Artigo | Tecnologia, Magia e Experiência

Thiago Alencar

  sexta-feira, 08 de novembro de 2013

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Artigo | Tecnologia, Magia e Experiência

Uma visão sobre a importância da tecnologia dos video-games na hora de criar a magia e a experiência que torna a mídia em algo completamente único

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Velhos, novos, indies ou milionários. Nintendo, Sony, Square, Sega, Capcom, Konami, Ubisoft, EA… Há um laço que une a todos os fãs dos joguinhos estilo videogame: a magia que sentimos com nossos jogos preferidos.

Mega Drive. SNES. PS1. PS2. PS3. 3DS. Coloque um pouco de PC nesse mix e a minha história no mundo do entretenimento virtual esta (quase) catalogada. Como todo e qualquer jogador, alguns jogos me cativaram mais em cada plataforma do que outros, mas isso não torna diferente a primeira sensação que tive com cada um: o quão mágico foi a primeira vez que o console foi ligado e o primeiro jogo começou. É uma sensação que me surpreende que ainda consiga replicar. Talvez eu ainda seja um tolo apaixonado e crente no poder dessa mídia tão imersiva e criativa, mas, salvo a (nossa) memória afetiva, pouquíssimas coisas separam um NES de um Wii U, um Game Boy de um 3DS, ou um PS1 de um PS4. Porque, assim como o cinema e a literatura, os jogos são uma fábrica de vender sonhos.

Sonhos sem idade. Sonhos sem limites. Sonhos criados por hardwares poderosos ou inovadores e por softwares cada vez mais trabalhosos e difíceis de se fazer. Sonhos que tornam toda a estrutura da indústria algo extremamente complicado, pois sem a volatilidade dos celulares e seus OS e aparelhos evoluindo a cada segundo, consoles se tornam investimentos sem retorno por si mesmos (a exceção da Nintendo que já a algum tempo vende seus consoles com lucro – um dos motivos pro Wii U não ser tão poderoso quanto poderia – a regra passou a ser perder dinheiro em toda unidade vendida) e em uma tentativa cega de prever o que será suficiente pelos próximos anos, o que parece cada vez mais impossível, se a mudança de cenário e durabilidade da geração passada é algo a se tomar como base. E antes que alguém grite por aí que a resposta é “não foquem nos gráficos!”, uma surpresa: não é sobre isso.

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É sobre a facilidade de desenvolvimento. É, nas palavras do próprio Mark Cerny (um ídolo pessoal nessa indústria de grandes nomes), dar ao desenvolvedor a capacidade de ter seu jogo rodando na mesma velocidade que era possível no SNES e no PS1 (que, se não os consoles mais vendidos de todos os tempos, talvez os mais populares entre os saudosistas) e dar a mais desenvolvedores independentes a possibilidade de concretizar seus sonhos de ter seus jogos lançados nos consoles que cresceram jogando. E é, sim, também a chance de concretizar o sonho da indústria de ser cada vez mais realista ao mesmo tempo em que é mais imersiva do que qualquer outra mídia.

E cada novo hardware nos dá novas oportunidades. Alguns dos melhores jogos de todos os tempos chegaram ao nosso poder nos últimos 3 anos, exatamente quando os estúdios passaram a entender melhor a arquitetura por trás dos consoles. Não dá pra imaginar experiências como The Last of Us, Bioshock Infinite, Uncharted, os Batman Arkham, Xenoblade Chronicles ou Portal em gerações anteriores, assim como experiências tão especiais em antigos consoles, dificilmente são reproduzíveis hoje, por maiores que sejam os esforços de alguns (belos) jogos independentes.

A indústria não parou no tempo. O fato dela não ser como muitos a idealizam não a torna “decadente”. Mesmo em tempos de dificuldade financeira e custos cada vez mais elevados, publishers e estudios tem buscado aprender formas de se manter relevantes e novos, mesmo que você não consiga ver tão além dos números na frente do título. O fato de Deus Ex: Human Revolution, Spec Ops: The Line e Bioshock Infinite serem jogos caros, modelados em 3D e de grandes produtoras invalida toda a discussão que ambos trazem a mesa? Não ser em 8/16 Bits apaga a magia que esses jogos tem?

Não podemos esquecer que a indústria é “nova” e que cresceu inspirada pelo cinema, caminhando aos poucos rumo a uma narrativa mais densa e melhor desenvolvida, por mais que sejam raros os exemplos de jogos que chegam ao nível de discussão que o cinema é capaz de trazer, os videogames chegaram ao mesmo em que o cinema se encontra: é caro demais fazer filmes/jogos, fazendo com que os grandes blockbusters sejam necessários pra que estúdios possam investir mais em pequenas produções, ao mesmo tempo em que é cada vez mais fácil não só produzir de maneira independente mas distribuir a sua produção, e isso em nada significa um declínio ou estagnação da indústria.

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É por isso que a falácia do “Cidadão Kane dos Videogames” é venenosa. Nós procuramos por algo que revolucione os jogos com um impacto gigantesco e definitivo que moldará a indústria pelos próximos 20 anos. A verdade é que isso é praticamente impossível em um mundo de microrevoluções diárias. Essa indústria em específico recebe e abraça a mudança como sua própria essência do que significa ser um jogo, diferente do cinema que parece preso no peso de seu próprio passado (seria essa a diferença da recepção mista que os 48fps receberam com o Hobbit e a busca pelos míticos 1080p x 60fps nos videojogos?) que se torna impossível que algo seja tão grande e tão revolucionário quanto o filme do genial Orson Welles foi em 1941.

Com cada nova evolução, novos corações são conquistados. Mesmo que os videogames não tenham os executivos que provavelmente merecem, nós fãs também nem sempre fazemos jus ao que tentam nos dar a cada novo jogo, cada novo episódio de uma franquia. Videogames são especiais porque uma franquia não significa tanto um mesmo herói quanto uma mesma experiência. É o que permite que novos Dragon Age não tenham um mesmo herói, que a cronologia de The Legend of Zelda não seja tão relevante assim, que a gente não se importe com o sobrenome do Mario e do Luigi e que cada novo Final Fantasy seja excitante pelas novas mecânicas, novos mundos e novos personagens que conheceremos.

Isso é o que torna engraçado que os mesmos fãs que reclamam de DLC’s (que, no fim das contas, são opcionais e são uma forma de agregar mais conteúdo ao jogo), suspirem ao lembrar de Battletoads e outros jogos “difíceis” (e que, na verdade, só eram quebrados/mal-programados ou simplesmente feitos pra que você gastasse mais e mais moedas nos Arcades pra que a empresa ganhasse mais dinheiro. EXATAMENTE como dizem que os DLC’s são), é o que torna a indústria estranha não por ter “evoluído errado”, mas por ter evoluído pouco em alguns pontos (novos consoles ainda são “guerras técnicas”. O Wii e o Wii U são as poucas exceções a regra).

Acima de tudo, está o fato dos videogames serem algo além do cinema. Além da TV e da música. A única outra mídia capaz de proporcionar o mesmo grau de envolvimento e imersão é a literatura, sendo que videogames ainda precisam lidar com o desafio de tirar do consumidor a magia de criar sua própria visão daquele universo. E, ainda assim, é mágico quando nos incubem de fotografar as ações erradas do governo, um agente secreto envolto em conspirações com robôs gigantes, sobreviventes em um mundo pós-apocaliptico, um jovem rapaz-fada destinado a salvar o mundo sem que ninguém saiba, um encanador em busca de sua princesa, nos jogam em uma viagem no tempo com robôs e homens-sapos, te fazem lutar contra um destino, salvar a galáxia de reapers, evitar uma invasão de demônios, matar dragões… e tantas outras experiências que se tornaram possíveis a cada novo avanço e cada nova geração, cada qual com sua sensação mágica e suas inovações, por menos aparentes que sejam. Videogames se tornaram uma prova do quão mágica a tecnologia pode ser e a imersão cada vez maior que ela pode gerar. E isso só os torna mais e mais apaixonantes, pois, quando menos se espera, uma nova experiência mágica lhe espera no início daquele jogo, não importa quando e em que plataforma, o formato, idade, cor ou preço dela.

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