qual se sustentará até o fim. Há momentos divertidíssimos em que ela faz algum comentário cheio de ironia ou espirituoso, mesmo em situações um tanto sérias. Ela é, sem dúvidas, uma jovem de 18 anos muito crível, do tipo que você gostaria de ter como amiga. E a qualidade da escrita fica mais foda ainda com a dublagem excepcional de Sarah Hamilton e a qual está participando na continuação, felizmente.

Um exemplo de situação engraçada é quando April precisa distrair uma mulher para passar numa porta sem autorização para acessar um computador com dados importantes. É um puzzle meio chatão, mas os diálogos são hilários:

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Quase todo mundo com quem você interage, por mais secundário que seja, é surpreendentemente carismático. Dentre eles, há dois dos melhores amigos de April, que frequentam a mesma faculdade: Charlie e Emma. Charlie é um cara adorável e gentil que trabalha no The Fringe Café como atendente e é estudante de dança. Já Emma é especializada em “holoescultura” e fica de altas fofocas com a April, além de flertar com frequência. Os três vivem juntos na mesma pousada, The Border House.

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A história por trás desse título é tão bacana que merece um parágrafo à parte. Fiona, dona do local e campeã dos diálogos espirituosos, conta que ela e sua tímida namorada, Mickey, se inspiraram nas pousadas inglesas clássicas do interior e decidiram adotar o formato. A ideia é que ele serviria como refúgio pra jovens estudantes e artistas pobres, e o “borda” no nome se dá tanto pela dicotomia espírito/tecnologia quanto pela pousada estar entre Venice e Newport.

Contada como um enorme flashback, a história começa quando o chamado “guardião do Equilíbrio” some repentinamente do seu local. Em seguida, logo depois que April nos é apresentada, ficamos sabendo que existem dois mundos interconectados e os quais começam a passar por problemas justamente pela falta do receptáculo necessário pra manter o Equilíbrio nos eixos. April, por sua vez, se envolve no problema a partir do momento que viaja involuntariamente para o mundo mágico de Arcadia durante um sonho. Isso vai se intensificando com o tempo e mais informações são reveladas através de um homem excêntrico de sotaque carregado chamado Cortez. Sua postura com a garota nas primeiras horas do jogo é bem sintetizada quando diz: “You see, señorita, mystery is important”.

A partir daí, acompanhamos a protagonista com seu grande dilema de carregar uma responsabilidade absurda nas costas (de salvar dois mundos), arriscar a pele várias vezes em prol das outras pessoas/criaturas, lidar com seus demônios internos – especialmente envolvendo o pai, outrora violento – e com um poder de viajar entre as duas realidades que sequer tem domínio. Além de, é claro, ser vista por muitos como a provável nova guardiã do Equilíbrio, substituído a cada mil anos. A pressão vem praticamente de todos os lados.

April e Crow, um pássaro falante que atua tanto como "alívio cômico" quanto sidekick na história.

April e Crow, um pássaro falante que atua tanto como “alívio cômico” quanto sidekick na história.

Essa descrença diante de um mundo mágico, o atrito entre “ciência” (no sentido do senso comum) e magia, somado ao destino de mundos nas mãos de uma única pessoa pode soar bastante clichê (e soa mesmo). Mas confie em mim quando digo que o desenvolvimento da história vai muito além dessa humilde resenha, mostrando um lore riquíssimo para esse universo fantástico.

Nessa (realmente) longa jornada, durando pelo menos umas 20 horas e dividido em 13 capítulos, um monte de acontecimentos se desenrola no que equivale a cerca de uma semana no mundo de April. Mas é tanta coisa uma atrás da outra que eu, pelo menos, tive uma enorme dificuldade de acompanhar tudo =P o que eu escrevi aqui nada mais é do que uma mera fração do conteúdo do jogo.

Mesmo se a sua tolerância a adventures mecânica e graficamente datados não for das maiores, ou até mesmo se adventures não for sua praia, pegue um guia e dê uma chance ao jogo. De verdade. Ele é bom demais pra deixá-lo passar batido, e mais ainda se você também ama uma boa história salpicada de momentos engraçados.


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