Especial Mass Effect – Introdução e Filosofia

Thiago Alencar

  quinta-feira, 24 de julho de 2014

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Especial Mass Effect – Introdução e Filosofia

Iniciando nosso especial sobre Mass Effect, falamos um pouco sobre a criação e a filosofia do game

Em uma galáxia muito, muito distante… Opa, não é bem assim que essa história começa. Mass Effect, a franquia da BioWare, lançada para Xbox 360, PC e PlayStation 3 entre 2007 e 2012 pode beber um pouco do gênero de Aventura e Ficção Científica que um certo senhor Jorge ajudou a definir, mas vai muito além de uma cópia de outras obras que a precedem.

Nascida da necessidade da BioWare de substituir a perda da licença da franquia Star Wars (e o aclamdo Knights of the Old Republic), Mass Effect surgiu como um dos primeiros universos criados pelas mentes criativas do estúdio sediado em Edmonton, Canadá. Surgindo como um dos primeiros jogos exclusivos para o Xbox 360, a franquia se expandiria a partir da compra do estúdio pela EA e viria a se tornar um dos maiores marcos multimídia a surgir nos videogames, tendo livros, quadrinhos, filmes animados e jogos em diversas plataformas expandindo esse riquíssimo universo.

Como a primeira homenageada do nosso BananaBits, vocês terão acesso a uma série de artigos falando sobre as ramificações desse universo, com artigos vindouros sobre o primeiro livro da franquia a chegar no Brasil, Mass Effect – Revelação, e dos demais livros da série, uma análise geral sobre as diversas mini-séries publicadas pela Dark Horse e a animação Paragon Lost, tudo culminando no nosso podcast sobre a trilogia principal do Comandante Shepard. Mas, primeiro, vamos a uma breve análise sobre o universo e as inspirações de Mass Effect.

Mass Effect Trilogia

O Universo de Mass Effect
*Disclaimer: o texto a seguir não narra diretamente nenhum acontecimento dos jogos, mas os termos gerais em que situações apresentadas ao longo da trilogia são apresentados podem ser considerados spoilers.

Se tem algo que pode caracterizar o universo da franquia Mass Effect além das sequências de tiro, das escolhas e dos personagens extremamente carismáticos, é o quanto a BioWare bebeu de fontes reais para motivar e definir seus personagens, ao mesmo tempo em que usa seus jogos para espalhar mensagens de tolerância e respeito entre humanos (e permitir que os fãs sonhem um pouco demais com romances com alienígenas).

O primeiro grande detalhe de Mass Effect que talvez passe um pouco despercebido aos olhos é o quanto, a primeira vista, os humanos são relativamente unidos no futuro sob a bandeira da Aliança. Encurralados por guerras contra outras raças e pelo medo do desconhecido, uma vez que as crenças que guiavam a humanidade caíram por terra com o descobrimento de raças alienígenas, as desavenças radicais que vemos todos os dias entre países parecem minimizadas, nascendo assim essa união, uma liderança comum e até mesmo colônias espalhadas pelos diversos Sistemas sob a égide da Citadel (a “Capital” dos Sistemas Galáticos do jogo).

Mas, sabendo da natureza humana e de como somos definidos por nossa individualidade, aos poucos somos apresentados a algumas divergências dentro dessa união e que podem ter seus ecos traçados com problemas enfrentados em nosso mundo. É o caso das Colônias que não estão sob a bandeira e proteção da Aliança, bem como os rebeldes da Cerberus.

As colônias fora da Aliança não tem tanta significância no jogo quanto poderiam, mas são um valioso lembrete do que caracteriza a humanidade. Esses grupos, insatisfeitos com a liderança da Aliança decidiram manter sua independência e seu desejo de agir livremente, colocando os humanos longe dos “padrões” seguidos em especial por Asari, Quarians, Turians e Salarians, do caos que é a liderança dos Krogan e da unidade que são os Geth. Eles mostram o quanto humanos farão aquilo que se espera de sua raça: lutarão pelo que querem.

É nesse ponto que somos apresentados a Cerberus, o grupo extremista humano, que luta pela supremacia da raça humana sobre as demais raças do universo. Munidos da crença que os humanos são inerentemente melhores do que as demais raças constituintes do universo, a Cerberus, liderada pelo Illusive Man, busca fazer aquilo que eles acreditam ser o melhor para os interesses dos humanos, independente de quem eles tenham que destruir no meio do caminho.

Não é muito difícil traçar um paralelo com os grupos extremistas (religiosos ou não), já que, se deixarmos de lado o pré-conceito, o medo e o claro receio que o comportamento apresentado por esses grupos gera em qualquer um de nós (o que é mais do que natural), o que vemos são grupos lutando pelo interesse daquilo que acreditam ser o melhor para a parte da população que acreditam defender.

E é com os mesmos olhos que Shepard e os demais humanos olham para a Cerberus que nós olhamos para esses grupos, com a suspeita (muitas vezes justificada) de que por trás de uma fachada de “defesa dos interesses do grupo x” (e por isso entenda grupo religioso, grupo étnico ou qualquer outra motivação que grupos extremistas/terroristas encontrem por aí) há uma rede escusa de interesses pessoais e um desejo de ir até onde for necessário para alcançar esses objetivos. O principal confronto cercando os humanos parece ser esse debate sobre até aonde é possível ir para definir o seu futuro e qual o limite da nossa liberdade, sendo a Cerberus a principal representação de que é possível, sim, passar dos limites para se defender uma das características que nós sempre atribuímos a nossa raça: a tal liberdade.

legion tali

Aproveitando a citação ao campo religioso, outro paralelo valioso de se traçar é a relação que os Quarians parecem ter com os judeus. Uma raça que vivia em seu planeta e que por uma série de acontecimentos é expulsa dele, sendo obrigados a viver em eterna migração. Situação parecida com a forma como os judeus eram tratados antes da constituição do Estado de Israel, não? Sendo expulsos de seus lares, vendo suas terras ocupadas por um outro povo… Os próprios Quarians tratam o retorno ao seu planeta como um “retorno a Terra Prometida”, enfatizando ainda mais essa relação.

E esse outro povo que passa a viver no planeta dos Quarians? Não seriam eles tão donos daquele lugar quanto os antigos moradores? Não teriam os Geth o direito de continuar a viver no planeta que eles também consideram como seu lar? Não é essa parte da questão que gera todas as tensões entre Israel e a Palestina? Essas questões costumam voltar a luz com bastante frequência, sendo muito relevantes nesse momento de quase guerra que a região da Faixa de Gaza vive.

A própria relação entre Quarians e Geth toca em um outro ponto que nos cerca com frequência e que a cultura pop é tão obcecada a respeito, que é a questão “Homem vs Máquina”. Todos nós já tivemos algum contato com a obra de Isaac Asimov e as “Três Leis da Robótica”, tendo sido as mesmas tratadas a exaustão em obras como Neuromancer, Matrix e as centenas de contos e livros do próprio Asimov.

Sempre que cada novo passo é dado no campo da robótica e a cada vez que ficamos mais próximos de nublar o campo do que é ser humano e do que é ser robô (mesmo que estejamos algumas boas décadas de termos seres sintéticos andando por aí. Então talvez não seja preciso temer se você é ou não um replicante), sempre que a tecnologia toma conta de mais um pouco das nossas vidas, as questões entre Homem e Máquina e os limites da Inteligência Artificial se tornam mais importantes, sendo o confronto entre Geth e Quarians (e a um certo ponto, o desenvolvimento da EDI, a própria batalha contra os Reapers e o final da trilogia) a principal representação disso.

O próprio jogo acaba por trazer uma certa imaginação de como poderia ser e funcionar a mente de uma Inteligência Artificial, principalmente de um grupo de Inteligências Artificiais, dando mais caráter e vida aos Geth, especialmente na missão de lealdade do Legion e uma das missões de Rannoch (o planeta dos Quarians) em Mass Effect 3 aprofunda ainda mais essa tentativa.

wrexSe, por um lado, temos questões problemáticas da Robótica sendo tratadas através dos Quarians e dos Geth, o confronto entre Krogans, Salarians, Turians e Asari é um bom exemplo das problemáticas enfrentadas pela Genética e, em especial, sobre a forma como a manipulação dos genes pode ou não ser usada para moldar a evolução.

A vários anos vemos debates sobre a utilização das células-tronco ou de como os avanços na genética podem mudar completamente o curso da evolução, alterando a duração do ciclo de vida dos humanos, a forma como tratamos diversas doenças ou nos recuperamos de traumas. Há, também, todo o avanço no mapeamento do genoma humano e como isso pode vir a ser utilizado no futuro.

Os Krogans são grandes vítimas de uma raça que passou por um processo de manipulação genética para se desenvolver mais rápido do que eles estavam prontos para evoluir e depois manipulados novamente para não se proliferarem pelo espaço. Todos já tivemos contato com rumores de que no futuro seremos capazes de, utilizando o genoma dos pais, escolher exatamente como nossos filhos serão, acabando completamente com o fator aleatório que sempre esteve presente na reprodução humana.

Mais preocupante do que essa manipulação, na verdade, está até que ponto isso pode vir a ser utilizado para a guerra ou para destruir por completo grupos étnicos, por exemplo. Enquanto muitos se preocupam com as ramificações religiosas e éticas da clonagem e da utilização das células-tronco, a franquia Mass Effect acaba por tratar sobre a utilização da Genética como arma, servindo aos interesses daqueles que a dominam sobre grupos mais fracos.

shepardMass Effect se destaca e se diferencia de outras franquias de videogame por isso, por enraizar em seus jogos discussões muito mais relevantes e profundas do que a esmagadora maioria dos jogos fazem (não que precisem fazer), sem abandonar a qualidade da narrativa ou a diversão.

Tudo sem entrar em detalhes sobre outras políticas da empresa que se espalham por outros de seus jogos (mais especificamente pela franquia Dragon Age) de igualdade e aceitação, tendo sido uma das primeiras produtoras a incorporar relacionamentos do mesmo sexo em seu jogo e tratá-los como algo normal. A própria forma como o jogo constrói a sua relação com seu/sua parceir@ no jogo merece os parabéns, mesmo que ainda precise melhorar bastante.

Outros pontos ainda poderiam ser apresentados aqui além dos já citados anteriormente, talvez o principal sendo a forma como o jogo trata sobre religião (o que pode merecer um artigo mais a frente), principalmente nos arcos das Asari/Protheans e do Thane em Mass Effect 2 e 3. Pode-se dizer, inclusive, que o tema todo por trás da Trilogia é liberdade e os custos para tê-la, sendo caracterizado pelo arco principal dos 3 jogos (o combate contra os Reapers) e a forma como o jogador lida com as decisões do Shepard.

A forma como é capaz de incorporar discussões relevantes e profundas dentro da narrativa do jogo e do estilo característico dos videogames, sem necessariamente escancarar as metáforas na cara dos jogadores, mas ainda tocando nas mesmas e expondo diversos pontos de vista a respeito delas é mais uma das coisas que tornam a BioWare um estúdio tão especial e a franquia Mass Effect um dos principais legados da sétima geração de videogames.

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