Review Eidolon

Ou: como personificar a solidão com um cenário sem fim.

Taís Fantoni

Taís Fantoni
@taisfantoni

  segunda-feira, 29 de junho de 2015

Devido à sua distância de um farol, seus órgãos vitais estão propensos a mudanças extremas, incluindo a morte.

Estamos em algum lugar na Washington Ocidental, mais ou menos próximo à cidade de Bellevue – e o que sobrou de Seattle – no ano de 2400 e pouco. À sua volta, só há mato, árvores, cogumelos e uma densa neblina, abocanhando quase toda a visão da floresta. Há uns passarinhos aqui e uma raposa ali. Com sorte, verá um cervo alguns metros à frente.

Eventualmente você encontrará o que já foram prédios um dia e um punhado de torres relativamente alinhadas. Parece um cenário pós-apocalíptico, mas é mais preciso usar o termo pós-humano, empregado pelos próprios devs. Afinal, não existe uma mísera alma viva nesse lugar, não importa o quanto você ande pelas redondezas. E é este todo o cenário de Eidolon, o primeiro jogo (comercial, ao menos) da jovem Ice Water Games.

eidolon-predioÀ primeira vista ele pode se parecer com um survival game, mas todas as mecânicas de sobrevivência mais me parecem uma “desculpa de interação” do que algo realmente importante ao tom do jogo. Você eventualmente encontra itens importantes como uma vara de pesca, uma bússola, um mapa, arco e flecha e, com sorte, um binóculos. A comida é tão abundante no começo que já joguei várias frutinhas fora após estragarem, ao contrário da carne de peixe e de raposas que acumulei, por demorarem mais para perecerem. Predadores existem, mas como todo o resto da fauna, mal aparecem diante do cenário gigantesco de Eidolon. Em outras palavras, tomar alguns poucos cuidados (não se machucar e nem congelar) é o suficiente pra se manter vivo por um longo período. Morrer é difícil e, se acontecer, você apenas reaparece em um pântano peculiar, desorientando-se. Ferir-se ou adoecer é bem pior, porque te faz comer e dormir com muito mais frequência.

Ao dormir, você sonha com versos falando sobre Eidolons, que significa “uma imagem ou uma representação de uma ideia; representação de uma forma ideal” ou simplesmente uma aparição de entidades reais ou imaginárias. Esses versos, inclusive, foram escritos por Walt Whitman e publicados no livro Folhas de Relva.

Ah, então isso é um Proteus com uns lances de sobrevivência?“, pergunta meu leitor hipotético. Bom, não exatamente. O grande pilar que sustenta o jogo é uma história de ficção científica com ares místicos que conta, de forma bem fragmentada e esparsa, o que aconteceu com todo mundo e por que só ficou escombros e zilhões de esqueletos semi-enterrados. Como? Através de mais de 240 documentos espalhados por toda parte e atravessando os séculos; desde páginas de jornal, cartas, mapas e panfletos até fotos, notícias e entrevistas acessíveis por uma espécie de tablet do seu personagem.

O seu “objetivo” é, portanto, descobrir essa história toda. E é aí que vem a parte mais… problemática, digamos, do jogo. Sua única forma de locomoção é andar ou – se não estiver cansado demais – correr. Os fragmentos, em forma de cubos brilhantes, quase sempre estão bem distantes um do outro e aparecem em uma frequência absurdamente irregular. A orientação é mínima, pra alegria de quem detesta a maior parte dos tutoriais contemporâneos e quem tem um grande espírito desbravador. Isso significa que você vai andar.

E andar.

E andar mais um pouco.

E andar de novo, ad æternum.

Isso é, literalmente, uns 85% do jogo. Uma verdadeira lentidão para os padrões desse século, em que fazer nada por dois minutos na frente do PC beira o insuportável. Se os videogames estivessem num nível tecnológico de hoje nos anos 80~90, talvez Eidolon tivesse um pouco mais de apelo ao público – basta lembrarmos de antiquíssimos filmes cujo ritmo dá vontade de dormir. Ou das propagandas que duravam longos e impensáveis minutos para os parâmetros de agora.

Da minha parte, posso dizer que passei a achar o jogo um pouco mais engajante a partir do momento que estabeleci duas coisas: que eu começaria a seguir somente uma “linha narrativa” por vez e que tentasse ler os documentos assim que os pegasse. Funciona assim: Quase todo documento que você descobre vem com umas “tags” de palavras ou nomes de personagens mencionados no texto, como “Ada”, “Wild Girl” ou “Oldtown”. Clique nelas e uma bolota brilhante se materializará, correndo em disparada para a direção do próximo fragmento relacionado à sua escolha.

Esta estranha aparição some rápido de vista e não mostra o local exato do que você procura, o que, pra mim, é meio incômodo porque é simplesmente impossível saber qual distância você terá que percorrer pra chegar de uma ponta à outra. E se tiver um fragmento mais perto, mas em outra direção? Não tem jeito: a regra é você acabar repetindo o caminho em algum momento e à medida que encontra novas pistas – mesmo havendo fragmentos que se deslocam de lugar baseados na sua posição, como percebi empiricamente. Pior: a bolota mágica ignora solenemente se há imensos lagos gélidos no meio do caminho. Como resultado, leva VÁRIAS horas pra acumular um bom punhado de informações, e mais tempo ainda para “zerá-las”. Assim como bem apontaram na resenha do Kill Screen, “a natureza torna-se um pano de fundo para uma penosa caça ao tesouro”.

O mapa principal do jogo tem precisamente zero marcações óbvias de onde você está. Mas, depois de um tempo, certos símbolos começam a fazer sentido. Só é uma pena que não tenha uma opção de anotar suas descobertas em cima dele.

O mapa principal do jogo tem precisamente zero marcações óbvias de onde você está. Mas, depois de um tempo, certos símbolos começam a fazer sentido. Só é uma pena que não tenha uma opção de anotar suas descobertas em cima dele.

Levando tudo isso em conta, é difícil recomendar Eidolon. Apesar de sua atmosfera bastante envolvente, da trilha sonora (geralmente) boa e da história intrigante e bem escrita, é inegável de como o ritmo da suas ações pesa tanto para fruição do jogo – certamente uma consequência pelo fato dele ter sido produzido como um “manifesto”. Os momentos de contemplação e maravilhamento para com o cenário foram ínfimos em comparação aos de tédio, ansiedade e teimosia pra encontrar os malditos documentos, resistindo por várias horas (e o fato das construções e vegetação se repetirem zilhões de vezes não ajuda também). Ainda assim, é tentador pensar de como seria se o ambiente não fosse tão vazio, ou se o mapa fosse menor, ou se tivesse formas mais rápidas e justificadas de se locomover. Em suma: Jogue se você tem muita paciência e aprecia uma narrativa embutida de qualidade. Se tal exploração extrema for um grande repelente para você, dê uma olhada na wiki do jogo para, pelo menos, conhecer a qualidade dos textos.

Se quiser arriscar que nem eu, este guia te explica o básico no que tange à sobrevivência. Vale a pena comentar que, além das tags, existe também uma águia que quase sempre aparece sobrevoando perto da sua localização. Este único pássaro visível no céu supostamente te manda pro fragmento mais próximo, mas ele também ignora totalmente mudanças no terreno. Quase morri algumas vezes ao segui-lo….


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