Review Shadowrun Dragonfall: Director's Cut

Ou como arranjar tretas em Berlim com dragões e decisões morais

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dragonfall é, em diversos aspectos, um salto extraordinário de qualidade em comparação ao título que o antecedeu, Shadowrun Returns. Inclusive, se você não conhece nada a respeito da franquia, recomendo muito que dê um pulo nesta resenha na qual exponho brevemente o histórico de Shadowrun e as mecânicas/estruturas básicas em comum entre os dois jogos.

Originalmente pensada para ser apenas uma cidade extra de Returns – e cuja locação se deu por votação no Kickstarter –, Dragonfall traz uma história inédita na cidade de Berlim, em 2054, na qual a anarquia está fortemente presente através da Flux-State. Possivelmente iniciada não muito depois da revolução anarquista de 2039, trata-se de um sistema estável no qual partidos e facções menores dentro do Estado lutam contra aqueles que tentam adquirir muito poder, tornando-o efêmero. As corporações, é claro, devem ser cautelosas ao pisar neste terreno.

dragonfall screenshot

Tudo começa quando você e sua equipe recebem uma missão para se infiltrar na luxuosa Mansão Harfeld, acessar um cofre e pegar os dados dele. Simples, não é? O problema é que não demora muito pra perceber que era uma armadilha e a líder, Monika Shäfer, uma exímia decker e um tanto cofiante demais das coisas, morre brutalmente em dado momento e os demais ainda se deparam com um ork enorme de armadura. Sua única opção, assim, é fugir para seu esconderijo em Kreuzbasar e descobrir quem ou o quê matou Monika, procurando primeiro pelo paradeiro do cliente que te contrataram, Green Winters. Mas o buraco é muito mais embaixo e você descobre, ao assistir alguns antiquados DVDs gravados pelo próprio, um evento traumático (mas quase esquecido) na história da Alemanha conhecido como Dragonfall.

Feuerschwinge, uma poderosa dragoa, “acordou” durante o Awakening de 2012 (que é o que deu origem aos metahumanos) e tocou o terror ao longo de quatro meses, matando dezenas de milhares de pessoas, até finalmente ser morta por Dr. Adrian Vauclair. Bem, isso foi o que divulgaram na época, mas diversos rumores e indícios apontam que ela está tão viva quanto antes, tramando debaixo dos panos. Tanto essa possibilidade quanto a morte de Monika são as principais motivações para o andamento da história (que, como deu pra notar, é realmente um lado crucial na experiência de jogar os Shadowrun’s criados pela Harebrained Schemes).

A novidade mais óbvia do jogo, como já mencionado, é a presença de um grupo fixo em que cada membro traz uma personalidade e backstory bastante definidas. Se antes você contratava gente meio aleatória que se resumia a um rosto, dessa vez dá até mesmo pra interferir na vida deles através de sidequests, podendo ajudá-los e se aprofundar cada vez mais nas histórias dos seus companheiros.1

dragonfall team

Eiger é uma excelente sniper vindo de um longo período carreira militar, tornando-a bastante agressiva e rígida em termos de estabelecer regras e ordens; ela também é tão ou mais afeiçoada à Monika que os demais. Glory, por sua vez, é uma médica especializada em biotech e cujo corpo, feito quase de cromo puro, é reflexo de um passado extremamente trágico que ela preferiria ignorar. Já Dietrich é um xamã de meia-idade de fala mansa que já participou em uma banda de punk rock, e Blitz, que você pode ou não querê-lo no grupo, é um decker até então membro de uma gangue e endividado até o pescoço. Você e os quatro trabalham sob as orientações de Paul Amsel, um Fixer, que atua como um intermediário entre shadowrunners e contatos interessados pelos seus serviços, em especial quando precisam de discrição.

(Ah, Dante é o cachorro de Monika. Uma gracinha, juro.)

Monika Shäfer.

Além de tudo isso, durante as missões, às vezes acontece de alguém da sua equipe não aceitar passivamente determinada tarefa, questionando ou concordando com suas decisões – é meio frequente rolar dilemas morais impactantes à medida que prosseguir no jogo. Um exemplo acontece quando você se depara com uma espécie troll zumbi lotado de cyberware, mas agonizando por dentro; Eiger irá preferir matá-lo a deixá-lo sofrendo dessa forma. Ou ao encontrar o sobrinho de Ditetrich em um grupo de ódio aos metahumanos, podendo decidir seu destino.

Seu personagem, assim, é definido tanto por tais escolhas quanto pela sua postura durante os diálogos, podendo se tornar uma pessoa bastante empática ou um prepotente egoísta que fará tudo por uns bons trocados. Ou até mesmo um meio-termo, por que não?

Só esse desenvolvimento narrativo todo é suficiente pra colocar as mãos em Dragonfall, mas suas qualidades não param por aqui. Ele é bem menos linear do que Returns e mais generoso na quantidade total de missões, o que me parece uma resposta direta às reclamações que vários faziam do título anterior (ser curto, em especial). Esse volume a mais de conteúdo acaba se justificando na história: você precisa de informações que só uma certa Alice tem recursos pra encontrar… se pagar a bagatela de 50 mil nuyens a ela. Pela proporção que as coisas gradualmente tomam, o valor até que não parece tão absurdo.

Quanto ao gameplay, o sistema tático foi melhorado ao tornar o cálculo de dano mais previsível ao explicitar o tipo de cover e quantidade de armor/body que os inimigos possuem. Assim, você sempre saberá que seu dano normal cairá pela metade devido a um cover mais sólido ou que terá bem mais chance de crítico ao flanqueá-los, por exemplo. Dragonfall não tem um tutorial propriamente dito mas, em geral, é consideravelmente intuitivo e, assim como Returns, uma ótima porta de entrada para jogos estratégicos em turno cover-based. O único problema que eu poderia apontar é que nem sempre fica óbvio se a sua visão do alvo está ou não bloqueada ao se deslocar de um ponto pra outro, o que já me rendeu alguns momentos ligeiramente irritantes ao gastar o turno de um personagem à toa. Nem sempre é grave, mas às vezes pode resultar em uma desvantagem significativa.

Os pontinhos brancos representam o armor e o círculo vermelho no chão ganha outro formato quando o inimigo está protegido pelo cover. O sistema do inventário foi melhorado ao permitir o empréstimo de itens (e, ao pegar itens em excesso, mandá-los diretamente para seu esconderijo). Pena que só dá pra fazer isso antes de começar uma missão... No Director's Cut, é possível ter um leve controle nos poderes de cada personagem da equipe ao direcionar quais devem ser seus pontos fortes. Se fizer uma missão opcional oferecida pelo médico de Kreuzberg (e tiver uma boa grana), dá pra usar melhorias físicas menos invasivas que o cyberware comum, algo particularmente vantajoso pra quem usa magia.
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O sistema do inventário foi melhorado ao permitir o empréstimo de itens (e, ao pegar itens em excesso, mandá-los diretamente para seu esconderijo). Pena que só dá pra fazer isso antes de começar uma missão...

Fora esses problemas mais ou menos pontuais, como alguns bugs insistentes ou os loadings longos demais entre uma fase e outra, ou mesmo a relativa restrição de abordagens ao longo das missões (que em alguns casos dá pra resolver na base da lábia ou negociações, um aspecto ampliado no posterior Hong Kong), Dragonfall é uma pequena pérola que qualquer fã de cyberpunk ou uma história de qualidade deveria, no mínimo, conhecer. Ele é memorável demais pra deixar passar batido, e com uma jogabilidade sólida o suficiente para entreter na maioria das vezes.


  1. Inclusive, fica a dica: Você deve falar com cada um deles ao final das missões normais querendo mesmo se intrometer. Só depois de repetir isso três ou quatro vezes é que as sidequests são eventualmente liberadas. Se não fizer isso, simplesmente perderá a chance de fazê-las.


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