Os fãs que ninguém precisa

Thiago Alencar

  segunda-feira, 06 de janeiro de 2014

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Os fãs que ninguém precisa

Como, ao tentar vender grandes experiências apaixonantes, os videogames se tornaram uma indústria de fanboys tomados pelo ódio contra tudo o que não leva a marca da sua empresa preferida, e, porque ser “fã” demais só machuca a quem você tanto ama

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A menos que você viva em uma caverna, notícias dos lançamentos dos consoles da “próxima geração” bombardearam o seu feed de noticias durante todo o mês de Novembro e Dezembro e provavelmente continuarão assim pelos próximos meses até que todo mundo simplesmente se acostume com a realidade do PS4 e Xbox One, assim como se acostumaram com o Wii U. Mas sabe o que provavelmente bombardeou seu feed também? Os tão conhecidos “haters”. E sim, haters dos 3 consoles porque, aparentemente, só não gostar de algo que uma empresa fez antes é, automaticamente, motivo pra despejar palavras de ódio contra um aparelho eletrônico (because… humans). Mas, vamos tentar entender o porquê disso?

Com os rumos que a indústria de videogames tomou e o aumento da população conectada em todo o planeta, parece ter havido não só um aumento da quantidade de gente que a cada passo não dado na direção que ela espera, se infla de um ódio mortal pela coisa x e a partir disso deseja só o fim e a destruição daquilo que defendia 5 segundos antes daquele fatídico anuncio. Por quê? É claro que nem todo anuncio vai agradar a todo mundo, mas daí a passar a odiar tudo e todos? E antes que alguém saia por aí falando que é “essa geração criada a leite com pêra”, tem muito marmanjo por aí que amaldiçoou a Microsoft pro resto da vida ou que defende com todas as forças a Nintendo como se sua vida dependesse de mostrar como as third-parties estão erradas por não a apoiarem.

Curiosamente, o termo que mais explicita esse tipo de fã vem do oriente, mais precisamente da Coréia do Sul. Em sua prolífica indústria musical, existe um tipo de fã que não só assusta, como coloca em risco a própria existência do que dizem amar, são os “sasaeng fans”, com uma obsessão tão grande que chega a ser um problema de segurança pública por lá. Mas, o que isso tem a ver com a indústria de videojogos? Bem, ser um fã obcecado é ruim, seja pra um ídolo musical ou pra uma empresa de tecnologia. Sim, elas querem você acampado pra comprar seu último lançamento (seja a Sony, Microsoft, Nintendo, Samsung, Apple ou qualquer outra), mas não precisam de sua obsessão online “destruindo” seus “inimigos”. Aliás, nem eles mesmos se vêem assim (as várias declarações do Jack Tretton e do Kaz Hirai sobre a Nintendo são uma “dica” disso), então por que fãs deveriam seguir essa linha?

A melhor parte do que esses fanboys geram nem são os esforços mirabolantes que eles vão pra defender seus objetos de adoração (por favor, parem de falar que alguém anda inovando nessa indústria, porque as unicas coisas diferentes realmente são a integração entre TV/Console do Xbox One e o controle maluco da Steam Machine), mas a quantidade de anti-fãs que elas geram. Já perceberam o quanto alguns fãs obcecados acabam gerando ainda mais problemas quando tentam defender “sua empresa” dos ataques de alguém que a odeia? Ou como as palavras “Nintendista/Sonysta/Caixista” tem uma conotação extremamente ruim?

Não há qualquer problema em gostar de uma empresa ou dar preferência às coisas que ela coloca no mercado. O problema realmente surge quando você começa a se deixar levar por uma ideia de adoração por algo que, no fim, pouco se importa com quem você é ou o quanto você a defende na internet. Não entenda errado, postar a respeito e dar um feedback do que esta sendo consumido é importante pra qualquer empresa hoje (falando até por nós do Supernovo, um feedback bem estruturado, positivo ou negativo, é sempre importante), mas a forma como ele é dado ou lhe rende o episódio “Fim de Mass Effect 3 e Extended Cut” ou “Dark Souls PC”, que são claros exemplos de como uma comunidade pode se mobilizar e gerar um barulho imenso por uma besteira ou se mobilizar pra ajudar uma empresa a corrigir um jogo que saiu cheio de problemas.

xbox one fansTalvez o episódio mais emblemático desse ano seja toda a comoção em torno do anuncio do Xbox One e a forma como ele foi mal recebido (inclusive por esse que lhes escreve). O barulho em torno das políticas mais polêmicas que originalmente viriam com o console (e principalmente a obrigatoriedade de uma conexão com a internet) causaram um dano que muitos, na época, taxaram de irreversível a imagem da Microsoft. Depois, quando a empresa voltou atrás em algumas das suas decisões, mais clamores de que a Microsoft estaria acabada. Essa reação, é claro, se mostrou exagerada e a Microsoft teve o melhor lançamento de console da sua história.

Outro exemplo: o preço do Playstation 4 no Brasil. Todo aquele barulho, aquele clamor pela morte da empresa, muita gente falando da ganância da Sony e o quanto aquilo era um absurdo que não poderia ser verdade e o quanto era uma falta de respeito… tudo o que tornou um inferno pra quem acompanha a industria mais de perto e viu muita gente, inclusive jornalistas e grandes veículos, compartilhando todo tipo de imagem tosca. Se incomodar com o preço é uma coisa, mas muita gente AINDA reclama em qualquer post nos canais oficiais da Sony por aqui (e muita gente que, a não ser que o console tivesse chegado aqui a R$999, não o compraria de qualquer maneira). Uma hipocrisia que, naturalmente, só mostra o quanto a gente se acostumou a reclamar pelo simples prazer de reclamar.

E ainda tem toda a história de que “a Nintendo vai falir”. Não, isso não vai acontecer tão cedo. Demorou pra caramba pra Sega e sua enxurrada de péssimas decisões falir, imagina pra Nintendo que, não só anda bem com o 3DS (que continua sendo o melhor aparelho disponível no mercado), como já tomou outros golpes financeiros fortes (GameCube…?) e voltou mais forte do que nunca.

O Wii U, por mais que falhe em ser uma revolução como o Wii foi (lembra como Sony e Microsoft demoraram 4 anos pra desenvolver algo que seguisse a mesma linha dele e mesmo assim falharam em atrair a atenção do público?), até pelo Remote Play também ser uma realidade para a Sony a um tempo (O PS3 já é capaz de fazê-lo, mesmo que não muito bem. Ele só passou a ser uma feature obrigatória no PS4), ainda é um bom console. Sem muito que chama atenção se você não gosta de jogos de plataforma (por enquanto) ou os outros exclusivos da Nintendo que sairam pra ele não lhe interessam, é difícil argumentar que há um motivo para compra-lo agora a não ser que você seja um fã da empresa ou esteja disposto a dar um voto de confiança a ela.

A questão é que… será que isso não pode ser extendido aos 3 consoles que chegaram ao mercado no último ano? Realmente tem algum motivo pra alguém comprar um Wii U, um X1 ou um PS4 agora além de confiar no que virá pra eles no futuro? A Nintendo tá bem longe da falência e um ano de vida pra qualquer console ainda é pouco pra julgar. Só que, como não é bonito defender e polêmica gera clicks e likes a dar e vender, falar que a Nintendo deveria se tornar uma third-party/matar o Wii U/se focar apenas em portáteis ou qualquer outra decisão imediatista característica de nossa época (e do “jornalismo” que insiste em tratar artigos do P4R Gaming como notícias sérias. Mas isso fica pra próxima).

Pedir por imparcialidade a qualquer um, jornalista ou não, é uma das coisas mais hipócritas que podemos imaginar. Todos temos gostos, somos fãs de algo e nos identificamos mais com determinadas experiências, mas daí a viver em prol de uma empresa e de seus produtos, defendendo-a a cada oportunidade como se ela fosse incapaz de errar, é uma completa perda de tempo. Cada um de nós gosta mais do que uma ou outra empresa oferece, mas daí a odiar o resto por causa de uma logomarca e do que ela representa e fazer de tudo pra expor isso é, por falta de outro termo, doentio.

No fim, nós focamos demais nas coisas negativas e falamos demais das coisas ruins, esquecendo do que realmente importa, que são as coisas boas dessa industria. Nós perdemos tempo demais odiando um ao outro pelo console que escolhemos enquanto poderíamos estar falando sobre problemas mais graves ou experiências mais belas. Que seja um objetivo pro ano que começa: odiar menos o console “rival” e experimentar mais. Talvez deixar um pouco de lado seu ódio pela empresa X te faça perceber que tem coisas muito boas ali.

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