50 Tons de Heróis – Heróis que precisamos ou os heróis que merecemos?

Thiago Alencar

  segunda-feira, 19 de agosto de 2013

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50 Tons de Heróis – Heróis que precisamos ou os heróis que merecemos?

Alguns pensamentos sobre os heróis que a sociedade atual admira e como isso reflete no mundo dos games e do cinema

50 tons de heroi 2Houve um tempo em que ser um herói significava algo maior. Significava buscar a justiça, ter responsabilidade, superar seus medos, aceitar o peso das suas decisões, lutar por um ideal de liberdade e igualdade ou qualquer outro motivo puro e nobre. Ser um herói, significava buscar o que de melhor há na essência da humanidade e, através do seu esforço pra ser melhor, inspirar os outros a serem melhores. Significava uma esperança. Esperança em um mundo melhor de humanos melhores.

Havia um mundo em que um louco psicótico, apaixonado por uma cidade e em uma cruzada por vingança contra todo e qualquer criminoso, não era o seu herói mais conhecido. Um mundo em que olhava pra um rapaz de cueca vermelha por cima das calças e o via como um símbolo de algo maior, do que a humanidade havia nascido para se tornar. Não seres super-poderosos, mas justos e honestos. Bons. Um mundo em que um assassino “reformado” não era o protagonista em uma hq que propõe que a solução pros problemas é voltar no tempo e matar o responsável pelos mesmos (e Era de Ultron em momento algum diz que matar o sr. Pym foi o errado, mas sim, voltar no tempo).

Não me entendam mal, eu adoro o Batman, mas não do homem embaixo do capuz. O Wayne nunca foi alguém em quem eu poderia me inspirar. Por que eu olharia pra ele e aspiraria ser o Cruzado de Capa, se eu poderia olhar pro Parker e ver um jovem, em conflito consigo mesmo, mas que ainda conseguia superar seus medos e demônios pra buscar ser uma pessoa mais justa? Por que não olhar pro rapaz que, mesmo sendo o último de sua raça, escolheu ser um símbolo de esperança e bondade pro povo que o adotou?

50 tons de heroiMe surpreende ouvir que o Wolverine é o melhor herói de todos e que ele é um modelo das mesmas pessoas que me dizem que o mundo tá violento demais, perigoso demais e que as pessoas não confiam nas outras. Mas… porque nós deixamos que bons PERSONAGENS sejam nossos exemplos e modelos de herói? Será mesmo que eu devo achar lindo o quão raro é ver uma criança correndo com uma capa vermelha ao redor do seu pescoço e a quantidade de garotos fingindo ter garras saindo dos seus punhos?

Eu tenho culpa nisso também. Nós acabamos nos acostumando a aplaudir as ações violentas e repressivas, ao mesmo tempo em que desprezamos qualquer ato bom ou de altruísmo. Nos acostumamos com sua raridade como se fosse algo comum e banal. E ainda nos surpreendemos com a quantidade absurda de violência gratuita que presenciamos dia-a-dia. Nós consumimos esse tipo de conteúdo, ignorando qualquer tipo de classificação etária, como se violência fosse “livre para todas as idades”.

E isso diz muito sobre o estado da industria do entretenimento. Jogos são feitos pra te dar o controle de um personagem com uma arma na mão e só a partir daí te contar uma história. Cada vez menos filmes sem grandes sequências de ação chegam a cinemas menores, reservados aos grandes filmes de herói e adaptações dos livros da moda. O lugar onde você pode encontrar um “asilo” disso? Quadrinhos e livros. Não ser uma indústria multi-bilionária apoiada em algumas poucas grandes produtoras te dá a liberdade de tratar sobre assuntos mais diversos, contar histórias que não sejam montadas em torno das cenas de ação. Mesmo o próprio cinema, quando feito de forma independente, tem mantido sua liberdade de contar as mais diversas e charmosas histórias através da produção independente, sem apoio dos grandes estúdios, produções que chegam mais facilmente as nossas mãos dado ao advento dos sistemas de VOD, ao torrent e outros meios de distribuição digital.

A industria de jogos eletrônicos só agora começa a aprender a diversificar sua produção. A medida em que se torna mais “fácil” e mais barato produzir e publicar de maneira independente, graças ao fortalecimento de engines como o Unity 3D, o fortalecimento do PC como uma plataforma capaz de gerar lucro e as várias plataformas disponíveis pra quem comprar e vender jogos (GoG, Steam, Dasura e outras) é o que tem permitido que jogos como Papo & Yo, Depression Quest e That Dragon sejam produzidos. É o que abre o caminho para que a mídia amadureça e deixe de ser um emaranhado de jogos de tiro mal-feitos, franquias requentadas e nada a ser contado.

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É essa adoração por heróis cada vez mais violentos e que fazem o que nós não podemos, por heróis que resolvem os problemas com suas próprias mãos, por Assassinos em busca de vingança (como 2 dos protagonistas da franquia Assassin’s Creed), por bon-vivants, “bilionários, filanotropos”, é essa adoração que não deveria nos surpreender quando, a cada nova tragédia envolvendo adolescentes (sejam eles culpados ou não), que jogos ou filmes sejam apontados imediatamente como o culpado. Em um mundo de medo, são símbolos da violência, violência que faz parte da nossa sociedade em um nível inaceitável, mas que se tornou comum e não somos capazes de aceitar. Somos humanos e não vamos apontar pra dentro de nós, pra nossa culpa. Nós apontamos pros símbolos.

É uma sociedade que precisa evoluir. Que precisa parar de permitir que crianças de 12, 13, 14 anos tenham acesso a jogos que não deveriam estar nas mãos deles por pelo menos mais 4 ou 5 anos. Que precisa parar de ter filmes de heróis que não deveriam ser símbolos, acessíveis a essas mesmas crianças. Nós deveríamos ensinar o “futuro da nação” a serem crianças boas, tolerantes e cheias de esperança por um mundo melhor. Que aspirem por algo maior, que olhem pro Superman como um modelo a seguir, não como um otário a ser ignorado. Pro Homem-Aranha não como um herói que precisa de uma recauchutada, uma nova versão mais violenta e mais sombria, mas alguem que, quando as sombras ao seu redor são maiores, sua alegria e vontade se tornam superiores a todo o resto.

Não deveríamos nos espelhar em Joel, Drake, Booker ou em um herói aleatório de qualquer GTA. O jogo mais esperado do ano não deveria ser um no qual você encarna três ladrões diferentes. Esses jogos deveriam existir? Sim, claro. A franquia GTA sempre foi um baluarte de excelência técnica e é com o dinheiro que ela movimenta (junto com os jogos de esportes da 2K) que a Take-Two é capaz de financiar jogos como Bioshock Infinite, XCOM e vários outros (da mesma forma que a EA faz com seus jogos de esporte). E, defnitivamente, não deveríamos ter frases como “Queremos que os jogadores realizem a fantasia de ter uma vida criminosa bem-sucedida” servindo como chamariz pra venda de um jogo. Enquanto aceitarmos a violência como algo comum e normal e os símbolos da cultura POP forem heróis e produtos que essencialmente refletem isso, não há do que reclamar. Teremos os heróis que merecemos, não os que precisamos.

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