Review Painters Guild

Ou como viver na pele de um possível artista na Renascença

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  terça-feira, 01 de setembro de 2015

Na primeira vez que soube desse jogo, lá pelo ano passado, tive um momento irrefreável de euforia. Tudo porque Painters Guild, criação do porto-alegrense Lucas Molina, traz a proposta única de simular mais ou menos a vida de pintores italianos a partir do século XIV, seu processo de aprendizado, tendências artísticas, criação de uma guilda e, dessa forma, exigindo uma boa dose de estratégia pra sobreviver ao gerenciar tanta coisa ao mesmo tempo.

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Nunca tinha visto um simulador como esse e não deixa de ser mágico poder jogar algo diretamente relacionado às suas aspirações profissionais. Além da sua originalidade, Painters Guild é um jogo cativante, havendo até mesmo certa preocupação em precisão histórica num sentido amplo.

No início, você escolhe a aparência do seu personagem, se ele será homossexual (servindo quase que um “modo hard” porque você pode ser condenado à morte a qualquer hora e mais de uma vez) e uma das três cidades disponíveis na qual montará sua guilda. Cada local possui pequenas diferenças de vantagens e você ainda ficará a par de alguns eventos históricos, trazidos por mensageiros.

Um dos tantos eventos aleatórios nada agradáveis que pode acontecer com membros da guilda - indo desde acusações de sodomia até por gamblings não pagos.

Um dos tantos eventos nada agradáveis que pode acontecer com membros da guilda – indo desde acusações de sodomia até por gamblings não pagos.

A partir daí, começa uma corrida incessante em conseguir manejar os custos de itens, tanto para estudos quanto para produção de tinta, além de conseguir clientes o suficiente pra pagar as taxas anuais da guilda, contratar eventuais aprendizes (inclusive gente famosa, tais como Caravaggio e Michelangelo), expandir o espaço da guilda e, uma das piores partes, pagar por imprevistos. Alguém adoeceu e está quase morrendo? Foi acusado de algo? Pague 300 florins ou vai ter muito mais chance de morrer ou mesmo ficar vários dias atrás das grades, perdendo parte do prestígio como penalidade.

Esta questão da aleatoriedade pode ser complicada e cheguei a ver minha segunda guilda falir em pouco tempo de tantos problemas aparecerem um atrás do outro. A derrota é certa quando você passa cada ano sem poder pagar as despesas, fazendo com que os artistas saiam um a um da guilda. Já em uma segunda tentativa com o mesmo save eu tive um pouco mais de sorte, e finalmente consegui dinheiro suficiente pra começar a expansão e contratação de jovens artistas. Quase tudo é caro e só quando gente bem rica faz encomendas é que você terá estabilidade financeira por algum tempo. Ao mesmo tempo, tal estabilidade pode tornar-se “ruim” porque, quando ela dura por um bom tempo e quando sua sorte está alta, boa parte do sentimento estratégico enquanto simulador de gerenciamento se perde. Nessa situação, a jogabilidade se resume mais a uma repetição quase mecânica das tarefas familiarizadas.

É extremamente interessante notar de como as referências históricas não se resumem a eventos ocasionalmente anunciados como um fator não-interativo: muito das mecânicas se constitui delas – às vezes com explicações, outras não. Por exemplo, quando Leonardo da Vinci ainda era aprendiz de Verrocchio, ele só pintava detalhes mais específicos e “mais simples” nas obras de seu mestre, como assistente, além de outras coisas como misturar as tintas. As duas coisas estão devidamente intrincadas no gameplay, atuando como um “jogo histórico sem ser pretensamente didático” e é uma influência direta dos títulos os quais inspiraram Molina. Essa é, indubitavelmente, uma das maiores qualidades de Painters Guild e só isso já vale a pena experimentá-lo.

Às vezes sua guilda será chamada para pintar afrescos em igrejas e palácios, algo que também demanda estratégia no posicionamento dos artistas nos tiles.

Penso que o maior problema que vejo no jogo, porém, seja a falta de clareza para certas informações que influenciam diretamente na qualidade do seu progresso, como as características de cada artista  (“rápido”, “discreto”, “preguiçoso”, “esperto” etc). Tais traços definirão a rapidez da sua pintura/aprendizado, se você vai se meter em brigas ou não… mas você só aprende onde e o quanto eles modificam o gameplay ao colocar o cursor em cima das palavras. Foi uma descoberta totalmente involuntária e foi só dessa maneira que me dei conta da profundidade estratégica presente nele. Mesma coisa na hora de contratar artistas adolescentes, em que cada um vem um nível X de talento, mas não há nada que aponte exatamente quais as diferenças de um pra outro.

Independentemente desses detalhes, nada disso tira o brilho de Painters Guild e nem de sua originalidade. Sem dúvidas foi uma experiência divertida e esse é o tipo de jogo que, não fosse pela barreira do idioma, seria um ótimo exemplo de material em sala numa aula de História da Arte. Não poderia recomendar menos, especialmente se você também for um artista para se sentir, digamos, representado. :)

Recomendo também uma olhada no jogo anterior e gratuito de Lucas Molina, Avant-Garde!

Saiba mais sobre o autor:

Como um jovem gaúcho está contando a História da Arte através dos videogames (Arena IG)

História da arte em jogo (Nonada)

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Painters Guild está disponível para Windows. Esta análise foi escrita a partir de uma key cedida pelo autor.


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