Review The Last of Us

Só é uma pena ser um exclusivo, pois é uma obra-prima.

Eder Augusto de Barros
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  sexta-feira, 28 de junho de 2013

Desenvolvido pela Naughty Dog (da franquia Uncharted), The Last of Us é um exclusivo PS3 lançado oficialmente em 14 de junho.

No jogo, nós damos vida na maioria do tempo à Joel, um contrabandista, que perdeu grande parte de suas armas para outro contrabandista, Robert, que por sua vez, vendeu as armas à uma facção que se auto denomina Os Vaga Lumes (corrijam-me se não for essa a tradução, por favor). Para ter as armas de volta, Joel, aceita as condições da facção: escoltar a jovem Ellie de onde eles estão até um outro acampamento do grupo.

Agora cabe a Joel percorrer o país escoltando a garota e ainda se defender dos infectados e de humanos também, tudo isso com recursos limitados, porque dificuldade pouca é bobagem. Ah! Não pode deixar nada acontecer à Ellie também.

O game, antes de seu lançamento, teve praticamente nota máxima em todos os veículos mais importantes quando falamos de games, o que gerou um hype imenso para o jogo.

Confesso que antes desse hype todo eu não estava dando toda a atenção que o jogo merecia, estava mais ansioso para jogos como GTA IV e Watch Dogs. Jogos survivor nunca foram os meus preferidos. O hype fez com que eu olhasse para o jogo com outros olhos e foi uma grata surpresa.

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Eu só quero equipamentos simples, o suficiente para ir embora – Joel

The Last of Us é o novo título da Naughty Dog, depois de receber dois prêmios de “Jogo do Ano para PS3” por Unchated 2 e Uncharted 3 respectivamente, Uncharted 2 inclusive ganhou a categoria “Jogo do Ano“. Aliás, a empresa que está em parceria com a Sony desde o PS One, produzindo exclusivos, pela primeira vez coloca duas franquias numa mesma geração. Pela primeira vez a equipe de trabalho se dividiu em duas depois do lançamento do aclamado Uncharted 2, metade do time foi começar a trabalhar em The Last of Us, inclusive o criador da franquia Uncharted, e a outra metade ficou responsável por trazer à vida o fim da trilogia de Nathan Drake.

É impossível não comparar The Last of Us com a consagrada franquia já citada, aliás, é inevitável ficar procurando coisas parecidas. E existem algumas. O sistema de movimentação, de tiro e até a interface são bem parecidos com Uncharted 3. A ambientação tem um pouco também, muitos cenários são cidades engolidas pela natureza.

Uma situação bem característica de Uncharted e que se repete aqui é o fato de você explorar os mapas do jogo quando você chega à uma área que se parece com uma “arena” de tiro, você sabe que vai dar merda. Aqui até rola isso, mas está bem mais diluído, não é tão identificável, e geralmente é mais comum num combate contra humanos, os infectados podem aparecem em qualquer lugar.

Outra mecânica interessante ainda nas batalhas, é o fato de você ser um viajante sem recursos e muita vezes os recursos para o combate são limitados, poucas balas, armas fracas, e então você tem à seu favor todo o cenário, que diferente de Uncharted, não se resume apenas a “arena” então você pode se camuflar, se esconder, utilizar táticas stealth, interagir com o cenário utilizando garrafas e tijolos como arma, ou improvisando uma garrafa com bebida e um pano como molotov. Improvisar uma faca com um pedaço de qualquer coisa afiada para surpreender o inimigo, ou ainda improvisar uma bomba de destruição, ou uma bomba de fumaça que te ajuda a matar sem ser visto. Tudo com itens que você encontra em casas abandonadas e cenários do jogo.

O sistema de improvisação é realmente improvisação, você as vezes no meio de uma troca de tiros tem que realmente fazer um molotov, não basta ter os itens, isso torna a experiência muito mais real, e muito mais inteligente, o raciocínio rápido aqui te separa de concluir ou morrer tentando. Cada tiro disparado vale uma vida. O objetivo do jogo nunca foi a matança de zumbis em larga escala, e sim sobreviver, ser efetivo, completar a sua missão. Em termos estatísticos, eu por exemplo tive 59% de tiros acertados. Sou péssimo para mirar. E por não acertar tantos tiros, morri muitas vezes. Aliás, o sistema de estatísticas do jogo é bem legal, quando você termina pode ver todas as suas pontuações, quantas mortes, tiros disparados, tiros acertados, mortes com molotov, com faca, com garrafa, com tijolo, com arma x, com arma y, e assim por diante.

Os melhoramentos de armas são bem interessantes também, ao longo do jogo você vai encontrando novos tipos de armas com humanos que você derrota, e como todo sobrevivente de um apocalipse zumbi, as armas são bem preciosos, mesmo que você não tenha balas, elas não são descartadas, no fim do jogo você parece um arsenal ambulante, o que mesmo quando parece exagerado, é real, vejamos: estou numa jornada de atravessar boa parte do país, tenho uma semi-automática, estou sem balas, descarto a arma? Claro que não. Essa é a sua mentalidade, essa é a mentalidade do Joel. Em terra de cego quem tem um olho é rei.

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Ela é só uma carga, Joel – Tess

The Last of Us tem gráficos lindos, jogabilidade interessante, boa interatividade com o cenário, mas o que realmente eleva o game à um nível superior de outras obras é a sua história, e a maneira de ser contada. O jogo saí do patamar de apenas entretenimento e te faz realmente sentir emoções pelos personagens. Você realmente vai ficar preocupado com a Ellie vez ou outra durante o game. Você realmente vai se sentir desesperado com situações e obstáculos ao longo do caminho. O game consegue expor a situação de Joel e te colocar um puta problema na mão, num mundo pós-apocalíptico, com zumbis. Um jogo que faz algo parecido foi Batman Arkham City, que te fez sentir o que o Batman sentiria naquelas situações. Mas ser o Baatman é legal. E ser um sobrevivente de um apocalipse zumbi sem recursos e com uma garota para proteger, é legal?

O tom dramático do jogo ajuda muito nessa imersão, por muitas vezes as situações que te deixam sem palavras, deixam também os personagem e somos contemplados com sons ambientes como o farfalhar das árvores ou o som de algum pássaro. Te ajuda a digerir a situação. Assim como Joel, você não vai abraçar a causa e ter um relacionamento frio e calculista assim de primeira. Leva tempo, tem o background, a situação, tudo influencia, tudo é bem construído para influenciar.

A trilha sonora de The Last of Us é da autoria do argentino Gustavo Santaolalla, vencedor de dois Oscars consecutivos por O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, de 2005) e Babel (Alejandro González Iñárritu, 2006) e foi indicado ao Grammy Awards de 2013 pela trilha sonora de The Last of Us, que é ótima. Não é uma trilha sonora marcante, pois o jogo se segura muito nos momentos de silencio como eu já citei no parágrafo anterior, mas quando as notas do violão de Gustavo aparecem no jogo, principalmente nas cutscenes, são intensos, e são característicos do interior americano, country music, provavelmente a reflexão de Joel que queria ser cantor quando mais novo.

Os gráficos de The Last of Us dispensam comentários, todo mundo já babou pelos trailers e pelos vídeos de gameplay, é realmente lindo, com destaque para as cenas em que você utiliza apenas lanterna no escuro, te faz virar homem de você não for. E também devemos dar o destaque para a arquitetura tomada pela vegetação. A equipe do jogo diz que se inspirou bastante em Onde os Fracos Não Tem Vez dos irmãos Cohen e em Eu Sou a Lenda  para criar a ambientação, além das HQs de The Walking Dead e do livro City of Thieves. Do documentário Planeta Terra do BBC que mostrou as famosas formigas infectadas com o fungo Cordyceps unilateralis, eles tiraram a ideia da epidemia, que é basicamente o mesmo vírus do documentário, que cresce no cérebro dos seres humanos, deformando-os daquela maneira.

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Não pode ser muito pior que aqui, pode? – Ellie

Querida, você está num num mundo pós-apocalíptico, onde humanos infectados te usam como comida, e pessoas te matam por comida. Sempre pode ser pior. Sempre vai ser pior.

Esse é um grande acerto de The Last of Us, você realmente está ali, tem de enfrentar as consequências, tem que sobreviver e tem que vencer. E sempre vai ser pior. Não é porque é um game que as coisas vão melhorando conforme as vitorias vão acontecendo, como eu já disse, cada tiro disparado é uma vida, isso não quer dizer que você melhora, e sim que ainda não é sua vez de morrer. Não há boas saídas.

Faça os tiros valerem à pena…- Joel

Em certo momento do jogo eu estava achando o jogo um pouco monótono, durante cerca de 20 minutos eu enfrentei 3 grupos de pessoas e avancei para lugar iguais, foi uma sequência de mais do mesmo. Nesse momento você deve estar pensando: “Que bosta, fazer a mesma coisa o tempo todo?”. Pois e, eu tava pensando isso. Até que eu tive de entrar sozinho num prédio enquanto a Ellie me esperava, já via só pessoas há muito tempo, esqueci dos zumbis, entrei tranquilão, e tomei o primeiro susto, mas beleza, improviso afiado, dois zumbis down, encontro o cartão, encontro a porta, a porta não abre porque precisa ligar o gerador. Encontro o gerador e ligo. Nesse momento eu tomei o maior susto que já tomei jogando vídeo-game, uma porta automática abre ao meu lado, o que era silencio é tomado por zumbis nojentos gruindo, e eu to do lado do gerador. Que faz barulho. Alvo fácil, rápido e encurralado. Eu consegui passar esse sufoco sem morrer, o que foi estranho já que eu morri pelo menos uma vez em quase todas as sequências. Mas parei de jogar por aquele momento quando acabei o evento. Meu coração estava aos pulos, minhas mãos tremiam. E que fique claro, o jogo nunca teve como objetivo assustar.

Já que estamos na parte das coisas piores, vamos deixar claro que o jogo não é 100%, tem problemas, todo jogo tem problemas. Felizmente, The Last of Us tem apenas aqueles problemas de resposta, as vezes o call button aparece, você aperta e não resulta em nada, num jogo stealth isso as vezes causa algum stress pois você faz todo o trabalho de chegar perto da vitima sem chamar atenção e o botão não funciona de primeira, a vitima te vê e o plano foi estragado. Não é recorrente, mas aconteceu uma ou duas vezes. Acredito que deve ter acontecido com mais pessoas.

Outra coisa que me desagradou, mas isso sou eu como pessoa física, é a dublagem nacional, mas para entenderem o meu ponto de vista, tenho de dar algum background. Eu moro em Portugal há quase 7 anos, e joguei a versão portuguesa do jogo, que também é dublada. E eu achei a dublagem ótima. Vícios de linguagem, palavrões, uma boa interpretação dos personagens, realmente um exímio trabalho. E quando coloquei lado a lado com a brasileira, senti uma qualidade muito inferior na versão tupiniquim. Parece que o texto está sendo lido, muito robótico. Obviamente para mim o português de Portugal soa bem, afinal, são 7 anos ouvindo o sotaque. Mesmo assim, vou deixar dois vídeos como comparativo para vocês, e peço por opiniões da dublagem brasileira, estou avaliando com base em vídeos.

Brasil

Portugal

Acho que tudo acontece por um motivo – Ellie

Não quero falar muito dos destinos criados na história, eu já disse que a narrativa é a alma do jogo. Os personagens são o coração e o pulmão. E para terminar com analogias anatômicas, prepara o estomago, mas não para os infectados, mas sim pelos socos que você vai receber.

E não fique com vergonha se em vários momentos do jogo, seus olhos lacrimejarem, eu sei que é emotivo, mas você pode sempre dizer que ficou muito tempo sem piscar.

O jogo te faz pensar a todo momento no que o ser humano é capaz quando enfrenta situações extremas, e se depois de jogar The Last of Us você não ficar com a certeza que num apocalipse zumbi o perigo são os sobreviventes, eu não sei o que mais te fará chegar a essa conclusão. Os zumbis são animais, são concebidos ideologicamente para agir como animais. O ser humano é racional, ou deveria ser, deveria agir com frieza, calma e organização, mas nem sempre é assim. E quando é, fica a dúvida, deveria ser? Não torna um humano mais perigoso por isso? Como você enxerga as atitudes. Em certo momento do jogo, um garoto faz a seguinte pergunta: Mas é certo matar os infectados? Será que eles não estão como se fosse em coma, aprisionados em suas mentes? O que será que eles sentem?

Tudo definitivamente acontece por algum motivo.

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Depois de tudo que passamos, de tudo que eu fiz, não pode ser em vão – Ellie

E não é, Ellie, com certeza não é. The Last of Us é com todas as letras o melhor jogo da geração, não tenho dúvidas disso. Se Uncharted 2 era considerado por muitos o detentor dessa posição, o novo título da Naughty Dog é muito superior. É emocionante acabar o game, ver o destino daqueles dois personagens, as consequências de tudo que aconteceu. Refletir sobre a experiência que você viveu enquanto jogou.

Vale cada uma das 15 horas de jogo, cada uma das longas cutscenes, e para quem não tem a oportunidade de jogar, vale procurar por edições que mostram o jogo como filme no YouTube. É melhor do que qualquer filme com zumbis ou infectados semelhantes que você já viu. Satisfação garantida ou o seu tempo de volta.

E para não dizer que não falei das flores, o multiplayer de The Last of Us, consegue recriar batalhas campais que você faz no modo campanha com sucesso, apesar de pouco tempo de jogo, acho que será bem divertido, não tem muita diferença. A diferença é que você não anda rumo à uma história, mas a jogabilidade é igual, improviso, melhoria de armas, combate com possibilidade de usar o cenário. Vai  servir para revisitar o universo do game.

The Last of Us saiu exclusivo para PS3 em 14 de junho e você pode comprá-lo aqui.


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