8Bits – Os Heróis que Nos Constroem

Thiago Alencar

  segunda-feira, 23 de setembro de 2013

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8Bits – Os Heróis que Nos Constroem

A Mitologia do Herói e, como em meio as dificuldades, grandes símbolos nos inspiram.

Nós já falamos sobre o significado da figura do herói por aqui. Sobre como, em tempos mais sombrios, sem a pureza e esperança que permeavam outras décadas, nós passamos a olhar para o cinismo e as falhas de caráter como símbolos para admirarmos. Sobre como deixamos de lado símbolos de bondade e superação, deixando de acreditar em nosso potencial, e, como, por medo, colocamos a culpa dos nossos problemas em tudo que está ao nosso redor. Mas… a questão que fica é: será mesmo?

Autor desconhecido - se alguém souber o autor dessa imagem, por favor diga nos comentários

Autor desconhecido – se alguém souber o autor dessa imagem, por favor diga nos comentários

É normal encarar as coisas com uma falta de esperança imensa. É fácil olhar com cinismo para qualquer demonstração de bondade ou ser irônico, ou sarcástico, com qualquer coisa que não siga a linha que nós esperamos. Ter traços de ironia passou a ser uma característica comum em qualquer conversa. E, por sua vez, encontrou seu caminho para a cultura pop. Não haveria qualquer problema nisso, se, em meio a tantos tons “cinzas” no heroísmo, nós não escondessemos os bons sinais e a essência do que significa ser herói de verdade.

O “mito do herói” e a sua jornada tem estado em nossa cultura desde que histórias começaram a ser contadas. Lendas e mitos sempre trataram dos bons homens capazes de feitos extraordinários. De Hércules e seus 12 trabalhos, Odisseu e sua genialidade, Aquiles e suas capacidades sobre-humanas, Davi e sua vitória sobre Golias, Atrahasis e sua arca… a lista vai e segue por nomes como Heitor, Jasão, Arthur, Hou Yi e tantos outros. Heróis nos inspiram desde o começo da civilização, seja ela ocidental ou oriental. São exemplos de superação, astúcia e força de vontade. Emanam o que há de melhor em ser um humano. Mesmo que nem sempre sejam humanos.

Sendo exemplo do que devemos ser, se tornaram mais que heróis. Se tornaram figuras santas. Ande um pouco, principalmente em lugares mais simples de sua cidade ou olhe a timeline de seus amigos mais religiosos: a frase “Jesus é o meu Herói” estará lá. Em vários lugares. Afinal, em um país tão cristão, é de se estranhar que um dos (se não O) maiores símbolos das virtudes humanas, daquilo que esperariamos ver em outras pessoas e em nós mesmos, não seja considerado um herói? Não é isso que devemos aspirar a ser?

Homem-Aranha 2 Sets 60

Mas, em essência, esses mitos são mitos “clássicos”. São mitos comuns a história humana ou até mesmo esquecidos no tempo. Nós vivemos na era do agora, do imediatismo e do julgamento precipitado. Nossos heróis precisam refletir isso, não? Talvez não. Não importa o quanto você goste dos filmes da Marvel, qual o herói que mais recebeu atenção nesse ano? O Superman. Um herói que a anos sofria com o estigma de “bobo”. Mas, o que será que permitiu que esse “novo” Superman se tornasse tão popular? Será só as doses cavalares de ação do filme? Ou haverá algo relacionado a toda a simbologia religiosa tão ligada ao personagem e presente em uma boa quantidade (até exagerada, como disse o sábio Bruno Costa do Cinéfilos no Bananacast #61) no filme? Não seria o fato do Superman, de forma fictícia e “pop”, representar os mesmos ideais de Jesus que o torna um herói tão atemporal? Sendo assim, o maior símbolo existente do que é ser um super-herói?

Ele é um cara de bom coração... juro

Ele é um cara de bom coração… juro

Video-games, como mídia, tem evoluído bastante em sua forma narrativa, abandonando o seu lado puramente mecânico de “pula pula bate bate atira atira” e se focando também em uma construção de narrativa mais bem elaborada e mais densa. Isso nos levou a alguns dos pontos mais altos que essa industria chegou, com jogos como Papo & Yo, Journey, The Walking Dead, Bioshock Infinite, The Last of Us (esses ultimos dois, você pode conhecer nossas opiniões no Bananacast #63) e, o recém-lançado, GTA V, representando uma evolução narrativa que muitos poderiam considerar impossível ou desnecessárias (muita gente ainda o considera) a um par de décadas atrás. Mas também tem nos feito repensar nossos símbolos. E, com isso, tem nos feito tratar como infantis personagens sem tanto “desenvolvimento psicológico”. Mario, mesmo sendo o mais conhecido personagem de videogame, é tratado pelo chamado “gamer hardcore”, ou pelo menos boa parte deles, como sendo um personagem bobo e inútil. A Nintendo é avacalhada por manter seu ideal de heróis BONS. Mas será que precisamos mesmo de mais protagonistas sombrios (isso quando não são meramente vilões ou bandidos) e menos Links e Marios? Devemos mesmo ignorar Knack e só pensar nos protagonistas do novo Killzone e inFamous como “personagens para gamers de verdade”?

Cada vez menos, vemos heróis que aspiram ser bons por serem bons. A medida que a inocência e otimismo, que dominaram os anos 80 (mesmo que sons sombrios ecoassem abaixo da espessa camada de glitter, purpurina, laquê e roupas neon), se esvaiam com o avançar da década seguinte, anti-heróis se tornaram mais e mais presentes e o desespero por adaptar heróis a essa idéia gerou coisas bizarras como o Superman Elétrico e a Saga do Clone do Homem-Aranha. Passou a ser cada vez mais importante ter outros anseios longe do simples ideal de fazer o certo e, “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”.

Mas, por mais que gostemos de reclamar, há uma razão para a presença desses heróis ser tão grande em nosso imaginário popular hoje. Há uma mensagem e um conforto em ver como Bruce Wayne, mesmo com sua insanidade, passou a lutar pela segurança e pelo bem dos outros, sacrificando qualquer possibilidade de uma vida normal para assumir a persona de Batman, após uma das maiores tragédias que um humano comum pode pensar (nós sabemos o quão inimaginável é a idéia de perder seus pais, principalmente em idade tão terna). Em como o Wolverine passou de um assassino feroz a protetor de uma jovem heroína (que mais tarde se tornaria uma das maiores entre as mulheres da Marvel) e, por fim, a Diretor da Escola Jean Grey de Ensino Superior.

RamzaHeróis, no fim, são os símbolos que ressoam em nós. Por mais que possamos olhar para os grandes simbolos e querer que todos representem os mesmos ideais, não é isso que os torna tão interessantes. O enorme hall de heróis, com personalidades, raças, cores, origens, motivações e aspirações diferentes é o que os torna especiais. Se o arco escrito para Hope, Fang e Lightning em Final Fantasy XIII, de Ramza em Final Fantasy Tactics ou da Lara em Tomb Raider ressoaram comigo e com quem eu sou, não necessariamente terão o mesmo efeito em outra pessoa. É o que me faz não entender a adoração com Stark, Wayne ou Logan, como disse antes, mas que os torna especiais para outros milhões de pessoas por todo o mundo.

E é isso que, no fim, talvez signifique ser herói. É partir em uma jornada e, através de sua história, se tornar um símbolo. É inspirar alguém a ser algo maior e a aspirar ser alguém melhor. É, ao menos em parte, ser um símbolo do que de bom há em nossa espécie, independente de credo, cor, origem social ou orientação sexual. É, acima de tudo, ser bom.

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